O pão nosso

Na oração do Pai-nosso, há uma passagem entre os pedidos a favor do Pai – vosso nome, vosso Reino, vossa vontade – e os pedidos que se centram nas necessidades dos discípulos. O primeiro pedido é para essas necessidades. No meio de tantos pedidos santos, a honra do nome de Deus, a vinda do Reino, o perdão dos pecados, a proteção contra o mal, surge um pedido aparentemente profano, pelo pão de cada dia.  No tempo de Jesus, o pão era o alimento de base no sustento da família. A vida dependia do pão, termo que também engloba todos os bens necessários à subsistência dos seres humanos. O Pai que criou os seus filhos, cuida da subsistência deles: “Olhai as aves do céu, não semeiam, nem colhem, nem ajuntam mantimentos no paiol; no entanto, vosso Pai celeste lhes dá alimento. Será que não valeis mais que elas?” (Mt 6,26). A vida vem de Deus e dele depende a sua subsistência.  O Pai-nosso se caracteriza como uma oração dos discípulos, daqueles que deixaram tudo para entrar na família de Jesus. A estes não resta outra alternativa a não ser se assentar na mesa do Pai e viver do que o Pai lhes dá.

 Os discípulos pedem apenas o pão de cada dia, não que seus celeiros estejam definitivamente cheios. O pão vem das mãos do Pai, portanto é sagrado e faz parte dos bens da salvação. Deus quer que todos tenham o pão necessário para seu sustento. Jesus ensina os discípulos a dizerem Pai-nosso, não Pai-meu. A paternidade de Deus em relação a todos dá a cada um o direito aos bens necessários a uma vida digna. A oração do Pai-Nosso se dirige ao Pai que tem um Filho, o unigênito e, nesse Filho, numerosos filhos, portanto se trata de uma oração da família dos filhos de Deus, que só pode ser feita quando se pensa nos irmãos. Não tem sentido rezar o Pai-nosso pedindo pão para mim se me esqueço de tantos irmãos que não têm pão para viver. Seria egoísmo buscar apenas o meu bem-estar material e minhas necessidades quando irmãos meus, filhos do mesmo Pai, Abba, não têm o necessário para sobreviver. O pão que surge da exploração dos pobres não traz a benção de Deus. O pão de Deus é somente aquele compartilhado com os mais necessitados. O pão acumulado é injusto e fraticida.

O Papa Francisco denuncia um desenvolvimento econômico que beneficia os ricos, mas não gera inclusão social. Alerta para a necessidade de os países ricos diminuírem seu padrão de vida em vista da solidariedade com os mais pobres (EG 54/190). O planeta produz alimento para saciar a fome de 12 bilhões de pessoas. Ora, no mundo há apenas 7 bilhões de pessoas. Portanto, há profunda desigualdade na posse dos bens da terra, criada por Deus para  todos os seus filhos. Essa situação de injustiça fere o plano de Deus para a humanidade, contraria a pregação de Jesus sobre o Reino. Quem reza o Pai-nosso deve se opor à idolatria do dinheiro que gera miséria e exclusão. As palavras do profeta Isaías permanecem válidas. “Não é antes esse o jejum que eu prefiro? […]. Repartir o pão com o faminto, introduzir em casa os pobres desabrigados e vestir quem está nu, sem desviar os olhos da tua gente?” (Is 58,6-7). Palavras que encontram eco no ensinamento de Jesus: “Eu estive com fome e me destes de comer, estive com sede e me destes de beber, fui estrangeiro e me acolhestes” (Mt 25,35).

O pão possui, ainda, um sentido escatológico; as refeições de Jesus com os discípulos antecipavam o Reino vindouro, a ser celebrado numa refeição (cf. Mt 26,29). Os discípulos são censurados por Jesus quando descobrem que não levaram consigo o pão; eles não compreenderam a multiplicação dos pães, sinal do Reino, no qual Deus sacia os seus (cf. Mc 8,14-21). “Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). A Palavra de Deus alimenta a vida dos discípulos de Jesus. Sem ela, o seguimento perderia o seu sentido. A Palavra de Deus sacia até para a eternidade. “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).  O sentido escatológico do pão explica porque muitos o interpretaram como o pão eucarístico. Afinal, pão verdadeiro, de acordo com o evangelista João, é o próprio Cristo, pão do céu que dá vida ao mundo. “Não foi Moisés que vos deu o pão do céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do céu; pois o pão de Deus é o que desce do céu e dá a vida ao mundo” (Jo 6,32-33). Jesus é o pão de Deus. “Eu sou o pão da vida: quem vem a mim não sentirá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35). O pedido pelo pão inclui, portanto, o alimento terrestre e o alimento celeste. O alimento celeste é Jesus, que vem alimentar os discípulos na Palavra e na eucaristia. Ambos são fruto da benevolência do Pai, que não deixa faltar o alimento terreno, sinal do banquete celeste, e o alimento verdadeiro, que ele dá ao gerar no mundo seu Filho, que será o alimento definitivo dos discípulos na plenitude do Reino.

De cada dia

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.  Isso quer dizer que o pão que pedimos é aquele de que temos necessidade para nossa subsistência presente. O significado da expressão de cada dia poderia ser expresso assim: “Dai-nos hoje (ou cada dia) o nosso pão até o dia seguinte”. Alguns estudiosos pensam que se trata de uma alusão ao maná com o qual Deus nutriu o povo no deserto. Tal alimento se conservava até o dia seguinte (cf. Ex 16,4-19). Talvez os discípulos fossem sensíveis a essa alusão, porque a Igreja primitiva se via como herança messiânica do povo que havia caminhado pelo deserto até a Terra Santa (cf. At 7,38).  A Bíblia de Jerusalém, comentando  Mt 6,11, afirma que “cada dia é tradução tradicional e provável de uma palavra difícil. Outras foram propostas, como necessário à subsistência e de amanhã. Seja como for, a ideia fundamental é que devemos pedir a Deus o sustento indispensável à vida material, mas nada senão isso; portanto, nem a riqueza, nem a opulência” (Bíblia de Jerusalém). Acumular não seria atitude própria do discípulo, segundo a advertência de Jesus: “Não fiqueis, pois, preocupados, perguntando: Que vamos comer? Que vamos beber? Com que nos vamos vestir? […]. Não vos preocupeis com o dia de amanhã, o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo” (Mt 6,31-34).

Esse pedido do pão de cada dia traz a proposta de um novo estilo de vida, fundamentada na confiança no Pai e na solidariedade com os irmãos. Ideal que encontramos nas primeiras comunidades: “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum, vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um” (At 2,32-47). Ainda que se trate de uma imagem idealizada, ela ao menos revela a busca dos cristãos de serem fiéis ao Reino que Jesus anunciou e realizou no seu mistério pascal. O apóstolo Paulo quer os cristãos solidários com os pobres (cf. 2 Cor 8-9). Já o apóstolo Tiago mostra a centralidade do cuidado com o pobre para a práxis cristã (cf. Tg 2,1-6). Quem vive para o dinheiro e a riqueza, não sabe o que é a partilha, nem o Reino de Deus. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33). O pedido pelo pão de cada dia só compreende aqueles que aceitam seguir Jesus e viver sua proposta do Reino de Deus.


Pra pensar anterior:    37. O Pai-nosso: Seja feita a vossa vontade
Próximo para pensar: 39. O Pai-nosso: Perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido

 

Print Friendly
Print this pageShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Email this to someoneShare on Tumblr0