A Igreja desde sempre viveu de tensões. Elas não são modernas. Desde o início, a uniformidade jamais existiu; antes, porém, não faltaram conflitos e diferenças dentro do seio eclesial. No início, não houve a uniformidade de uma liturgia sob apenas um código linguístico; o latim não é a língua mais antiga a ser usada nas celebrações. Não houve também a uniformidade da prece eucarística: o cânon romano não é o primeiro em relação a outras preces que são reconhecidas pela Igreja. Não houve também uma uniformidade de opiniões, basta recordar as discussões entre Pedro e Paulo, apóstolos da Igreja, sobre a circuncisão. Não houve tampouco a uniformidade da profissão de fé, para a qual foram necessários muitos concílios e, mesmo assim, duas formulações se firmaram: o Símbolo dos Apóstolos e o Credo Nicenocostantinopolitano. A uniformidade nunca foi a marca registrada da Igreja, antes, muito pelo contrário, sua marca registrada sempre foi a pluralidade. Na história da fé cristã houve, entre tensões, o desejo de unidade, nada mais do que isso.

A propósito disso, uniformidade e unidade são duas coisas diferentes. A uniformidade exige autoritarismo, massificação, anulação das diferenças. Unidade não. Unidade tem a ver com o uníssono das vozes que têm muitos tons e timbres. Numa orquestra sinfônica ou harmônica, a diferença faz a beleza do concerto. Nela não há uniformidade alguma, mas reina a unidade que é o resultado dos muitos diferentes que se respeitam e se complementam. Assim também na Igreja: a unidade se faz no intercâmbio, na complementaridade, no diálogo, na superação dos conflitos, na convivência exigente.

Entretanto, a tentação da uniformidade é vigente. Ainda que para tanto seja necessário gerar divisão, quebrar o que está fraturado, fincar mais fundo a faca nas feridas, apagar a chama que ainda fumega, fazendo exatamente o contrário do que ensinou o profeta Isaías (Is 42,3). Na Igreja, essa tentação é recorrente. Ela ainda se encontra associada a uma ideia frágil e impraticável (porque desarticulada pelo próprio Jesus) de purismo. É mais do que uma busca por uniformidade; é uma obsessão por um modelo eclesial enrijecido, imutável e o desejo de apagamento de outros, de sujeição do outro, de moralismo extenuado, ainda que para tanto seja preciso incutir medo, dissimular verdades, argumentar com inverdades. Fratres in unum? Fratres divisi, isso sim é o que vemos quando a intenção é objetivamente a de atacar a unidade em vez de construí-la apesar das discordâncias e das diferentes perspectivas. E o pior é fazê-lo e justificá-lo a partir de um discurso pretensamente cristão, como quem desfere golpes e destila veneno e diz que isso é necessário para o bem de todos. Isto é perversão: praticar a injustiça e incitar o ódio justificando sua conduta malévola a partir da religião do amor. Em nome da fé, fere-se o outro, mata o diferente; não há problemas, desde que uma pretensa ortodoxia seja salva, sem nenhum arranhão.

Recentemente, a discussão eclesial é sobre o papa Francisco e sua defesa de um possível lobby gay. Acusam-no de ter acobertado escândalos. Em recente pronunciamento, Francisco acusa o clericalismo de ser o grande culpado do silêncio na Igreja em relação aos crimes e abusos cometidos no seu interior. O clericalismo, entende Francisco, fez o povo se calar e se furtar da tarefa da denúncia dos crimes de pedofilia cometidos por padres católicos. Grossíssimo modo, seria dizer que os padres são acobertados por causa da ideia de sagrado que os erige como homens intocáveis. A contra-acusação vem em direção à pessoa do papa Francisco. Para alguns, não é o clericalismo o problema – esse não seria um problema profundo. O problema mais profundo, dizem eles, é que há na Igreja um lobby gay – um apadrinhamento dos homossexuais por parte de Francisco – e a existência dos homossexuais e da autorização da homossexualidade, ainda que veladamente, por parte daquilo que chamam de “simulacro magisterial” do papa. Com isso, os inimigos de Francisco acabam por juntar duas pontas nessa argumentação: a homossexualidade e a pedofilia. A partir desse conflito, pensemos:

  • O clericalismo não é um problema desimportante ou raso, algo que possa ser ignorado. Ao contrário, ele é resultado de um modelo de institucionalização da Igreja que remonta ao século IV e que resulta numa diferenciação de classes dentro da Igreja, separando clérigos de leigos, como se os primeiros fossem investidos de um poder sacro impossível para os leigos e infinitamente superior ao deles. Clericalismo é sim um dos motivos para acobertar escândalos, porque prefere-se defender o padre, e o estado clerical, a defender as vítimas. Uma espécie de “imunidade sacra” blinda e protege os representantes religiosos, impedindo as denúncias. Aqui, duas considerações são importantes: 1. As vítimas merecem muita atenção e cuidado para recobrarem a dignidade. Elas precisam de cuidados, de tratamentos, de indenizações, de pedidos de perdão, de justiça contra os malfeitores, de ver seus algozes punidos como manda a lei dos países onde esses crimes foram cometidos. Mas os padres pedófilos também merecem atenção, pois estão feridos, marcados por lacerações profundas em sua psique; são pessoas desequilibradas, divididas, atordoadas. Isso não significa, porém, defender o estado clerical e imunizar o agressor. As vítimas precisam ter direitos garantidos e receber misericórdia; os padres que cometeram os crimes precisam passar pela justiça legal e receber misericórdia igualmente. 2. O clericalismo pode ser criticado, pode ser modificado e com ele o modelo de institucionalização que o sustenta já que ele não tem nada a ver com o projeto de Jesus. Contudo, não é difícil perceber que a crítica ao problema, feita já por outros papas – ou seja, ela não é nova, não data do papado de Francisco – não toca no ponto fulcral do problema. Em geral, o clericalismo é apontado como problema de postura e, na realidade, ele é bem mais do que isso. O clericalismo é um problema sustentado pela estrutura institucional, que precisaria se reinventar para não dar margem à postura, que é só, por assim dizer, um sintoma. O clericalismo não se combate com mudança de hábitos e de compreensão dos leigos. Ele só pode ser combatido com estruturas eclesiais novas, que favoreçam uma Igreja mais laical, que imploda as bases do poder sacro depositado nas mãos dos presbíteros. Em outras palavras, não basta que os leigos parem de tomar a benção aos presbíteros, nem que os presbíteros sejam cheios de humildade e se ponham numa relação fraterna com os leigos. É preciso mudar as estruturas da Igreja, seu modo de se organizar; é preciso repensar a teologia do ministério ordenado, coisa que – infelizmente – nem o Vaticano II deu conta de fazer. Como a febre não se combate só com compressas de água fria ou com antitérmicos; clericalismo não se combate só com críticas de papas e teólogos, nem com uma boa dose de humildade do clero e de coragem dos leigos. Clericalismo se combate com um outro modo de ser Igreja. A submissão dos leigos e o medo de denunciar um ministro ordenado é sintoma de uma doença grave: a organização eclesial está ferida de morte porque se sustenta numa teologia deficiente acerca do sacramento da Ordem. Com a estrutura eclesial atual fica quase impossível fazer ressoar a voz das vítimas. Elas são caladas não só pelo medo das consequências das denúncias como o vexame, a exposição pública, as perseguições, o respeito pelo presbítero. Elas são caladas pelo medo de Deus. Denunciar um ministro sagrado é assumir que Deus errou nas escolhas, que ele se diz no criminoso, que ele protege o agressor e abandona a vítima. Isso é quase impossível para quem tem um mínimo de fé cristã. Sair desse lugar comum só é possível quando a pessoa já rompeu definitivamente seus laços contratuais com a eclesia (e até com o Deus cristão) ou quando ela tem capacidade reflexiva muito acima da média, ou seja, quando ela consegue fazer uma diferenciação difícil entre a ação divina e a práxis de seus ministros, que, segundo se afirma, agem em nome de Deus (in persona Christi), têm sua vida ontologicamente mudada pelo sacramento da Ordem, são investidos do poder do Espírito Santo para sempre e têm dignidade maior que a dos anjos. Se a doença não for atacada no seu cerne, combateremos a febre, mas não a infecção; trataremos a convulsão do epilético com anticonvulsivantes apenas quando, na verdade, ele tem bem mais que um ovo de solitária na cabeça (cisticercose). A epilepsia não é a doença; é o sintoma de muitas doenças, quase sempre muito graves que precisam de tratamentos mais especializados. As convulsões pelas quais a Igreja passa hoje quando se rompe o silêncio das vítimas violentadas entre os muros sagrados – e isso já não é de hoje – é apenas o sintoma de doença bem mais grave: uma eclesiologia esclerosada, que possibilita uma organização eclesial caduca, e uma teologia sacramental degenerativa, que favorece perdas lamentáveis a cada dia.
  • Homossexualidade e pedofilia são coisas distintas. É preciso uma boçalidade muito grande para querer juntar as duas coisas. Homossexualidade é uma orientação sexual; não uma opção, mas uma condição. Uma condição para a qual não há cura, pois não é doença, nem há explicações definitivas. As pesquisas e o bom senso levam a crer que a homossexualidade é outro modo de amar e de viver, de se relacionar e ver o mundo, que não é o modo heterossexual. Pedofilia é um transtorno mental e de comportamento e, sobretudo, é um crime. Pode ser cometida por homossexuais, mas também por heterossexuais. Além disso, dados mostram casos frequentes de pedofilia dentro do seio familiar, por parte de parentes, inclusive casados direitinho como manda o figurino da Igreja Católica. Não é uma exclusividade da Igreja Católica ter pessoas pedófilas no seu interior. Pedófilos há em outras Igrejas, como também em instituições laicas. Eles estão na família, na sociedade, em toda parte.
  • Quanto à existência de um lobby gay, o que se percebe é na realidade uma tensão de visões. De um lado, a ala tradicionalista defende que há uma ideologia em marcha que pretende destruir a família, destituir a moral e os bons costumes. Apelando inclusive para teorias de conspiração, essa ala insiste em dizer que a homossexualidade se infiltrou dentro da Igreja e entre os sacerdotes a partir de terceiros, que seriam pessoas muito interessados em financiar e bancar uma nova ordem mundial que começaria por enfraquecer o clero. Sobre isso façamos algumas considerações: 1) a homossexualidade remonta séculos de história e sua relação com a Igreja é antiga. Não faltam documentos da Idade Média que o comprovam. 2) a homossexualidade não ameaça a família, mas contemporaneamente até a infla de valor, já que são os casais homoafetivos que requerem os direitos civis de uma união estável e até mesmo o reconhecimento religioso, como o acesso aos sacramentos. Eles lutam para serem reconhecidos como família, enquanto muitos casais héteros parecem desacreditar do matrimônio, notando sua falência enquanto instituição. 3) existe mesmo nas mídias uma propaganda acentuada a respeito da homossexualidade e isso tem a ver com a lógica do capitalismo, já que os homossexuais são – apesar de minoria – boa parte da parcela da sociedade e grandes consumidores. Se o capitalismo instrumentaliza a causa para lucrar, da parte dos homossexuais há uma defesa pelo direito de amar, de viver a própria afetividade em espaços dispostos para todos. Querem ter os direitos civis também garantidos; querem amar sem culpa e sem estigmas sociais. Para tanto, muitas vezes, a luta se torna agressiva e quer calar a voz de setores da Igreja para os quais eles mesmos dão muita importância, chegando a investir pesadamente contra a piedade de alguns e contra elementos da fé cristã católica. A defesa é aguerrida, mas também pudera, pois os setores mais tradicionais manipulam textos escriturísticos a seu bel prazer, sustentam uma lei natural que é mais biológica que antropológica e reduzem o ser humano a lógicas estreitas. 4) O papa Francisco não apadrinha a homossexualidade, mas mostra como os homossexuais podem viver dignamente a fé e a própria condição, sendo fiéis a Jesus Cristo. Nessa querela, o papa se apresenta muito mais como um conciliador do que qualquer outra coisa. Mas há o outro lado da tensão. O lado progressista, para o qual não existe um lobby gay, é formado por teólogos, biblistas, gente de muita fé e de estudo que defende que a Sagrada Escritura não pode ser interpretada de modo tacanho e que é preciso superar a biologização da sexualidade. Mas eles não o fazem secretamente, mas como quem argumenta, pondera e chega à conclusão de que o que existe, na realidade, é um endurecimento da moral e um estabelecimento da moral sexual como principal preocupação eclesiástica.
  • Escândalos de pedofilia já existiam no papado de Bento XVI e os tradicionalistas não o pressionaram a deixar a cátedra de Pedro. E se ele renunciou, foi bem depois desses escândalos terem estourado. Já existiam antes, igualmente, com João Paulo II e devem ter existido bem antes, inclusive, embora não houvesse uma mídia com interesse em explorá-los, nem havia a coragem das vítimas de quebrarem o silêncio. Ainda que reconheçamos que há uma tendência midiática a supervalorar o deplorável da Igreja Católica, seria bom também reconhecer que isso não fará mal à Igreja, senão grande bem de mostrar suas chagas mais profundas para tratá-las. A Igreja precisa se converter a Jesus Cristo sempre mais e não deve se mostrar casta quando – no fundo – é pobre meretriz. Mas entre reconhecer as mazelas da Igreja e querer fazer o papa Francisco culpado pelos recentes escândalos e obrigá-lo a renunciar há grande diferença. O que se esconde por traz do movimento que pede a renúncia de Francisco, na realidade, não é uma preocupação com o fato de ele saber ou não dos escândalos, de ele os esconder ou não, mas é uma ocupação declarada por desmontar aquilo que ele representa para esse mundo dividido; é uma tentativa de desmonte daquilo que ele representa para um mundo onde crescem os apelos ao fechamento, ao endurecimento das fronteiras, ao liberalismo econômico, à exploração do pobre. O que se pretende não é salvar a Igreja, mas fazê-la retornar a tempos remotos, onde os incensos impregnavam as rendas das vestes, ofuscando o fedor do bolor que ela exalava. É uma operação de desmonte não só de um papado e seu magistério; é o desmantelamento de um cenário da Igreja que timidamente desponta no horizonte, de um modo de pensar, refletir e enxergar a realidade, acusando-o de lobbysmo. Se os que defendem os direitos dos homossexuais fazem lobby, os que defendem o tradicionalismo encrudescido fazem o quê? O que Francisco tem feito e como ele tem agido, inclusive, para impedir que novos escândalos de violência sexual voltem a acontecer dentro da Igreja, importa mais que o fato de ele saber dos escândalos ou não; não parece, pois, que Francisco esteja disposto a esconder nada.
  • Viganò, o ex-empregado insatisfeito que delatou o papa, fez uma denúncia. Não apresentou provas. Não apresentou evidências. Não há nada mais fácil do que fazer uma denúncia. E hoje, quando todo mundo pode dizer qualquer coisa e muita gente acredita em tudo que se diz – inclusive na terra de ninguém que é a internet –, não falta gente querendo jogar “merda no ventilador”, mesmo que sejam apenas seus próprios excrementos.

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