As imagens como representação religiosa têm sido tema controverso desde muito tempo. Não foram os neopentecostais que inventaram essa polêmica. Na Igreja Católica, não é de hoje que os cristãos se posicionam em relação ao uso de imagens nos templos. A história dessa controvérsia já se aproxima da casa de mil anos, quando em 1054, depois de muitos desentendimentos iniciados no século VIII, a Igreja Católica se dividiu em dois grupos: a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente. Certamente, o uso de imagens foi só a ponta do iceberg. Nessa briga, havia interesses políticos e econômicos, além de outras discussões teológicas. Mas a questão iconoclasta foi a gota d’água e o Cisma do Oriente acabou acontecendo. Houve brigas, quebradeira de imagens etc. E o resultado foi: a Igreja Católica Romana, chefiada pelo papa, permaneceu fiel no costume de representar santos, personagens bíblicos, Jesus etc. por meio das imagens, costume difundido entre os cristãos desde o século II, que nos deixaram representações de Jesus bom pastor, de peixes etc.

Na verdade, se a gente for buscar a origem da questão acerca das imagens, ela vai muito além da virada do primeiro milênio. Esse problema já aparece no Antigo Testamento, como bem o sabemos. Recorrer a bíblia para sanar questões polêmicas pode não ser o melhor caminho, não só porque ela foi escrita em contexto bem diferente do nosso e representa uma cultura e uma compreensão de Deus bem diversas da atual, mas porque a bíblia é um mundo e, dentro dele, cabe tudo. Na bíblia há textos que proíbem fazer imagens e há textos que admitem e até mandam fazer imagens. Então, pegar um versículo solto da bíblia para atacar quem gosta de representações por meio de imagens é um disparate. Mas por que há textos que proíbem e outros que mandam fazer imagens? Vejamos!

Numa primeira fase da vida do povo hebreu, Deus proíbe fazer imagens. É uma fase mais antiga. O povo estava saindo do Egito. Lá no Egito, a religião era politeísta, ou seja, os egípcios adoravam muitos deuses, pois não conheciam o Deus verdadeiro. Então, tudo para eles era considerado deus. Ora, o povo hebreu viveu muito tempo no Egito e acabou se acostumando a pensar que qualquer coisa fosse igual a Deus. Se vissem uma imagem, fosse de gente ou de animal, eles se prostravam e ficavam pensando que a imagem tinha força de ajudá-los. É o caso do bezerro de ouro. Então, nessa fase, a Escritura Sagrada proíbe fazer qualquer imagem, para não confundir a cabeça do povo, afinal o povo corria o risco de trocar o Deus verdadeiro por qualquer imagem, como vemos em Ex 20,1-5 e Dt 4,15-20.

Observemos ao ler os textos acima que, juntamente com a proibição de fazer imagens, está a proibição mais radical: “Não terás outros deuses além de mim”. Na verdade, o problema não está nas imagens, mas na idolatria. A idolatria era coisa abominável para o povo hebreu. Enquanto o Deus que os tirou do Egito era o libertador, aquele que lhes dava vida plena, os deuses dos pagãos eram escravizadores. Eles manipulavam, oprimiam, maltratavam. As pessoas estavam sempre em posição de sujeição e submissão subserviente a eles. Se não fizesse o culto, eles se iravam, mandavam castigos, vinganças, punições etc. Não se importavam com sua gente, não participavam da vida do povo; em nome deles valia tudo.

Logo logo, o povo hebreu percebeu a burrice desse culto (infelizmente ainda presente hoje, inclusive na fé católica quando manipulamos Deus e fazemos dele um ídolo). As imagens, na verdade, representavam a idolatria e foram proibidas não por si mesmas, mas para evitar o culto idolátrico, o desvio dos olhares do Deus verdadeiro para ilusões divinas enganosas. E a proibição era tal que nem a imagem de um pássaro, do sol ou de qualquer elemento da natureza era possível fazer. Não é à toa que alguns grupos mais radicais – em nome da bíblia – não admitem, ainda hoje, sequer usar roupas com estampas ou até mesmo ver televisão ou tirar fotografias. Se for levar a sério a proibição do Deuteronômio, vamos ter que chegar a esse extremo. Não poderemos ter nem carteira de identidade ou qualquer documento com foto, pois é uma violação à proibição bíblica. Certamente que tudo isso é um disparate. Não dá para levar a ferro e fogo as proibições bíblicas ou não vamos mais cumprimentar as pessoas na rua, vamos surrar nossos filhos, vamos cortar mão e pé etc.

O Antigo Testamento, que proíbe severamente o uso de imagens, também manda fazer imagens. É o caso de Ex 25,17-22; 2Cr4,2-4;2Cr 3,10-13 e Nm 21,4-9. O povo fez por ordem de Deus uma imagem de serpente para ficar curado no deserto; Deus mandou fazer imagens de querubins e touros (note-se que é o mesmo animal antes visto como perigo para a fé no caso do bezerro de ouro), para serem colocadas no templo de Jerusalém, o lugar sagrado. Logo, fica bem claro que o problema não são as imagens, nem o que é representado, mas o culto a que elas podem nos induzir. Se elas levam o povo a reconhecer que Deus é um só e que só ele merece culto, ótimo! Se ajudam a fazer o caminho da fé para o Deus da vida e promovem a vida plena, então está tudo bem. Podem ser feitas imagens e elas podem estar nas Igrejas sem nenhum problema. Agora, se elas induzem à confusão do culto, se geram idolatria, se desviam os olhares do Deus verdadeiro para pseudo-deuses, então é hora de rever a presença das imagens nas igrejas.

Notemos que, como quase tudo na vida, o problema não está no objeto em si mesmo, mas na compreensão que dele fazemos, no significado que tal objeto passa a assumir na nossa caminhada de fé. O Deus de Jesus Cristo é o Deus libertador, o Deus da vida. Ele ama tanto a vida humana que assumiu a nossa carne (como disse Hebreus, “deste-me um corpo”), ou seja, ele mesmo se fez imagem, ganhou uma figura humana. Se o Deus de Jesus fosse contra as representações, por que ele mesmo ganharia imagem visível entre nós? É melhor pensar um pouco antes de sair combatendo imagens em nome de uma pretensa fidelidade à Escritura!


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