A santidade de Deus

Para Jesus, o nome próprio de Deus é Abba. Assim ele se dirige a Deus, chamando-o de Pai, com profunda confiança filial, carregada de ternura e segurança. Aqui está o núcleo da experiência que Jesus faz de Deus. E Jesus partilha sua oração com os discípulos, convidando-os a invocar a Deus como Pai, com a mesma confiança filial. O termo Pai não exclui, necessariamente, o termo mãe. Pai significa a origem e o princípio do mistério trinitário e do nosso ser. Na Trindade, há uma origem sem origem, aquela de quem o Filho e o Espírito procedem: o Pai. Mas a Bíblia conhece imagens maternas para descrever o amor de Deus. “Como a mãe consola o Filho, assim eu vos consolarei” (Is 66,13). Jesus propõe o exemplo da galinha que ajunta os seus pintinhos debaixo de suas asas para expressar o seu amor ao povo de Jerusalém (cf. Mt 23,37). João Paulo I declarou certa feita: “Deus é Pai, mas também é Mãe. Não quer o nosso mal; só quer o bem de todos nós”. Deus é, na verdade, um Pai maternal.

As três primeiras petições do Pai-nosso utilizam o subjuntivo: “santificado seja”, “venha”, “seja feita”. São pedidos centrados no próprio Deus.   A súplica “santificado seja o vosso nome” expressa o desejo de que o plano de salvação de Deus se realize no mundo. Demonstra, ainda, respeito reverencial, pois o objeto do desejo manifestado não é que os homens tornem o nome de Deus santo, pois ele já é santo. Nós não santificamos o nome de Deus; Deus é que com seu nome santo (sua pessoa) nos santifica. E esse é o desejo do pedido. Que, ao manifestar ao mundo a santidade divina, todo o mundo seja santificado por Deus.

E o que é o nome de Deus? O próprio Deus em sua revelação. Santificar o nome de Deus nada mais é do que torná-lo conhecido em toda sua verdade e glória. O nome de Deus designa seu ser mais íntimo. A Moisés ele diz: “Eu sou Aquele que sou” (Ex 3,14). Se esse nome deve ser santificado, isso quer dizer que se deve reconhecer Deus como o Santo. Na Bíblia, o nome indica a natureza mais íntima da pessoa. Referido a Deus, o conceito de santidade aponta para sua essência pessoal, sua divindade, sua absoluta transcendência e inefabilidade. Um nome que é mistério, pois Deus não se deixa manipular pelo ser humano. Não se identifica com as realidades imanentes, mas existe por si mesmo, sem receber de nenhum outro ser existente o seu próprio ser. Está acima de tudo aquilo que o ser humano domina com sua capacidade natural e racional de conhecer.

Santidade, nesse caso, nada tem a ver com perfeição moral. O termo santidade em referência a Deus diz de sua incomparável dignidade, razão pela qual deve ser adorado. Mas o paradoxo da santidade divina está em que o Deus santo, aquele que se esconde e é insondável, se revela em sua santidade precisamente quando em contato o ser humano. O Deus santo e indizível se mostra, na história do povo de Israel, libertador, salvador, misericordioso e compassivo. Faz uma aliança com esse povo para mostrar-lhe sua benevolência. “Enviou a seu povo a redenção, promulgou para sempre sua aliança. Seu nome é santo e digno de respeito” (Sl 111,9). Ao se recordar do nome de Deus e de seu amor manifestado na história e na criação, o povo só sabe agradecer: “Bendize, ó minha alma, o Senhor, e todo meu ser, seu santo nome! Bendize, ó minha alma, o Senhor, e não esqueça nenhum de seus benefícios” (Sl 103,1-2). Maria nos dá o exemplo perfeito do reconhecimento do nome de Deus e sua misericórdia infinita: “O poderoso fez em mim grandes coisas. O seu nome é santo” (Lc 1,49). Todos os que creem em Deus podem exclamar com o salmista: “Nosso auxílio está no nome do Senhor que fez o céu e a terra” (Sl 124,8).

 A santidade de Deus e sua glória andam juntas, como ensina o próprio Jesus: “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12,28). Jesus, o Filho de Deus, participa da santidade de Deus e a reflete. É expressão do ser de Deus. “Este Filho, que é o resplendor de sua glória, a imagem de seu ser, sustenta todas as coisas com o poder de sua Palavra” ( Hb 1,3).  Plenamente Deus e plenamente homem, Jesus é o mediador de santificação através do Espírito Santo. Nele Deus pôs o seu olhar e a sua complacência: “Este é meu Filho amado, de quem eu me agrado” (Mt 3,17). Jesus é o altar da nova aliança, o novo templo, a vítima oferecida, a caridade perfeita, o mediador entre Deus e os homens. É o Santo de Deus. Santidade em todos os seus aspectos: ontológico, cultual, moral, psicológico. “Nele nos escolheu antes de criar o mundo, para sermos santos e imaculados diante dele no amor, predestinando-nos a sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo, conforme a decisão de sua vontade, para louvor e glória de sua graça, com a qual nos enriqueceu em seu querido Filho” (cf. Ef 1, 4-5). Em Cristo, a bondade, a misericórdia e a ternura que se encontram no nome de Deus nos foram para sempre reveladas: “Eu lhes dei a conhecer vosso nome e lhes darei a conhecê-lo, para que neles esteja o amor com que me amastes, e também eu esteja neles” (Jo 17,26).

A santidade cristã

A santidade de Deus se torna uma exigência para os que nele creem. O autor da Primeira Carta de Pedro retoma o texto de Ex 19 no contexto do seguimento de Cristo por parte dos cristãos: “Vós sois raça escolhida, sacerdócio régio nação santa, povo conquistado por Deus para proclamar as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para uma luz admirável” (1Pd 2,9). E afirma também a vocação do cristão à santidade. “Assim como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos vós também em toda vossa conduta, porque está escrito: ‘Sede santos, porque eu sou santo’” (1Pd 1,15-16). É o mesmo que Jesus afirmara: “Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai celeste” (Mt 5,48).

Todo ser humano e a criação participam da santidade de Deus. Cada ser que vem a este mundo tem uma santidade ontológica, porque foi criado por Deus em Cristo e traz essa marca, ainda que não a reconheça. Carrega, assim, uma ‘bênção original’ que o pecado pode arranhar e arrefecer, mas jamais destruir totalmente. O homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27), aí está sua santidade original.  No batismo, entretanto, o ser humano se torna santo por participação na santidade de Jesus. O pecado deformou a imagem de Deus no ser humano, mas o sacramento do batismo restaura essa imagem e ele se torna o que é chamado a ser: santo.  Santidade significa comunhão com Cristo que nos santifica pelo Espírito e nos faz participar de seu relacionamento filial com o Pai. Segundo São Paulo, o cristão “está em Cristo” (2Cor 5,17), é “um homem em Cristo” (2Cor 12,2), por participação em sua páscoa. O cristão “vive em Cristo” (1Cor 1,9; 1Jo 4. 9; Rm 6,8; 2 Tm 2,11). Trata-se da grande novidade do batismo: o cristão participa da santidade de Cristo, que ao Pai se consagrou por todos. “Fostes lavados, santificados, justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus” (1Cor 6,11). A causa imediata da santidade cristã é o Espírito Santo, santificador, que imerge o cristão na santidade do Filho de Deus. Somos santos no Santo de Deus.

A santidade é uma graça que precisa ser atuada pelo cristão. A máxima que rege a sua vida se resume neste imperativo: “Torna-te aquilo que és”. Para que sua vida realize a graça da santificação recebida no batismo, sua missão será santificar o nome de Deus com a própria vida. O nome de Deus é Pai. Santificar o nome de Deus exige viver como filho de Deus e irmão de todos. O autor da Carta aos Hebreus exorta: “Procurai a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12,14). A paz é fruto da caridade, derramada em nossos corações pelo Espírito Santificador (cf. Rm 5,5). Quem caminha segundo o Espírito, caminha na caridade, (cf. Rm 8,4; Ef 5,2), plenitude da Lei (cf. Rm 13,10; Gl 5,14), vínculo da perfeição (cf. Cl 3,14).

Ao pedirmos que Deus santifique o seu nome no Pai-nosso, expressamos o nosso desejo de que Deus torne seu nome conhecido, honrado e exaltado por todos os seres humanos. Fazemos nosso o próprio pedido de Jesus: “Pai, glorifica teu nome” (Jo 12,28). Desejamos assim que a santidade de Deus impregne o mundo e as pessoas de sua presença amorosa, salvadora, misericordiosa. Queremos que sua glória transforme o mundo em Reino de Deus, por isso completamos o nosso pedido, dizendo: “Venha a nós o vosso Reino”.


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