Perdoai-nos as nossas ofensas

Esse pedido aparece nos Evangelhos de duas maneiras. Em Mateus, pedimos para que Deus perdoe nossas dívidas assim como perdoamos nossos devedores (Mt 6,11). Já em Lucas pedimos a Deus perdão pelos pecados, assim como perdoamos os que nos ofenderam (Lc 11,4).  Duas versões que expressam a mesma realidade de fundo: nossa dívida com Deus ou nosso pecado. Mas o que devemos a Deus? Ora, a única dívida do ser humano para com Deus se refere à sua resposta ao amor benevolente que Deus sempre lhe manifesta, desde a criação até à consumação do seu plano salvífico no mistério pascal de Cristo. O Antigo Testamento conta a história da aliança de Deus com o povo de Israel e com todos os seres humanos. Jesus é o Filho de Deus que se fez homem para amar o ser humano até o extremo da cruz. A história da salvação revela que o amor e a misericórdia são a própria tessitura do real. Deus ama o ser humano e jamais o abandona. Nem sempre, no entanto, o ser humano responde com amor aos apelos de Deus. O próprio Jesus aponta atitudes que mostram fechamento ao amor de Deus no egoísmo (cf. Mt 7,11; 12,34.39.45).  O mundo, enquanto criado por Deus, é bom, mas as opções históricas do ser humano o transformaram em um reino do pecado (cf. Jo 1,10-11). Sobre o acontecimento histórico da vinda de Jesus, o evangelista sentencia: “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más” (Jo 2,19).

O pecado se expressa também na omissão. Para Deus não basta apenas evitar o mal. Muitos fazem o propósito de não mais pecar. Por hoje não (PHN). Propósito louvável, certamente. Mas Deus quer que o amor operoso seja a marca da nossa vida, não apenas a fuga do pecado. Jesus ensinou seus discípulos a fazer o bem em todas as situações. O cristão que não peca, mas também não ama, manifesta opção medíocre por Jesus. Na parábola dos talentos, o servo mau é aquele que não fez render o que recebeu (cf. Mt 25,15-30). Parece ser alguém que evitou o pecado, mas também não amou, não multiplicou os seus talentos. Há, ainda, o galho da videira que não dá fruto (cf. Jo 15,2) e precisa ser arrancado. Além disso, lembremos da figueira estéril (cf. Lc 13,6-9), que simboliza a vida medíocre de quem recebe a graça de Deus e não produz frutos de amor e misericórdia.  O critério final do julgamento recairá sobre o amor realizado e não sobre o pecado evitado. Nossa solidariedade com o faminto, o sedento, o forasteiro, o desnudo, o enfermo ou encarcerado emerge como o critério decisivo sobre a autenticidade de nossa existência cristã (cf. Mt 25,31-46). O pecado significa receber em vão a graça de Deus (cf. 2 Cor 6,1), não corresponder ao amor de um Pai que espera ser amado de todo coração, com toda a alma e todas as forças (cf. Dt 6,5; Mc 12,30).

O pecado se encontra no rompimento da comunhão que acontece quando os filhos ofendem o Pai em sua paternidade, rompendo o laço que existe entre paternidade e filiação. O pecado revela o desconhecimento da paternidade de Deus ou sua recusa. E todos nós desconhecemos, às vezes, a paternidade de Deus e nos comportamos como filhos rebeldes. “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8).  Pecando, o discípulo não se reaproxima do Pai com temor. Mas o pecado não destrói a paternidade de Deus, que enviou seu Filho não para condenar, mas para salvar. “Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que não morra quem nele crê, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).  O perdão já existe; basta acolhê-lo, assim como o filho pródigo, que se entregou ao abraço misericordioso do Pai, que não o castigou, apenas se alegrou por ter encontrado o filho que estava perdido. “Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e, movido de compaixão, correu ao seu encontro, atirou-se ao seu pescoço e cobriu-o de beijos” (Lc 15,20).

O caminho de volta, o cristão o faz com o Filho mais velho, Jesus, que veio no país distante dos filhos pródigos para levá-los ao Pai. Jesus se revela o caminho que faz os filhos pródigos chegarem ao Pai. Ele vai ao Pai para que todos possam, nele, se reconciliar com o Pai.  “Se reconhecermos nossos pecados, ele, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda iniquidade” (1 Jo 1,9). Mas essa reconciliação depende da humildade em admitir a própria condição de pecador. Quem se considera justo não tem necessidade de perdão, como o fariseu da parábola, orgulhoso de suas boas obras realizadas para buscar sua própria glória e não a de Deus e dos irmãos. Jesus elogia o publicano, por sua atitude humilde, que ousa exclamar: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!” (Lc 18,9-14). Quem admite seu pecado, encontrada misericórdia e perdão. “A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado; ninguém pode impor um limite ao amor de Deus que perdoa” (Papa Francisco).  

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido

O perdão que o Pai oferece no seu Filho Jesus Cristo exige uma disposição do discípulo: que ele perdoe a ofensa recebida, o que não significa que o perdão de Deus dependa do perdão que os seres humanos se concedem entre si. Nosso perdão não se caracteriza como condição prévia para que sejamos perdoados, ao contrário, porque somos perdoados nos tornamos capazes de perdoar. O perdão de Deus é divino, superabundante, anterior a qualquer atitude nossa, mas tal perdão não transforma quem se fecha no seu egoísmo, pois a caridade exige abertura aos outros. O perdão de Deus, sempre gratuito, requer a colaboração do homem, que aceita a caridade de Deus quando se abre a ele totalmente, o que o traz como consequência a caridade para com todos. Deus se reconhece naquele que se mostra capaz de amar e perdoar (cf. Lc 6,36; Mt 5,48; Ef 4,32–5,1). Nesse sentido devemos entender as advertências de Jesus sobre o perdão que precisamos conceder a nossos irmãos. “E quando estiverdes de pé para rezar, se tiverdes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai que estás nos céus vos perdoe também vossos pecados” (Mc 11,25). A Pedro, que pergunta se deve perdoar o irmão que peca contra ele até sete vezes, o Mestre responde: “Não apenas 7 vezes, mas 70 vezes 7” (cf. Mt 18,21-22), ou seja, assim como o de Deus, o perdão dos cristãos só é autêntico ser for inesgotável.  

São Paulo exorta os cristãos: “Expulsai de vossas vidas toda amargura, ira e indignação, clamor e maledicência, bem como toda malícia; ao contrário, sede bondosos e compassivos uns com os outros, sabendo perdoar uns aos outros como Deus vos perdoou em Cristo” ( Ef 4,31-32).  Diz, ainda: “Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão e de paciência” (Cl 3,12). O perdão de Deus faz brotar a disposição para a misericórdia. É o que Deus espera de nós. Ao devedor cruel da parábola foi perdoada uma soma incalculável (dez mil talentos), mas esse perdão não produziu generosidade e conversão, pois tal devedor perdoado foi incapaz de perdoar uma soma irrisória (cem denários), o que provoca declaração severa do senhor: “Servo mau, eu te perdoei toda aquela dívida, porque me pediste. Não devias tu também ter pena de teu companheiro, como eu tive de ti?”. O castigo se tornou consequência de sua falta de misericórdia. Deus oferece generosamente o seu perdão e sua única exigência é que sejamos misericordiosos para com os irmãos (Mt 18,32-35).


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