Um dos textos bíblicos mais completos sobre o tema do fim dos tempos é Mt 25. Esse texto é parte de um ensinamento de Jesus, conhecido como discurso escatológico, o qual se encontra nos três Evangelhos sinópticos (Mc 13, Mt 24-25 e Lc 21). Em todas essas passagens, o objetivo é o mesmo:

  • dar uma correta interpretação sobre a destruição do Templo de Jerusalém, a vinda do Filho do Homem e o fim dos tempos;
  • exortar as comunidades para que não se deixem enganar por falsos profetas e messias;
  • dar uma compreensão mais profunda sobre a história, iniciando-se com a ressurreição de Cristo e finalizando com o julgamento final;
  • exortar os cristãos de todos os tempos para que estejam preparados para a volta do Filho do Homem.

Neste breve artigo, nosso foco é Mt 25, porém, para compreendê-lo bem, é necessário que entendamos esses objetivos do discurso escatológico, retomando um pouco o texto anterior Mt 24.

O discurso escatológico começa com uma profecia de Jesus sobre a destruição do Templo de Jerusalém (Mt 24,1-3). Naquele contexto, a preocupação dos discípulos era: “quando” será o fim dos tempos, “quais os sinais” da vinda do Filho do Homem e do fim dos tempos. O discurso é a resposta a essas perguntas que, na verdade, são feitas pelas comunidades do final do século I dC.

Jesus diz aos discípulos quais são os sinais dos tempos (Mt 24,4-14). Em Mateus esses sinais são uma indicação da proximidade do fim dos tempos, uma garantia de que certamente o Filho do Homem voltará. Conforme 24,14, os sinais apontam para a ruína iminente de Jerusalém e deste mundo.

Jesus retorna à pergunta dos discípulos para adverti-los sobre a destruição iminente de Jerusalém e dar-lhes o sentido mais profundo desse acontecimento (Mt 24,15-25).

A volta do Filho do Homem (Mt 24,29-31) é descrita com as metáforas corriqueiras daquela época. O fim do mundo corresponde à manifestação gloriosa do Filho do Homem. Esse trecho é o mais especificamente apocalíptico dentro do discurso escatológico.

Para dar um significado aos acontecimentos do final do primeiro século, principalmente a destruição do templo, Jesus menciona o símbolo da figueira (Mt 24,32-33). As folhas da figueira brotam no final da estação chuvosa, isto significa que a estação seca (verão) está próxima.  Os acontecimentos que são o começo das tribulações indicam a proximidade do Filho do Homem e este é o sinal de que o fim dos tempos está próximo. Em Mateus, a destruição do Templo, a manifestação do Filho do Homem e a vinda de Jesus são etapas do mesmo acontecimento.

Em seguida, há três sentenças que constituem o núcleo da resposta à pergunta feita na introdução do discurso. A primeira (Mt 24,34) é a conclusão lógica da parábola da figueira e mostra o “quando” dos sinais premonitórios, a saber, os acontecimentos vividos por aquela geração, a destruição do Templo. A segunda (Mt 24,35) desfruta de um destaque especial, pois afirma a certeza do fato fundamentando-a na palavra infalível de Jesus. Não cabe fazer previsões nem cálculos, basta acreditar no que Jesus disse. A terceira (Mt 24,36), com o propósito de por fim às especulações escatológicas do final do primeiro século, destaca a ignorância completa sobre o momento exato do fim dos tempos.

O texto de Mt 25

O final do discurso de Jesus, apesar de algumas diferenças entre os sinópticos, traz o mesmo tema nos três evangelhos: há que ter uma atitude vigilante, é necessário se manter em prontidão para não ser surpreendido por aquele dia final, que acontecerá repentinamente (Mt 24,42; 25,13-15). Essa mensagem é aprofundada através de três parábolas:

As virgens prudentes e as virgens imprudentes (Mateus 25,1-13)

Dez virgens partilhavam da mesma espera pelo noivo, todas estavam felizes, ora dormiam, ora acordavam, todas tinham lâmpadas e as mantinham acesas, em tudo pareciam iguais, exceto pela diferença que algumas tinham uma reserva de óleo e outras não. O elogio feito à prudência das primeiras está exatamente nesse ponto: o noivo pode demorar, a espera pode ser mais longa do que parece, é bom ter uma reserva de óleo para que se possa usufruir de sua presença. O episódio narrado na parábola se desenrola numa longa noite de espera que representa a história humana à nova espera do Cristo.

Os talentos (Mateus 25,14-30)

Alguns talentos são distribuídos entre os servos para que os administrassem enquanto esperavam pelo retorno do seu Senhor. Ninguém ficou sem receber talento e a todos foi dado conforme as condições de cada um, de acordo com o conhecimento que o Senhor tem de seus servos. A diferença não está na quantidade que cada um recebeu, mas na atitude de cada um para com os talentos recebidos.

A parábola diz que dois servos administraram bem os talentos. Estes sabiam que quanto mais colocam o talento à disposição de todos, tanto mais este se torna fecundo e produz frutos. Eles se arriscaram e se empenharam em fazer seus talentos renderem e, por isso, foram convidados a participarem da felicidade do seu Senhor quando este retornou e lhes pediu contas da administração.

Mas um foi egoísta. Ele preocupou-se com sua boa imagem diante do Senhor, ele não administrou o que recebeu, ele apenas enterrou seu talento. Não houve empenho, não houve riscos a correr, não houve doação de si mesmo. A inércia desse servo desagradou profundamente o Senhor e ele não foi achado digno de participar de sua alegria como os outros dois.

A separação entre bodes e ovelhas

Essa parábola, diferente das demais, põe diretamente em cena o Filho do Homem e mostra em que consiste concretamente a vigilância e a responsabilidade dos fiéis à espera do Senhor. O Filho do Homem se apresenta primeiramente como rei e, em seguida, como pastor. Na primeira figura se enfoca o aspecto da autoridade e, na segunda, a principal imagem de Deus conforme os textos do Antigo Testamento. A humanidade inteira, representada pelo termo “nações”, está sob a autoridade desse rei. Os seres humanos são, a seguir, identificados como ovelhas e cabritos. E então a cena do final da história se desenrola como se fosse o final de um dia de trabalho dos pastores no Oriente. Pois, ao cair da tarde, os pastores separam os animais do rebanho visto que as ovelhas suportam melhor o frio da noite e as cabras precisam de mais cuidados sob pena de não sobrevivem.

A cena do julgamento se desenrola (Mt 25,34-45) e toma por base os comportamentos adotados por cada grupo em relação aos mais necessitados. Assim como o pastor separa ovelhas e cabras no final do dia, o Filho do Homem separa quem cuida e quem não cuida do próximo. A fome, a sede, a solidão, a nudez, a doença e a prisão, são situações fundamentais da experiência humana, mais frequentes e mais universais.

Primeiramente vem a sentença positiva (v. 34-36), depois a negativa (v. 37-39 e 44). Em ambos os casos a sentença provoca uma reação de espanto. Três vezes os que se acham justos fazem a mesma pergunta (v. 37,38 e 39). As pessoas esperam que a separação seja feita entre quem frequenta e quem não frequenta a Igreja. Mas a postura do Filho do Homem não corresponde a esta expectativa.

A execução da sentença em Mt 25,46 alude a Dn 11,40 – 12,10 e é praticamente uma repetição de Dn 12,2. As metáforas aí usadas fazem parte do imaginário judaico, não devemos tomá-las literalmente. O que devemos prestar atenção é nos motivos pelos quais as sentenças são proferidas e escolhermos se queremos ficar do lado dos que se doam ao próximo ou do lado dos que se acham muito justos, mas que nada fazem pelo semelhante.

Atualizando

Em todos esses textos se vive a expectativa pelo Senhor que vem. Ninguém sabe quando o Senhor virá e durante o tempo de espera as pessoas reagem de modo diferente. Algumas se mantêm firme até o fim. Não deixam que a fé e a esperança se apaguem nem se esfriem, mantém os talentos recebidos em constante uso e os fazem render de acordo com os propósitos do Senhor.

Outras pessoas não sobrevivem ao tempo da espera, começam bem, mas fraquejam antes do encontro com o Senhor que vem. Sua fé e esperança não se mantêm firmes até o final. Seus talentos recebidos não são postos a serviço por muito tempo. Não têm empenho para resistir até o final.

Essas atitudes descrevem em fortes traços aquilo que vivemos em nossa época. Há uma crise de convicções. A maioria das pessoas tem dificuldade em manter suas opções, decisões e compromisso. Há uma liquidez nas convicções e um afrouxamento dos laços de pertença a uma família, grupo, igreja. Muitos são bastante empenhados no serviço ao Reino de Deus, mas em pouco tempo vemos sua dedicação esfriar até que não mais estejam convictos de continuar.

Que as palavras de Jesus nos ajudem a nos manter a caminho, sem jamais vacilar.


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