As certezas e verdades que nossa sociedade acumulou por séculos ruíram como castelos de areia, desde o avanço das ciências e das novas tecnologias. Filosofias monumentais foram derrubadas, verdades de uma das maiores instituições religiosas – a Igreja Católica – foram desacreditadas. Instituições aparentemente seguras e consideradas peças fundamentais para a construção da identidade das pessoas perderam a razão de ser. A palavra como pedra angular de nossa humanidade foi substituída aos poucos pelo apelo frenético da imagem e do écran. Deus foi deposto e, mais ainda, declarado morto. A razão científica se estatuiu como única norma segura.

Não é à toa que o sociólogo Bauman, uma das maiores inteligências contemporâneas, se levantou para falar de nossa época como o resultado de um desfazimento daquelas estruturas, nas quais nos segurávamos. Por isso, ele chamou este tempo com o epíteto de “modernidade líquida”. Felizmente, a análise do sociólogo é mais uma diagnose do que um juízo de valor, mais uma qualificação do que uma desqualificação. Além disso, verificar que a modernidade padece a derrocada de seus sustentáculos não desobriga ninguém de ter que ser ver com o futuro. Ao invés de permanecer lamentando o esfacelamento das instituições e até mesmo da palavra enquanto morada humana, devemos recolher o que este tempo que se abre diante de nós tem ainda a nos oferecer.

Mas sobrou algo, ousamos perguntar fazendo eco a alguns pensadores, depois da destruição do mundo e de Deus? Depois de constatarmos que nossas instituições são apenas zumbis que ainda não caíram e nossas palavras, apenas ecos de sonhos perdidos? Poderíamos supor que tenha sobrado o “eu”. Essa fantasia, a de que o eu tenha restado depois da derrocada dos grandes sentidos, talvez servisse mais aos meados do século XVI e XVII do que ao século XXI. O século XVI era particularmente preocupado com o advento da subjetividade, com a separação do eu em relação ao mundo e a Deus para que a pessoa humana pudesse aparecer; como a praia só aparece depois do mar recuar, era preciso afastar os grandes sistemas. Assim, nasceria o homem. Foi Montaigne quem afirmou que, caso estivesse perdida a garantia da exterioridade, ao menos a interioridade permaneceria garantida. Mas ao duvidar do exterior, terminou cético e fez dessa dúvida o fim de sua clarividência. Em seguida, Descartes tomou a dúvida por método e fez dela o caminho para chegar ao ser pensante. Assim, o que Montaigne fez de final, Descartes fez de princípio. Mesmo ele, entretanto, ao formular o famoso “eu penso, logo existo”, não colocou seu acento no “eu”, mas no “penso” fazendo do sujeito, homem de consciência. Essas discussões filosóficas se estenderam até assistirmos também à derrocada do homem; ele deixou de ser apenas um ser racional, para ser definido como um estranho em sua própria casa, ou como um “pobre animal” às buscas de adaptar-se para sobreviver, ou ainda como um ser lançado no mundo e de forma fragílima, na dependência de um “tu” que pudesse colocá-lo sobre suas próprias pernas. E é com certo estupor que reconhecemos que o homem hodierno não está à procura de construir subjetividade alguma. Quer dizer, as ofertas de subjetivação continuam, vindas inclusive da cultura, das mídias; da estrutura e superestrutura, mas as novas identidades não se definem mais a partir de uma subjetivação pessoal clara, mas a partir de uma individualização mercantilizada e neoliberal.

As subjetividades também estão se desfazendo. Deram lugar ao individualismo em massa. Chamo essa individualização de mercantilizada e neoliberal, porque ela é gestada não pelos indivíduos, mas pelo imperialismo americano mascarado; pelas mídias e sua “liberdade de expressão”, menos informativa do que “inculcadeira” de suas pretensas verdades. Ela é também gestada por grandes personagens eleitos pela indústria cultural como “influencers”; pelo capitalismo acelerado e seus fetiches; e pela fantasia de vida “equilibrada”, sanitarizada, higienizada, sem padecimentos, frutos da nova moda do “bem-estar”, que sustenta ideologicamente a egolatria cotidiana. A subjetividade é trocada por uma individualidade feita “sob medida” e, nisso, reside um paradoxo: enquanto acentua-se a indiferença em relação aos outros numa preocupação só com o próprio umbigo, esse dobrar-se sobre si mesmo é produzido em escala, resultado de uma manobra de massas.

Não é só. Na sociedade neoliberal os indivíduos também se pensam como empresas, não como casas, menos ainda como templos, mas como empresas capazes de dialogar num face-a-face com os reais donos das empresas e administrar seus próprios direitos. Por causa do descrédito com os órgãos públicos e graças à ideologia de serem, cada um em seu próprio mundinho, construtores da história, os indivíduos redundam em mais um paradoxo: aceitam o desfazimento de seus direitos e, em alguns casos estrondosos, supõem que a defesa dos mesmos presta um desserviço à vida. Daí, chegam a fazer barbárie crendo ser justiça. Discutem política como quem disputa uma partida de futebol; amparam seus argumentos em acaloradas opiniões sem fundamento e, se antes chegaram a confundir a esfera privada com a esfera pública, hoje fundem essas duas esferas. Contentam-se com os simulacros da realidade, produzidos também pelas redes sociais; trocam o concreto pela performance e vivem sob a égide do espetáculo.

A palavra já não é mais um lugar comum com o individualismo acentuado. Podemos dizer que vivemos sob o “fetiche da diferença”, nos apropriando das palavras da psicanalista Elizabeth Roudinesco. Acentuamos muito mais o que nos separa do que aquilo que nos une. Se, por um lado, esse acento é resultado de muitas lutas históricas, do levante de minorias e, nesse aspecto, é mesmo fundamental para as novas formas de subjetivação, ele também é convertido em fetiche, em bolha social que vai isolando as pessoas todas e, não só as minorias. Cada indivíduo vai se tornando mais uma ilha de verdades absolutas do que um universo de sentido. Dá-se lugar aos neofacismos, aos “dogmas laicos” em que os homens e as mulheres matam para ter razão. As grandes palavras já não têm mais substância em si mesmas, nem as religiosas nem as filosóficas; elas apenas servem como instrumentos, descontextualizados, desenraizados, para sustentar opiniões, às vezes absurdas. Disse mais acima que a palavra não é mais casa comum, porque ela não é mais um “ambiente” de liberdade, como nas ágoras antigas, nem um “ambiente” da autenticidade. A palavra serve para julgar sem provas, criticar sem embasamentos, para decidir por suposições, para garantir o poder e a dominância, para arrancar o gozo do outro.

O que sobra do desfazimento de tudo? Talvez devêssemos apenas reconhecer que vivemos em tempos maus e estatuir projetivamente que Deus, que homem e que mundo queremos. Mas um mundo que ignora os grandes sistemas também não suporta grandes utopias. E um homem sem a palavra como “casa” e sem utopia como “horizonte”, talvez só possa lamentar seu destino cataclísmico. Então, poderíamos recorrer ao otimismo. Mas o otimismo depois de um diagnóstico que, de tão realista pode ser considerado pessimista, pareceria hipócrita. E, qualquer otimismo raso correria o risco de ser, inclusive, ingênuo. Os fundamentalismos e enrijecimentos comportamentais para garantir segurança em meio à insegurança também não serviriam, pois seria o mesmo que se fazer de pedra de mó dentro de um mar caudaloso que nos cerca e afundar. Talvez devêssemos todos recorrer a uma esperança religiosa crendo que ela pudesse ser um plus para a realidade, se fosse mais fruto de uma reflexão e comprometimento maduros do que de uma fuga prematura para o céu. Mas essas esperanças também padeceriam de ser esperanças de certos grupos, já que tantos outros não comungam do vocabulário e do horizonte religioso. Afinal, as próprias religiões mergulharam no fetiche de diferenciação e perderam a ponte de acesso ao “homem comum”.

Estamos longe de uma receita de bolo e de um projeto universalizável. O primeiro a se fazer, contudo, é certamente acolher a impermanência de todas as coisas. Tudo está sob constante mudança e essa mudança pode ser orientada pelo projeto crítico de cada ser humano. Além disso, pensar um projeto no qual esteja incluído apenas o próprio indivíduo, sem desenvolver uma vez mais a habilidade de reconhecer o outro e incluí-lo, pode ser repetir a mesma idiotice de sempre. O outro-incluído, o outro como rosto que me interpela e me altera, é símbolo de que somos atravessados pelo mundo. Essa não é uma saída antiga e antiquada, mas uma saída ainda não tomada.

Reconhecer que somos neuróticos pode ser de grande valia, também.  A dúvida não é fruto de uma atividade racional, apenas; ela é derivada dos nossos conflitos emocionais, de nossas paixões. Olhar para isso, sem hipocrisias, poderia nos ajudar a sermos mais humildes, a pensar criticamente não só sobre o que nos é apresentado como verdade, mas sobre as nossas próprias verdades. Reconhecer que nossas emoções são turbulentas, que nossas fantasias nos derrubam, que somos mancos e muitas vezes cegos, até que possamos abraçar melhor nossa realidade, não seria recuperar a “tragédia” para evitar a tragédia?

Fazer o movimento contracorrente em relação ao individualismo exacerbado, sem abrir mão da subjetivação e das individualidades tão necessárias, me parece indispensável. É fundamental desenvolver criticidade em relação às influências imperialistas, capitalistas, sociais e cibernéticas à medida que se coloca a tarefa de desenvolver a própria autenticidade, referenciada àquilo que se escolhe, ou àquilo a que se adere, com coragem. Valorizar as diferenças, sim, sem perder o liame que faz de nós todos humanos. Recuperar a palavra alimentada pelo silêncio e relativizar o apreço à performance e ao espetáculo parece ser especialmente fundamental.

Tais reflexões parecem ser difíceis de ser garantidas, pois a individualização em massa é também instrumento nas mãos dos poderosos. Cada vez mais os indivíduos terão que se juntar em comunidades de informação e reflexão, em redes onde se possa fomentar a palavra e a criticidade, em sistemas que avancem contra os contrasssitemas desarticuladores aos quais acabamos obedecendo. O desfazimento de tudo não corroeu a impermanência de todas as coisas e, mesmo das cinzas, outrora labaredas que engoliram nossas esperanças, ainda podemos recolher algumas brasas. Não para nos prendermos de novo à grandes verdades universais ou a grandes teoremas; não queremos apostar de novo em novas metafísicas políticas, mas queremos algumas brasas para reacendermos de novo a chama à qual devemos nos lançar. Pois “um homem precisa se queimar em suas próprias chamas, para poder renascer das cinzas” (Nietzsche).


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