14

17 Ao anoitecer, Jesus foi para lá com os Doze.
18 Enquanto estavam à mesa comendo, Jesus disse: “Em verdade vos digo, um de vós vai me entregar, aquele que come comigo”.
19 Eles ficaram tristes e, um após o outro, começaram a perguntar: “Acaso, serei eu?”
20 Jesus lhes disse: “É um dos doze, aquele que se serve comigo do prato”.
21 O Filho do Homem se vai,conforme está escrito a seu respeito. Ai, porém, daquele por quem o Filho do Homem é entregue. Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido!”
22 Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu,dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”.
23 Depois, pegou o cálice, deu graças, passou-o a eles,e todos beberam.
24 E disse-lhes: “Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos.
25 Em verdade, não beberei mais do fruto da videira até o dia em que beberei ovinho novo no Reino de Deus”.
26 Depois de cantarem o salmo, saíram para o Monte das Oliveiras
27 Jesus disse aos discípulos: “Todos vós vos escandalizareis, pois está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas se dispersarão”.
28 Mas, depois que eu ressuscitar, irei à vossa frente para a Galileia”.
29 Pedro,então, disse: “Mesmo que todos se escandalizem, eu não.”
30 Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade te digo, hoje mesmo, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás”.
31 Pedro voltou a insistir: “Ainda que eu tenha de morrer contigo, não te negarei”. E todos diziam a mesma coisa.
32 Chegaram a uma propriedade chamada Getsêmani. Jesus disse aos discípulos: “Sentai-vos aqui, enquanto eu vou orar”.
33 Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir pavor e angústia.
34 Jesus, então, lhes disse: “Sinto uma tristeza mortal! Ficai aqui e vigiai”!
35Jesus foi um pouco mais adiante, caiu por terra e orava para que aquela hora, se fosse possível, passasse dele.
36 Ele dizia: “Abbá! Pai! tudo é possível para ti. Afasta de mim este cálice! Mas seja feito não o que eu quero, porém o que tu queres”.
37 Quando voltou,encontrou os discípulos dormindo. Então disse a Pedro: “Simão, estás dormindo? Não foste capaz de ficar vigiando uma só hora?
38 Vigiai e orai, para não caírdes em tentação! O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
39 Jesus afastou-se outra vez e orou, repetindo as mesmas palavras.
40 Voltou novamente e encontrou-os dormindo, pois seus olhos estavam pesados de sono. E eles não sabiam o que responder.
41 Ao voltar pela terceira vez, ele lhes disse: “Ainda dormis e descansais? Basta! Chegou a hora! Vede, o Filho do Homem está
sendo entregue às mãos dos pecadores.
42 Levantai-vos! Vamos! Aquele que vai me entregar está chegando”.

Situando…

O tempo se esgota… Defronte a maior das dores, quando a ausência já antecipa as saudades e a separação, Jesus entrega o sacramento de sua presença. Com o coração em migalhas, ainda é capaz de se entregar aos seus, numa despedida plena de esperança. Mais que antes, é preciso reconhecer quem ele é.

Trigo moído

Jesus se reúne com os discípulos “ao anoitecer” (v. 17) – como pede a liturgia pascal. Este entardecer, porém, não é como os outros. Não é apenas o sol que declina, mas Jesus mesmo, que se aproxima da morte. Sem Ele, que é luz, a comunidade cristã estará sempre à mercê da noite e da escuridão. Por isso, o Mestre deixa, nesse entardecer que já insinua sua ausência, o sacramento de sua constante presença.

À mesa, Jesus anuncia a traição que está tramada (v. 18). Como já vimos (Estudo 36), em Mc é importante que Jesus sempre saiba daquilo que lhe está por vir. Porque a paixão e a morte não lhe surpreendem “como um ladrão”, mas são vividas como verdadeira entrega, como exercício de uma profunda liberdade que, em última instância, depende de Jesus. Os trâmites jurídicos e a mesquinhez que permeiam as narrativas da paixão não foram escolhidos e nem buscados por Jesus. Sua morte resultou inevitável, por causa da vida que Jesus escolheu. Mas a liberdade e a decisão de viver a morte como entrega e oferta de si, isso depende só de Jesus. E, ao decidir assim, ele se torna Senhor da própria morte.

Jesus anuncia a traição com pesar, tal como o salmista, que se vê traído por um amigo, por um “de dentro”: “aquele que come comigo me calcou sob os pés…” (Sl 41,10). Os discípulos se entristecem e, um a um, reconhecem-se como possíveis autores dessa cilada (v. 19). De fato, não importa a quanto tempo se caminhe com o Mestre, a traição será sempre uma possibilidade muito próxima do discípulo. Na morte de Jesus, não é só Judas quem trai. De algum modo, cada qual terminou por trair o Mestre, seja pela venda da própria verdade (Judas), pela negação reiterada (Pedro), pela omissão (Nicodemos e José de Arimateia), ou pela fuga desesperada (todos os outros). Também nós estamos em igual fragilidade. O caminho de nossa história pessoal e da história de nossas comunidades cristãs está repleto de fidelidades e infidelidades, verdades e mentiras, realizações e frustrações, perdão e recomeços… No fundo, na trama da morte de Jesus, estão expressos os mecanismos humanos que matam e continuam a matar, ontem e hoje.

Jesus confirma, novamente, que o traidor “serve com ele no prato” (Sl 41,10) e é um dos doze – dos mais íntimos (v. 20). Isso, porém, só confirma a identidade messiânica de Jesus como “Filho do Homem” (v. 21 – cf. Dn 7,13), autenticamente humano, entregue às mazelas e malfeitos da condição humana. Um “Messias inesperado”, semelhante ao Servo Sofredor, que vence sob a imagem da derrota e vive sob a aparência da morte – nisso, ele cumpre as Escrituras. O que não justifica a traição. “Para o traidor, melhor seria que não tivesse nascido”. Pois a traição marca para sempre a vida daquele que nela incorre, a ponto de fazê-lo amaldiçoar o dia do próprio nascimento (cf. Jn2; 1Rs 19; Jó 3). A tradição posterior, em Mt e At, tecerá esse destino trágico de Judas em duas narrações diferentes, descrevendo-o como errante e confuso pelo deserto, a ponto de explodir, até atentar contra a própria vida (cf. Mt 27,3-10; At 1,15-19). Ou seja, um fim coerente com a traição cometida e a recusa da reconciliação. Fixar-se na traição e recusar-se à reconciliação só tem um fim: a morte abandonada.

Na ceia pascal, Jesus introduz a novidade de sua própria páscoa. Enquanto comiam, ele “tomou o pão, abençoou, partiu e distribuiu”. E fez o mesmo com o cálice (v. 22-23). Já vimos essa mesma sequência de verbos na distribuição dos pães aos famintos, como “ovelhas sem pastor” (cf. Mc 6,34). Pois o “corpo agora entregue” e o “sangue agora derramado” são a mesma vida entregue desde sempre, em cada palavra, em cada ensino, em cada gesto. Desta vez, porém, essas palavras ganham valor definitivo, pois Jesus bem sabe: não beberá de novo desse cálice até a instalação definitiva do Reino, conforme ensinou no cap. 13 (Estudos 34 e 35).

 O v. 24 guarda uma controvérsia, expressa na diversidade de traduções, ao afirmar que o sangue de Jesus “será entregue por muitos” ou “por todos”. Para muitos, essa pequena diferença se mostra muito significativa, a ponto de a nova edição do Missal Romano (ainda não utilizada no Brasil) introduzir essa distinção no texto da Prece Eucarística. É uma discussão longa, mas diríamos: a “nova Aliança” expressa no sangue de Jesus não se dá exclusivamente no Calvário, de modo que o “sangue derramado” não se refere apenas ao sangue que escorre no momento de sua morte violenta. O “sangue derramado” é a vida doada, vivida como entrega e o “corpo oferecido” é a inteireza da pessoa. Corpo e sangue são, na verdade, segundo a tradição judaica, tudo quando constitui a pessoa. Hoje compreendemos: toda a vida de Jesus é redentora, todas as suas palavras e todos os seus gestos comunicam a salvação, à medida que nos devolve a nós mesmos e nos apresenta o rosto do Pai. E esse convite a participar da vida divina como filhos diletos se estendeu a todos, judeus e gentios. Em Mc, por diversas vezes, vimos Jesus se dirigir com benevolência aos estrangeiros e fazer discípulos entre eles (cf. Mc 5,1-20; 7,24-30). Mesmo a seus opositores, Jesus nunca fechou as portas do Reino. Embora os advertisse com veemência, não se negou a ensiná-los e, por vezes, olhá-los com a mesma benevolência (cf. Mc 12,34). Ao que parece, uma nuance semântica do texto grego para “por muitos” ou “por todos” não modifica gravemente o alcance e a universalidade da salvação. Talvez, a opção por uma ou por outra tradução expresse muito mais nossas convicções pastorais do que fidelidade às palavras do Evangelho.

Jardim da Moenda

Terminados os ritos da ceia pascal, conforme a tradição judaica (v. 26), Jesus e os discípulos foram para o Monte das Oliveiras. Jerusalém está em festa e o número de peregrinos ultrapassa em muito os recursos da cidade em relação à hospedagem. Não é raro, portanto, que o Monte das Oliveiras, defronte da cidade, sirva de lugar para acampamento. Jesus, conduzindo teologicamente a trama da própria morte, adverte os discípulos quanto ao momento que se aproxima. “Ferido o pastor, as ovelhas se dispersarão” (v. 27). Mas também os tranquiliza, garantindo aquilo que o cap. 16 narrará: o Ressuscitado continua Mestre e, vivo para sempre, continuará a conduzir seus discípulos. Não é Ele que caminha à nossa frente, até hoje? Pedro expressa a incompreensão de todos, como de costume, garantindo que não deixará o Mestre (v. 29). Aparentemente, já se esqueceu de que todos estão sujeitos a incorrer na mesma traição, conforme se dizia há pouco, durante a ceia. Como também ainda não compreendeu “quem é Jesus”. O Mestre o chama de novo à sanidade: antes que o galo cante (o que equivale: antes do amanhecer; ou ainda: antes que sua consciência desperte), me negarás três vezes (v. 30). Não uma negação ocasional, furto fortuito de uma circunstância, mas negará “três vezes”, como uma convicção reafirmada. Pedro, como os outros e nós também, insiste na própria força (v. 31). O excesso de confiança geralmente conduz ao orgulho e à queda, bem sabemos. E a narração mostrará que Jesus, novamente, tinha razão.

“Chegaram a um lugar chamado Getsêmani” (v. 32). O Monte das Oliveiras deve seu nome à grande plantação de oliveiras, destinadas à fabricação de azeite. Havia, pois, no monte, um jardim destinado à moenda das azeitonas, esmagadas sob grandes rodas de pedra. Esse era o Jardim do Getsêmani, que significa “Jardim da Moenda”. O lugar é emblemático. Jesus já escolhera para sinais da sua presença o pão e o vinho. O pão: trigo colhido, debulhado, torrado, moído, amassado e assado – sacramento de seu corpo entregue. O vinho: uma colhida, sangrada no lagar, pisada, recolhida no escuro da terra para o milagre da fermentação – sacramento de seu sangue derramado. Agora, Jesus reza no Jardim da Moenda, lá onde as azeitonas amargas são trituradas para delas nascer o milagre doce do óleo, que alimenta e cura. Com o coração angustiado, moído, ele reza no jardim das moeduras e se prepara para sua entrega definitiva.

Como já vimos acontecer, Jesus leva consigo Pedro, Tiago e João (v. 33). O momento é delicado, de “pavor e angústia”, como verdadeiro “Filho do Homem”, e exige trazer consigo somente aqueles mais íntimos. “Ficai aqui e vigiai” – pede-lhes Jesus (v. 34). Nada além da advertência já feita no cap. 13: “orai e vigiai” (cf. Mc 13,35). Na oração, Jesus se dirige ao Pai, como tantas vezes já o fizera. Porém, agora não roga por outros, mas por si mesmo (vv. 35-36). Não como uma criança ou um adulto imaturo na fé, que se recusa a aceitar os caminhos pelos quais a vida o conduz, suplicando que Deus o livre dos sofrimentos. Em sua oração, Jesus exprime com sinceridade sua angústia tão humana diante da traição, da solidão e da morte, mas igualmente reafirma sua confiança e esperança no Pai, renovando sua disposição à fidelidade, até o fim.

Conhecemos a teatralidade da narração. Jesus volta aos discípulos e os encontra dormindo, desobedientes ao seu pedido (v. 37). Ao que Jesus novamente parafraseia o discurso escatológico: “vigiai e orai, para não cairdes em tentação” (v. 38). E acrescenta: “o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Uma constatação muito bonita e que descreve bem nossa condição humana: o delicado equilíbrio entre a prontidão do espírito e a fragilidade da carne; a leveza e a amplidão dos céus e a dureza do peso da terra; abertura ao infinito e cerceamento dos limites; como diz o Gênesis, o simples pó da terra, tocado pelo suspiro de Deus (cf. Gn 2,7). Diante da morte, mais que nunca, Jesus é o “Filho do Homem” que leva aos umbrais da eternidade a fugacidade de nossa humanidade. Assim como “corpo” indicava a identidade da pessoa inteira e “sangue” se referia à vida, “carne” tem o sentido daquilo que, em nossa humanidade, se constitui como limite, como fragilidade. Jesus contou com seus discípulos na hora da dificuldade, mas soube reconhecer, com delicadeza, o limite deles. Não os recrimina, não os condena, mas convida à prontidão.

A cena de Jesus com os discípulos sonolentos se repete por três vezes (v. 39-40), demonstrando não ser um acaso, mas um deslize reiterado. No terceiro retorno, o tempo já é esgotado (“basta!”) e Jesus convida a “se levantarem” (do sono, da tentação), pois é chegada a hora de sua “entrega” (vv. 41-42 – cf. Estudo 36).

 * * *

Em sua entrega, Jesus se faz alimento para os seus. Entrega livre porque voluntária, eficaz porque generosa, capaz de converter migalhas de pão em farto alimento. Entregando-se, revela o caminho da doação como a realização mais perfeita do coração humano. Conhecendo o Mestre, que nós discípulos sigamos seus passos.


Estudo anterior: 36. Um Reino de Entregas (Mc 14,1-16)
Próximo estudo:   38. Covardia, Injustiça e Fraqueza (Mc 14,43-72)

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