Crise ou noite escura: momento mais delicado do crescimento em Cristo. Acontece quando o cristão se depara com o inevitável. O maior desafio do ser humano se encontra no enfrentamento do inevitável, quando lhe acontece o que não queria e o que não planejara. Quando a realidade resiste-lhe. O imprevisto pertence à dimensão do inevitável. Alguns estudiosos o chamam de destino, compreendido não como o que Deus determinara desde sempre para cada um, mas como o que nos acontece sem a participação de nossa liberdade ou decisão. Afinal, ninguém escolhe o sofrimento. Daí advém a crise: situação crítica, arriscada e exigente, que preanuncia mudanças importantes, para melhor ou para pior, dependendo da reação pessoal e do empenho da liberdade. Esse fenômeno foi muito bem observado, desde sempre, no caminho espiritual. No desenvolvimento psicológico há também momentos fortes de desconcertos e incertezas.

A espiritualidade cristã, desde seus inícios, se debruça sobre o sofrimento, a cruz, a desolação, o abandono e as provas. Quem nunca foi provado pelos acontecimentos da vida? Fator decisivo no progresso rumo à maturidade cristã, uma fase que parece romper com as precedentes. Quem passou pelas outras cresceu, amadureceu, adquiriu autoconfiança e, portanto, esperaria um nível mais elevado de integração e de harmonia. Sobrevém, ao contrário, uma situação pessoal desconcertante que rompe as regras do programa. Obscuridade, aridez, abandono, incapacidade total são expressões dessa experiência vivida por muitos cristãos. A Beata Teresa de Calcutá, no auge da crise, abre seu coração: “Dizem que a pena eterna que sofrem as almas no inferno é a perda de Deus… Em minha alma eu experimento precisamente esta terrível pena da perda de Deus, de Deus que não me quer, de Deus que não é Deus, de Deus que na realidade não existe. Jesus, te rogo, perdoa minha blasfêmia.” Os homens e as mulheres espirituais conhecem os sofrimentos. No meio da crise, a beata Teresa se mantém fiel a Jesus e ao evangelho. Expressa o seu sofrimento, grita-o, mas não muda a orientação fundamental da sua vida para Deus. Ela crê, mesmo na mais pura desolação interior. O que ela diz não causa admiração, porque o sofredor goza do “privilégio de Jó”, ou seja, pode dizer o que quiser.

A crise produz uma ruptura, que nada mais é do que uma mudança de rota que põe o cristão no verdadeiro caminho do amadurecimento em Cristo, morto e ressuscitado. Morte e ressurreição não são idéias teológicas abstratas, fazem parte da vida de todos os que verdadeiramente querem servir a Jesus. A espiritualidade antiga afirmava: Deus “envia sofrimentos”. Mentalidade hoje superada, porque Deus, enquanto amor, não deseja o sofrimento de nenhum de seus filhos. Deus não manda sofrimentos, sequer os permite, apenas não interfere. Respeita a autonomia do criado e a liberdade humana. Assim foi com Jesus: Deus-Pai não “permitiu” que seu Filho sofresse, como muitas vezes se diz. Ele apenas não interveio. Uma vez morto em consequência da rejeição a seu projeto de construção do Reino, o Pai o ressuscita, fazendo vitorioso o que fracassara, antecipando assim a vitória do justo sobre os injustos. O sofrimento, quando vem, exige, para quem crê, ser enfrentado à luz da fé. Jesus o enfrentou na confiança inabalável no Pai. O problema da existência do mal no mundo é, em parte, um mistério de explicação complexa. Na vida pessoal, todos fazem a experiência do sofrimento, fruto da dissonância entre a realidade e o desejo. O sofrimento sempre emerge do peso do real. Afinal, quem tem uma vida ideal? Quem não se depara, todos os dias, com a dimensão da cruz em sua vida? Pois o cristão enfrenta as provas da vida em união com Cristo, o que lhes garante um sentido e faz amadurecer na fé.

 A dor física, psicológica ou moral, por menor que seja, produz o sentimento de derrota. De improviso, a auto-imagem sofre uma alteração. A pessoa se descobre diversa daquilo que imaginara e sua vida toma uma direção  diferente da que havia planejado. Vê-se diante de um caminho que preferiria evitar. O encontro com ela mesma, com os outros, com o mundo e com Deus não se realiza segundo o desejado, esperado e planejado. Mas como lidar com o imprevisto que causa sofrimento à luz da fé? É possível reagir a partir de dentro, da interioridade na qual está alicerçada a verdadeira experiência de Deus? Quem crê em Jesus, além de unir seu sofrimento ao dele, porque, como afirma São Paulo, o cristão sofre “com Cristo”, faz contato com aquela parte de si que estava escondida e que lhe é revelada pela dilaceração. Percebe um chamado “a ser mais”, justamente a partir da fraqueza. O sofrimento faz despontar uma entrega mais total a Deus e o cristão descobre uma lei fundamental da existência cristã: não controla o seu destino, está nas mãos de Deus. O mais importante é ser-lhe fiel em quaisquer circunstâncias da vida, favoráveis ou desfavoráveis. E no momento da prova, é preciso acatar o sábio conselho de Santa Teresa de Ávila, “Nada te perturbe, nada te assuste. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”.


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