“Eu te conhecia só por ouvir dizer, mas, agora,
vejo-te com meus próprios olhos.” (Jó 42,5)

“Te amo, porque tua boca
sabe gritar: Rebeldia!”
(Mario Benedetti)

Estamos quase acostumados a conferir que, na história da Igreja, um bom número de santos foram rebeldes, inclusive contra o próprio Deus, até que o Senhor venceu nos corações deles. A historiografia geralmente nos mostra os santos como pessoas que, desde que nasceram, estiveram atraídas pelas coisas de Deus, mas nem todos os casos são assim. Muitos dos personagens mais importantes foram espíritos indômitos, muitas vezes, empedernidos, obstinados, aparentemente fechados à ação de Deus. Em muitos casos, em nome do Senhor, foram grandes reformadores e sem sua rebeldia em prol da vida e de uma adesão genuína ao Deus do amor, a Igreja teria secado, como a figueira de Jerusalém (cf. Mc 11,20).

Louvamos, celebramos e agradecemos o testemunho e o anúncio da Palavra de Deus. Sem essas mediações, Deus não abriria caminho nos corações das pessoas. Porém, o Evangelho não se esgota nisso. Não basta escutar, entender e simplesmente fazer ações, como uma fórmula para sermos bons; isso não permanece, não gravita, não anuncia e não nos faz felizes. O nosso coração tem de ter a suficiente liberdade para não conformar-se com qualquer coisa só porque diz respeito à fé, à ética, à justiça, à vida. O nosso espírito tem de ser suficientemente rebelde para perguntar “por quê”, para discordar, para questionar. Temos de ter, diante de Deus, a suficiente confiança para brigar com ele. O Senhor não condena quem o questiona, quem o defronta. Muito pelo contrário, os respeita e com eles tem paciência. Se Deus tiver de repetir a nós a mesma proposta cinquenta vezes, quando a fizer pela primeira e nós não respondermos positivamente, não ficará chateado, mas contente, porque só restarão quarenta e nove. Aliás, Ele gosta dos corações valentes e sinceros consigo mesmos.

Que fique bem claro que não estamos falando de soberba ou de autossuficiência! Ser dóceis e humildes não é sinônimo de servilismo e aceitação de normas sem pensar, sem meditar. Justamente ao pensar, meditar e dialogar com Deus, ainda sem entender, mas com o coração aberto, é que Ele pode sussurrar, no silêncio de nosso interior, aquela palavra que é só para nós, que tem a força para nos transformar. Porque a experiência do amor verdadeiro se faz na liberdade, não no acatamento; no respeito amoroso, não no medo; no interior de cada um, não na letra fria e generalizada. Só assim deixaremos de brincar de ser cristãos e seremos seguidores e anunciadores convictos de um amor que se fez experiência em nosso próprio coração, com nossa própria língua, em nossa vida concreta.E deixaremos de anunciar fórmulas, normas e costumes, para anunciar uma Pessoa que nos amou e nos ama sem fim.


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