Num sítio muito longe daqui, lá pras bandas de onde nasci, havia um velho homem que criava galinhas. Nesse sítio, as galinhas se orgulhavam de ter belo galinheiro, bem montado, com poleiros elegantes, onde, ao cair da tarde, todas – desde as mais novas até as mais velhas – se empoleiravam para dormir.

Mas orgulho à parte, certa feita, veio um temporal desses que não pede licença pra cair, nem avisa os estragos que vai fazer. Era vento balançando as árvores pra lá e pra cá; chuva forte se derramando sobre o telhado; trovões e raios, e não havia água benta nem palha do domingo de ramos que conseguisse acalmar a tempestade.

As galinhas se puseram em polvorosa. Corriam, batiam asas, se encolhiam nos cantos. As galinhas-mãe ajuntavam seus pintainhos; e o galo-pai cacarejava forte para a chuva espantar. Qual nada! A tempestade caiu com força durante horas e deixou seu saldo. No dia seguinte, o galinheiro estava no chão: galinhas, galo e pintainhos desabrigados, sem poleiro para procurar quando chegasse o ocaso.

Passado o caos inicial, tudo deveria votar ao normal no dia seguinte. Mas como fazer sem poleiro para dormir? Na primeira noite, as penosas ficaram desorientadas, feito almas penadas, zanzando de um lado pro outro, acometidas por grave insônia que não as deixava descansar. Sem poleiro era impossível dormir. No auge de sua dignidade, madames galinhas se recusavam a fazer do chão seu poleiro, como se fossem patas e gansas que não sabem empoleirar-se. Isso era demais pra elas!

No outro dia, logo cedo, o galo cantou e reuniu a galinhada para uma assembleia. Ninguém tinha dormido mesmo; era hora de trabalhar. Na reunião, a pauta não podia ser outra: um lugar para dormir até quer o galinheiro fosse reerguido, afinal sem dormir não dá pra aguentar a dureza da vida aviária.

As opiniões foram diversas; cada galinha cacarejava uma sugestão. Mas, diante das intempéries da vida, lugar mais seguro não parecia haver que uma mangueira frondosa, junto ao galinheiro. Foi, com certeza, o lugar mais votado. A maioria tinha deliberado: no fim da tarde, cada galinha daria jeito de se empoleirar na alta mangueira do quintal.

Então, uma a uma lá iam elas ensaiando seu voo. Certamente, os galhos, bem mais altos que o confortável poleiro feito à medida de sua comodidade galinácea, dificultavam o empoleiramento natural. As galinhas mais novas e mais esbeltas alçaram voo e tiveram sucesso nas primeiras tentativas. Mas pobres aves gordas e velhas, já quase prontas para se tornarem uma boa sopa de parideira! A primeira tentativa foi desastrosa. Não houve impulso que lhes ajudasse a atingir os galhos. Todo bater de asas parecia vão. Nada! As galinhas se espatifavam no chão. Insistentes como são as galinhas, tentaram novos voos; todos inúteis, todos frustrados, todos com o mesmo resultado: o chão. Era vexame demais. Patas e gansas se riam das galinhas, sentindo-se vingadas, uma vez que a natureza não lhes favorecia o empoleiramento e dormiam no chão, brilhasse a lua ou caísse a chuva.

Joãozinho, o filho do sitiante, “arreparava” feito bom mineiro as galinhas em procissão a se espatifarem no chão, depois do insucesso dos ensaios. E se divertia, rindo a valer das pobres galinhas gordas. Mas, para espanto de Joãozinho, certa tarde, quando o sol se punha e as galinhas mais uma vez tentavam alcançar o poleiro, passou bem debaixo da mangueira um cachorro alvoroçado a perseguir um gato irritante. E qual não foi o susto das galinhas, que, num pulo só, gordas e magras alcançaram a mangueira. Nem mesmo as galinhas gordas acreditavam em tal façanha. Olhavam orgulhosas para o chão, vendo patas e gansas lá embaixo, e elas lá nas alturas, em pé de igualdade com as galinhas elegantes. Vendo o ocorrido, Joãozinho não se fez de rogado. Enquanto o galinheiro não era reerguido, já sabia qual era sua tarefa ao entardecer: assustar galinhas gordas para que achassem forças para altos voos arriscar. Desde então, Joãozinho aprendeu a lição: basta um susto da vida e a gente logo voa mais alto!


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