Muitos dizem por aí: “Precisamos tirar os jovens do mundo”. Mas será possível tirar os jovens do mundo? De que mundo estão falando aqueles que desejam realizar esta façanha? Certamente, quem diz isso não deseja de fato tirar os jovens do mundo, no seu sentido mais corriqueiro de cosmos, criação, lugar onde habitamos, planeta Terra. Até porque, se tirarmos os jovens do mundo, onde vamos colocá-los?  Mas dá pra entender quando alguém diz que devemos tirar os jovens do mundo, se tomarmos os vários sentidos que o termo “mundo” adquire no Evangelho de São João.

Vejamos um exemplo: O capítulo 12 do Evangelho de João traz dois versículos aparentemente contraditórios se não soubermos que a palavra mundo tem vários significados para o evangelista.

“Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso” (Jo 12, 31) e “Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo; porque eu não vim para julgar o mundo, e sim para salvá-lo” (Jo 12,47).

Quando a gente lê esse texto, a gente se pergunta: “E aí Jesus, o Senhor, vai ou não julgar o mundo?”

Acontece que o termo grego kosmos (traduzido por mundo) tem quatro acepções. Veja alguns exemplos:

1) mundo como obra de Deus (criação; planeta Terra, cosmos): Jo 16,28
2) mundo hostil a Deus, seus opositores: Jo 7,7; 12,31; 14,30; 15,18
3) mundo enquanto pessoas, a humanidade inteira: Jo 3,16-17; 12,19
4) mundo enquanto história e cultura, meio cultural no qual vivemos: Jo 9,5; 14,27

No caso do capítulo 12, não há contradição. O que está sendo afirmado é que o mundo a ser julgado é aquele mundo entendido como hostil a Deus (sentido 2) e o mundo a ser amado são as pessoas (sentido 3).

Bom, agora dá pra entender quando alguém diz “fulano é do mundo”. Certamente, como no caso dos jovens que devem ser “tirados do mundo”, esta pessoa só pode estar falando do mundo hostil a Deus. Mas não será perigosa esta expressão? Certamente que sim. Há um risco em dizer “quando eu era do mundo”, “tirar alguém do mundo”, “fulano é do mundo”, até porque muitos estão unindo dois sentidos de mundo: o mundo enquanto hostil a Deus (2) e o mundo enquanto cultura e história (4).

É bom lembrar que o mundo enquanto cultura e história não é hostil a Deus ou contra a fé cristã. O mundo da cultura é só um mundo possível, um mundo nem bom nem mal, nem a favor do evangelho nem contra ele. É só um espaço cultural que deve ser evangelizado como qualquer outro. Não há uma cultura boa e outra ruim. Nem há um mundo da fé e outro sem fé. A fé cristã cabe em qualquer cultura e em qualquer mundo e é, a partir de dentro – da cultura ou deste mundo –, que o evangelho vai ser fermento na massa. Não dá pra viver à margem do mundo.

Então vejamos. Há um equívoco quando alguns consideram a cultura moderna ou pós-moderna como se elas fossem inimigas da fé. Por pensar que a cultura é má, alguns querem “tirar os jovens do mundo”. Mas não dá pra viver fora da cultura, fora do espaço do pensar, do sentir, do viver no qual estamos inseridos, como não dá pra viver fora do planeta Terra. Alguns até sugerem “criar espaços alternativos” – boates, lanchonetes, discotecas, bares, etc – para o jovem freqüentar, sem precisar ir aos ambientes mundanos. Doce ilusão! Não é possível isto, até porque a cultura é mais do que estes espaços. A cultura é um modo de existir no qual estamos envoltos e não da pra viver fora dele.  A religião não deve se fechar num gueto; os cristãos não devem fugir da vida. Pela fé, devemos considerar a palavra escrita em 1Pd 3,15: “Estai sempre preparados para [dar] resposta (grego: apología) ante todo aquele que pedir razão da esperança que há em vós”. Isso significa uma atitude apologética enquanto postura lúcida de diálogo com o contexto cultural no qual vivemos. Assim fizeram os primeiros apologistas da Igreja primitiva, que responderam às questões de seu tempo confrontando objeções e procurando alternativas no âmbito da linguagem filosófica. Com sua argumentação, expressaram a verdade da fé “tão antiga e, ao mesmo tempo, tão nova” (Mt 13,52), ou seja, a mesma fé ganhou uma nova roupagem, linguagem nova. Além disso, temos a orientação de Paulo ou de um discípulo dele: “Conduzi-vos com sabedoria para com os de fora, aproveitando bem as oportunidades (grego: tón kairón = os tempos). A vossa palavra seja sempre agradável (grego: én cháriti, na graça), temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um (Cl 4,5-6)… E, para completar, afirma outro escritor sagrado: “…fazendo-o, todavia, com mansidão e reverência, com boa consciência” (1Pd 3,16).

Bom, parece que já deu pra entender que esse negócio de “ser ou não do mundo”, “fugir do mundo ou enfrentá-lo” é mais complicado que parece. Vou dar razão aos que dizem que devemos “tirar os jovens do mundo” se eles estão querendo dizer que devemos evangelizá-los para que não sejam hostis à mensagem do evangelho, opositores da boa-nova. Vou ficar contra eles, se estão querendo criar um mundo artificial onde o jovem possa viver, fora da cultura que o cerca, mesmo que ela tenha seus limites – e ela os tem, certamente!

Lembremo-nos do que disse Jesus no Evangelho de João: “Pai, eles não são do mundo… não rogo pra que os tire do mundo, mas para que os guarde do maligno” (Jo 17,14-15). Ou seja, eles não são do grupo dos que se opõem à fé, mas estão no cosmos, na cultura, no mundo criado… e é neste mundo que devem testemunhar a fé.


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