A vontade de Deus

No Evangelho de Mateus, a oração que pede pelo Reino ganha um acréscimo que não aparece na versão de Lucas: Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. Essa petição completa a anterior, porque o Reino de Deus só acontece no meio de nós quando acolhemos a vontade de Deus. Qual seria a vontade Deus? Ela só pode expressar o desígnio de salvação de Deus. Ele quer que todos sejam salvos (cf. Jo 6,29). Eis o “mistério de sua vontade” (Ef 1,5). Sendo Pai amoroso, quer sempre o melhor para seus filhos, desejando “que todos os seres humanos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). No Evangelho de João, Jesus apresenta a vontade do seu Pai: “a vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas que os ressuscite no último dia. Porque esta é a vontade do meu Pai: que todo o que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,39-40). Reino de Deus e vontade de Deus são, portanto, dois aspectos de um mesmo mistério, pois a vontade de Deus é que o Reino se alastre e continue crescendo até chegar à sua plenitude no final dos tempos. Este é o intento de Deus para os seres humanos: que todos acolham a salvação que seu Filho realizou no mundo, que ninguém se perca, especialmente os mais pequeninos, pois “não é da vontade de vosso Pai que está nos céus que um só desses pequeninos se perca” (Mt 18,14).

A vontade de Deus não se identifica, portanto, com uma vontade particular de Deus para cada cristão. Ela é mais ampla; diz respeito ao seu plano de salvação que se estende à humanidade toda. Mas esse plano tem a ver com tudo o que acontece a cada um em decorrência do plano universal da salvação. O Espírito Santo, enviado por Jesus Ressuscitado de junto do Pai em sua humanidade glorificada, ajuda o cristão e todo ser humano a personalizar a vontade de Deus em sua vida quotidiana. No Evangelho de Lucas, a vontade de Deus não aparece na oração do Pai-nosso. Em alguns manuscritos antigos do Pai-nosso de Lucas, esse pedido é substituído por outro: Venha vosso Espírito Santo. Tal acréscimo tem significado profundo.

O Espírito se identifica com o amor, com o poder de Deus em ação. Ele é o querer divino, porque tudo o que Deus faz, ele o faz no Espírito. E o seu Reino e a sua vontade só acontecem quando o Espírito se difunde, quando o Espírito gera os seres homens no Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo. O Espírito é também amor derramado em nossos corações: “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que ele nos deu” (Rm 5,5). Ora, a vontade de Deus acontece à medida que o amor se espalha: o amor a Deus e ao próximo. Pedir que a vontade de Deus seja feita equivale a pedir que o Espírito se propague, para que realize na terra e no céu a vontade de Deus. A expressão céu e terra refere-se todo o criado, portanto à criação inteira. Esse é o significa dessa expressão na Bíblia. O Senhor “fez o céu e a terra” (Sl 54,3). Ele é “o Senhor do céu e da terra” (Mt 11,25). No Pai-nosso, expressamos nosso desejo de que a vontade de Deus atinja toda a criação. A vontade de Deus se encontra no amor, porque Deus ama ser Pai. O amor é o Espírito, no qual o Filho é gerado. O Pai deseja continuar gerando seu Filho no coração dos homens pelo Espírito, para assim fazer de toda a humanidade uma única família, a fraternidade que caracteriza o seu Reino.

Vontade de Deus e nossa vontade

Alguns temem a vontade de Deus, como se ela fosse sempre uma exigência que não são capazes de cumprir. Outros a veem como imposição arbitrária. Algo que cai do céu como uma tábua de pedra. Segundo uma visão mágico-supersticiosa, Deus teria um plano secreto para cada pessoa, imposto desde fora, ao qual cada um deveria se submeter. Mas tudo isso se opõe à liberdade que Deus nos deu. Na verdade, quando seguimos nossa consciência, fazemos a vontade de Deus, porque ela é o sacrário onde estamos sozinhos com Deus e onde ressoa a voz (GS).  Assim devemos entender o “seja feita a vossa vontade”. O drama de Jesus no Getsêmani revela essa luta entre o desejo de se livrar da morte de cruz e o de fazer a vontade do Pai. Mesmo no sofrimento, escolhe o projeto de Deus e permanece fiel à sua consciência. Dessa fidelidade brota sua entrega incondicional.  Jesus no Getsêmani eleva a Deus uma oração que não é atendida (cf. Mc 14,35), porém ele não abandona a fidelidade à vontade do Pai: “não o que eu quero, mas o que tu queres”. A vontade salvífica do Pai incluia aquele momento da vida de Jesus e dependia de sua entrega para a salvação de todos. Nesse sentido, embora o Pai não tenha realizado o que Jesus lhe pedia, sua vontade salvífica se realizou nele para o bem da humanidade.

A relação com Deus se fundamenta sempre na abertura do ser humano a Deus. Abertura que o leva a acolher a vontade de Deus, como próprio o Jesus ensinou: “Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos Céus” (Mt 7,21). A vontade de Deus é que a salvação aconteça. Há uma petição que é sempre atendida: a que busca a vontade de Deus (cf. 1 Jo 5,14). Enquanto acolhida da graça que Deus quer conceder, ela será sempre atendida. O mais importante é que o cristão esteja disposto a aceitar a vontade de Deus. Em Lc 11,9-10 lê-se: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto. Pois todo aquele que pede recebe; quem procura encontra; e ao que bate se abre”. Tal oração supõe a comunhão com Deus e só tem sentido a partir dessa comunhão. Assim, o que pede alcança, mas alcança o que Deus está disposto a lhe dar, porque Deus quer dar tudo o que está de acordo com os seus desígnios (cf. Rm 8,27).

As igrejas apostólicas conhecem também uma petição que Deus não atende, por estar distante da experiência de fé que faz acolher a salvação. O apóstolo Tiago afirma: “Pedis e não recebeis porque pedis mal, pois pedis para gastar em vossos prazeres” (Tg 4,3). A oração eficaz junto de Deus não é aquela que busca apenas a satisfação do próprio egoísmo.  Infelizmente, essa oração está muito presente na Igreja. Muitos cristãos seguem esta lógica: “Deus é bom e todo-poderoso, logo vai me dar tudo o que eu quero”. Como se Deus tivesse a obrigação de realizar todos os desejos egoístas da pessoa, num passe de varinha mágica. Visão que contradiz o que aprendemos com Jesus, para quem o bem maior é a salvação oferecida aos seres humanos. Salvação da qual somos instrumentos uma vez que fomos inseridos em Cristo pelo Espírito. Jesus nos mostrou que Deus Pai quer transformar o mundo através da nossa ação.  Corremos, no entanto, o risco de querer transformar Deus no complemento exato de nossas necessidades e das nossas carências, o que se trata de atitude infantil que, em longo prazo, acaba se tornando verdadeiro obstáculo para um autêntico encontro com ele.

O apóstolo Paulo elevou a Deus uma oração que não foi atendida. Ele a reiterou três vezes (cf. 2Cor 12,8-9) e a resposta foi sempre a mesma: “basta-te minha graça, pois o poder se manifesta plenamente na fraqueza” (cf. 2Cor 12,9). O poder do Espírito manifesta-se na fraqueza. O que aconteceu com a oração de Paulo?  A doença permaneceu, mas ele experimentou o poder de cura do Espírito. O mais importante, nesse caso, é que a presença do Espírito se manifestou. O Senhor não permaneceu indiferente à oração de Paulo, mas fez o apóstolo crescer a partir de seu sofrimento, manifestando-lhe sua graça através do Espírito. Assim Deus se tornou presente na oração de Paulo pelo Espírito, o que equivale a um atendimento. Isso quer dizer que não devemos pedir nada a Deus? Claro que não. Ele é Pai e sabe que temos necessidade de muitas coisas para uma vida digna e feliz: saúde, paz, emprego, boa convivência familiar, bons relacionamentos etc. Devemos elevar a ele nossas necessidades, mas com humildade e sem obrigá-lo a nos atender, já que sabe mais do que nós aquilo de que necessitamos. Mas nossos pedidos só se tornam verdadeira oração diante de Deus quando, junto com a busca de algum bem terreno, nos abandonamos à sua disposição soberana e à sua misericórdia, sabendo que ele nos ama e jamais nos abandona.


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