“É sem dúvida mais fácil enganar uma multidão, do que um só homem” (Heródoto)

 

Esta expressão se popularizou, especialmente durante o ano passado por causa do cenário político conturbado que vivemos, quando estivemos tensionados – ou melhor: divididos – entre uma direita e uma esquerda política e suas muitas publicações nas redes. Algumas dessas publicações eram claramente fake news (para usar o léxico contemporâneo), outras não tão claramente assim, de modo que era preciso estar à cata do que era verídico e do que não era, em meio à verborragia midiática. Pós-verdade, eis a expressão. Um termo distinto e charmoso para dizer o que já conhecemos como “mentira”? Não é tão simples assim. Falar em pós-verdade significa atestar que a mentira pode ser dita de forma muito veraz, pode ser repetida com constância e convencer os desavisados; pode ser misturada à verdade, costurada com ela e, então, aquilo que parecia tão evidente deixa de sê-lo: a mentira passa a ser verdade, porque foi muito bem contada. Além disso, precisamos redimensionar a expressão. Ela não diz respeito apenas à tensão política que vivemos no país; ela toca outros cenários e diz respeito ao nosso modo de viver atualmente.

Vamos burilar o termo.

  • O termo pós-verdade.

O termo despontou graças ao Dicionário Oxford que elege uma vez ao ano uma expressão que se destaca na língua. A expressão não foi cunhada em 2016, quando esteve em alta, não só no Brasil como no mundo inteiro, mas o seu uso cresceu radicalmente naquele ano. Na definição inglesa, o que mais chama a atenção do público não é tanto a verdade dos fatos, a objetividade dos acontecimentos, as circunstâncias em que os fatos se deram, mas a emoção que elas evocam e o apelo às crenças pessoais. Não é tanto, pois, um culto à mentira o que temos aqui; a questão vai mais além: diz respeito à indiferença pela verdade.

Na política e na economia, a verdade dos fatos não importa. É possível desfigurar um personagem público com algumas indistintas mentiras, argumentar sobre a probabilidade de elas serem verdades e, voilá, eis uma ideia plantada na cabeça da maioria. Para conquistar multidões, basta um discurso bem feito, um texto bem encadeado, uma possibilidade de certas hipóteses se confirmarem, ou dizer que é “científico”, que já foi “provado”, para que uma massa de indivíduos se abstenha de pensar por si mesma.

Os boatos prosperam e não basta mais repetir o precioso adágio “contra fatos não há argumentos”. Há sim! A insistência numa afirmação mentirosa seguida da desqualificação de quem a desmente é o segredo da mentira perfeita. Basta, portanto, isto: desqualificar potencialmente quem pode contradizer a mentira (ainda que seja preciso atacar o nível privado) e, em seguida, inculcar a mentira com repetição.

É desconfortável notar essa artimanha no universo discursivo, hoje em dia. Porque estamos falando da falta de garantias e de referenciais seguros. Mas não é que eles não existam, eles não são mais procurados. A era da pós-verdade é a era da apatia para com a verdade. Muitos não pesquisam, não questionam, não refletem, se deixam “educar” pelas redes sociais. São gabaritados em textos de facebook, fazem mestrado em política, biologia, sexualidade, a partir do google e, como “experts”, produzem conhecimento, que, por sua vez, é reverberado por outros e outros, sucessivamente. Não é que as redes sejam um péssimo instrumento; não é que as pessoas não tenham direito de produzir ideias e opinar. Esse não é o problema. O problema está na velocidade da informação que não é decantada, trabalhada, pensada e, é muitas vezes, redirecionada, pois atende a nossos interesses particulares, corresponde à nossa visão de mundo ou nossos preconceitos. Compramos a ideia que nos “emociona”; reverberamos o que nos cativa; defendemos afeições ou superstições. Brigamos por convencionalismos e tradições, ignorâncias e ódios recalcados, e (re)produzimos um conhecimento superficial, mutilado; uma miscelânea de ideias mal amarradas com aparência de verdade, mas que não se sustentam diante da crítica. Só podem ser afirmadas com violência, que é o ‘lugar’ onde todo diálogo já fracassou.

Segundo o jornal El País, para mentir não é preciso necessariamente contar uma mentira. Parece complexo, mas não é. Basta insinuar. A insinuação é uma ferramenta textual e discursiva muito potente, pois ela abre inúmeras possibilidades. Ela permite que o leitor ou ouvinte complete lacunas, tenha seus próprios insights. Mas uma “sacada”, pode nem sempre ser tão precisa assim. É possível colocar uma afirmação ao lado de outra sem conexão, deixando essa tarefa para o leitor. Isso é algo que realmente vai acontecer já que a contiguidade nos faz conectar muitas vezes, até o que é naturalmente desconexo. Mas há outras técnicas, segundo o jornal: pressupor, deixar subtendido; é possível inclusive colocar premissas corretas para chegar a deduções ilógicas. As premissas podem ser muito convincentes, mas a conclusão que delas decorre, a não ser de forma forçosa. A falta de contexto também decompõe a verdade, porque tira dela o seu ambiente vital. O que dizer então, daquelas outras técnicas que o jornal El País não menciona como, por exemplo, a manipulação da imagem? É muito fácil realizar manipulação de imagens com o advento das novas tecnologias; manipular fotos, vídeos, criar provas para elucidar fatos que talvez nunca tenham existido.

A mentira a serviço das grandes empresas, dos grandes mercados, dos grandes grupos comerciais, dos países de primeiro mundo é uma arma de inteligência muito poderosa. Não há nada mais perigoso que uma ideia. Distrair as massas para acobertar outros acontecimentos, supervalorizar fatos para roubar a atenção de outros, criar pânico para vender garantias, instilar medo para apresentar instrumentos de segurança, inventar doenças para vender remédios, popularizar hábitos pouco saudáveis e em seguida popularizar mecanismos de beleza rápida… Pode parecer teoria de conspiração e, no fundo, há que se reconhecer que os poderosos (chamemo-los assim), conspiram mesmo no projeto de lucrar a qualquer custo.

  • Alguns exemplos de mentira, na era da pós-verdade

Vamos dar alguns exemplos de mentiras que se espalharam e ganharam ares de verdade, apenas para elucidar o conceito.

  1. Barack Obama é mulçumano. Grande parte da população mundial soube desse disparate afirmado por Donald Trump. Mas milhões de americanos acreditaram no atual presidente americano. E, mesmo quando suas mentiras foram publicamente desfiguradas, isso não desanimou seus eleitores. Barack Obama ainda teria fundado o Estado Islâmico.
  2. O crime de responsabilidade na presidência da República, por parte da Presidente Dilma. É verdade ou não é? Vários parlamentares admitiram que ela não havia cometido crime de responsabilidade e isso não foi o bastante para evitar o impeachment. Quando deposta de seu cargo, ela não recebeu a penalidade que a Constituição lhe prescrevia para o crime de que a acusavam (o que é estranho) e mais, as pedaladas fiscais foram “legisladas”, se tornaram uma possibilidade.
  3. O filho do Lula é dono da Friboi. Há quem jure tal verdade de pé junto. E não só; ele seria dono de muitas outras empresas no Brasil, comandando nossa economia.
  4. A crença de um grupo na advogada Janaina Paschoal quando essa afirmou que Vladimir Putin está prestes a invadir o Brasil. Quando seria? Com bases em que ela fez tal afirmação?

Há, no entanto, uma controversa que precisamos percorrer, após exemplificar o que é pós-verdade. Será que houve algum momento em que o mundo das mídias trabalhou pela verdade? O que é afinal essa tal verdade, se é que ela existe?

  • Verdade ou verdades?

A verdade enquanto conceito tem história. Não nos interessa percorrer todo esse caminho até chegarmos ao atual entendimento do conceito. Será suficiente dizer que a verdade, na época clássica, estava intimamente ligada à Filosofia. Era preciso desacobertar a realidade, suspender o véu das aparências, para chegar às coisas mesmas. Longe das certezas absolutas, das crenças imovíveis, a verdade era fruto de um parto difícil que só poderia acontecer graças à reflexão. Já na época moderna, a verdade é o rebento da precisão, da análise minuciosa. Com o surgimento das grandes ciências, a verdade passa a ser o provável; e aquilo que as religiões, os mitos e a metafísica enunciaram certa vez como verdade passa a ser descaracterizado em nome do que só a ciência poderia ditar ou chancelar. Entretanto, contemporaneamente, o conceito da verdade é da ordem dos discursos, da hermenêutica dos fatos, é questão de perspectiva. Por isso, para compreender a verdade, inclusive a da enunciação dos fatos, não se pode descartar o contexto vital em que ela apareceu, o narrador que a emite, o narratário que a recebe. Verdade, nesse sentido, é questão de ponto de vista, de ideologia à qual se assente.

Mudam os modos de compreender a verdade, não apenas quanto ao conteúdo, quanto ao conceito, mas também quanto à forma de adquiri-la. A filosofia busca a verdade pela reflexão, pela dedução lógica, por vias metafísicas; as ciências buscam por meio de teorias científicas e suas possíveis provas; as religiões buscam a verdade como uma experiência vital no seguimento de um personagem carismático; e o senso comum recolhe um pouco de todos esses caminhos se apropriando deles de modo limitado, muitas vezes confuso e impreciso, misturando-os a preconceitos e a conhecimentos prévios nem sempre tão confiáveis.

Pois, então, o que seria a verdade? A verdade seria polifônica, como uma vez enunciou o teólogo alemão chamado Hans Küng. A intertextualidade seria, portanto, uma grande saída; a comunidade discursiva que, ao invés da intolerância ao diferente, for capaz de dialogar com todas as vozes, de compreender os muitos modos de apreender a verdade, sai ganhando.

E para as mídias? A verdade deveria ser a precisão dos fatos, a fidelidade à notícia. Mas não existe uma verdade “pura”, decantada de perspectiva. Não. Então é preciso deixar evidente a opção que se faz, porque ela de fato existe.

Há um problema aqui: o de anular todo e qualquer discurso se todos os participantes da comunidade dialogante se reservarem apenas ao seu cenário, apenas à própria verdade e a converterem em opinião restrita e fechada. Toda verdade deve se sustentar na dialética necessária que há no palco discursivo. Digo dialética, porque não se trata de combate, mas de ampliação de perspectivas para todos os discursantes. Os cenários, ao invés de se fecharem, se abrem para a polifonia da verdade e isso não inaugura nenhuma espécie de relativismo tolo ou extremado, mas somente aquele necessário para evitar os extremismos, os enrijecimentos e os fechamentos.

O que não deve acontecer é distorcer a verdade. Trocar evidências, alterar realidades, fazer passar por real a mentira, como dizer, a fim de criar ódio, que um americano documentadamente nascido nos Estados Unidos é mulçumano. Aqui entendemos o que é, de fato, pós-verdade. No caso das mídias, por exemplo, sabemos que elas sempre fizeram opções de perspectiva, mas quando essas mesmas perspectivas não são evidenciadas e o cenário midiático se torna palco para mentiras deslavadas, contadas com ares de verdade, isso significa que a era da pós-verdade se instaurou.  

Acontece também o mesmo no universo da propaganda de ideias, quando – por exemplo – se diz que já é comprovado que a maconha não faz mal para forçar sua descriminalização, enquanto o assunto é controverso; ou quando se diz que o aborto deve ser legalizado, enquanto há controvérsias a respeito de quando a vida começa. Uma dúvida é uma dúvida e isso é indubitável. Mas para convencer e manipular a população, a dúvida, as questões sombrias, são tamponadas, ignoradas. É possível defender uma hipótese, uma ideia, ter uma opinião, mas é preciso sustentá-la diante da comunidade discursiva. E sem maquiar dados, a fim de garantir interesses escusos, como muitas vezes acontece.

Mesmo a ciência só pode sobreviver assim: graças ao “não”. Foi Gaston Bachelard, filósofo francês que explicitou a importância da negativa, da controvérsia (as palavras não são dele) para derrubar teorias antigas e criar o espaço para novas. O grave problema é que, nem sempre, o que é melhor argumentado é mais real. Não vale apenas a boa retórica; não se decide sobre uma evidência precisa, a partir de algumas afirmações eloquentes. O que estamos dizendo é que as teorias têm que sobreviver às possibilidades de serem falsificadas. Assim, elas vão se verificando e se firmando no cenário discursivo.

  • Nós na era da pós-verdade.

Na era da pós-verdade, saber distorcer fatos e manipular ideias é instrumento de poder. Aproveitar-se das crenças pessoais de grupos e suas ideologias, preconceitos, vontades, para implantar neles convicções é o mesmo que controlar marionetes. Além disso, o apelo à emoção é sempre um instrumento, um artifício capaz de movimentar multidões.

Mas, no cenário mais cotidiano, o nosso modo de lidar com as teorias e ideias é embebedado do caldo cultural dessa nova era. Não estamos interessados em aprofundar conceitos, aceitamos a superficialidade, defendemos ideias sem conhecê-las a fundo, sem dar conta dos porquês e do sentido de as defendermos… Tudo isso é marca da era da pós-verdade.

A velocidade da informação, como já dissemos, não permite certos aprofundamentos e a mutirreferencialidade cultural em que vivemos nos permite associar coisas que se contradizem entre si. É possível ter abertura a todo conhecimento, a toda ideia, mas isso não significa negar os enraizamentos, para ficar com a metáfora do filósofo Heidegger, em seu Caminhos da Floresta. Mesmo as palhas ao vento, repousam sobre algum terreno batido, vez ou outra.

A emoção é também a justificativa mais apressada para afastarmos de nós aquilo que não nos afeiçoa. É compreensível; faz parte da primeira sabedoria adquirida na vida: se é gostoso a gente aceita, se não é, a gente repele como fazíamos quando éramos ainda bebês. Mas, à medida que crescemos, o paladar pode ficar mais sofisticado. Não dá para descaracterizar um Platão, dizendo “não concordo”, a partir de algumas poucas frases soltas lidas a seu respeito, só porque não nos afeiçoamos a ele, sem maior conhecimento de causa. Este tipo de atitude é um modo de se inserir na época da pós-verdade: quando a própria verdade das coisas não me interessa e me é totalmente indiferente.

A era do google parece nos ter munido de todo conhecimento possível. Somos doutores em medicina, genética, arte, sexualidade, psicologia, bioética, religião. Queremos opinar sobre tudo. Mas devemos? Somos produtores de pós-verdades ao emitirmos opiniões muitas vezes descuidadas, misturadas a alguns argumentos científicos, filosóficos ou mesmo teológicos para sustentar nossas perspectivas muitas vezes improváveis e absurdas. E, como já foi dito, não é suficiente dizer “é meu ponto de vista”.  Mais sábio seria dizer, em muitos casos, um rotundo “não conheço”, “não entendo”, ao invés de reverberar tolices.

Somos filhos da era da pós-verdade, inclusive quando deixamos de ser nós mesmos, para nos tornarmos um personagem nas redes sociais; no facebook, no instagram, no snapchat, etc. Um personagem que quer ser visto, que enxerga nesse universo o potencial para criar a vida que não acontece na realidade. Ou quando criamos fakes para podermos ser a parte mais sombria de nós, aquela que a sociedade não nos permite ser e que nós não conseguimos integrar.

Parece que não dá para viver mais sem um olhar filosófico. E isso é muito bom. Mas constantemente estaremos obrigados à crítica acurada, à reflexão e ao olhar que descoberta a realidade de seus véus enganosos, muitas vezes colocados por aqueles que não querem que enxerguemos. Não há outro jeito de viver, a não ser reflexivamente, na era da pós-verdade.


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