Caros leitores do Fique Firme, durante dois anos refletimos sobre o Credo. Embora possamos rezá-lo sem atenção durante a missa, ele nos oferece as bases para a nossa experiência cristã de Deus. O mesmo Deus que age em cada ser humano, antes mesmo da profissão explícita da fé cristã, é aquele de que fala o Credo, com palavras sempre tão limitadas. Basicamente, o Credo afirma que, segundo a revelação cristã, Deus é comunhão de amor, Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), sendo que o Filho se encarnou para nossa salvação e historicamente se chamou Jesus Cristo (Messias Salvador). Crucificado sob Pôncio Pilatos ressuscitou ao terceiro dia,enviando o Espírito Santo sobre seus discípulos, dando, assim, origem à Igreja, sacramento do Reino de Deus e início histórico da comunhão escatológica.

O Pai-nosso, por sua vez, é a oração que Jesus Cristo ensinou aos seus discípulos e que nós rezamos em toda celebração eucarística. De fato, também essa oração nos ajuda a entender o essencial da fé cristã e se apresenta como modelo para qualquer oração cristã. Alguns padres da Igreja afirmavam que ela é o resumo do cristianismo, sendo também se compreendida como síntese da fé e da espiritualidade cristãs.Vamos, a partir dessa edição, comentar essa belíssima oração no intuito de que essa meditação nos ajude a entrar no mistério de Deus que se revela em Jesus.

 

Pai nosso que estais nos céus

Os evangelhos nos falam que Jesus foi homem de oração. Seu dia começava com a oração: “De madrugada, estando ainda escuro, ele levantou e retirou-se para um lugar deserto e ali orava” (Mc 1,35).  Ele aprecia a solidão (cf. Mc 1,35; Mt 14,24; 23,26; Lc 5,16; 9,18); gosta de se retirar para o silêncio da montanha (cf. Mc 14,23; Mc 6,46; Lc 6,12; 9,28); preza a serenidade da noite (cf. Mc 1,35; Lc 6,12). Sua oração não consiste num mero apêndice da sua vida, é parte crucial da mesma, abarcando todo seu existir e iluminando sua atuação.Ele também ensinou os discípulos a orar. Propõe uma oração simples e sóbria em palavras e gestos, feita em segredo, sem espetáculo, mas confiante (cf. Mt 18,19). Algumas parábolas confirmam sua prática e seu ensinamento sobre a oração, como vemos nas parábolas do juiz iníquo e a viúva inoportuna (cf. Lc 18,1-8); do fariseu e o publicano (cf. Lc 18,9-14), do amigo que chega à meia-noite pedindo pão (cf. Lc 11,5-8).

Quando os discípulos, vendo Jesus em oração, pedem que lhes ensine a orar, ele lhes ensina o Pai-nosso (cf. Mt 6,9-13; Lc 11,1-4), que se tornará a oração cristã por excelência, uma oração de amor filial. O Pai-nosso aparece inserido na liturgia eucarística, memorial da páscoa de Cristo e seu verdadeiro significado emerge à luz do mistério pascal. “Jesus concede aos discípulos o dom dessa oração desde antes de sua páscoa, assim como a eucaristia foi instituída antes da morte e da ressurreição. Mas tanto uma como outra só possuem sua plena verdade no Cristo e sua páscoa” (DURRWELL). Os discípulos só poderão invocar a Deus como Pai quando estiverem em comunhão com Cristo que morreu e ressuscitou para a salvação de todos. O Espírito Santo os fará entrar nessa comunhão com Cristo e participar da própria oração de Cristo. Jesus, pelo Espírito, concede aos cristãos a graça de dizer Abba (Paizinho), como ele mesmo fazia(cf. Mc 14,36). Essa palavra expressa intimidade filial e era inabitual na oração judaica. Abba é um termo tirado da linguagem familiar que se aproxima do termo português paizinho. Ela exprime a intimidade de Jesus com o Deus que é seu Pai e revela a ternura como traço fundamental da sua relação com o Pai. O Espírito Santo faz nossa a oração de Jesus. Os cristãos podem dizer Abba, Pai, participando da oração de Jesus, graças ao Espírito, como atesta Paulo: “Com efeito, não recebestes um espírito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abba, Pai!” (Rm 8,15). Em Gl 4,6 é também graças ao Espírito que o cristão pode dizer Abba, Pai!

Para chamar Deus de Pai, o discípulo precisa estar imerso no mistério pascal de Cristo, do qual participa por graça do Espírito Santo. Jesus é o Filho natural de Deus, o primogênito (cf. Cl 1,15.18; Rm 8,9; Ap 1,5), o unigênito(cf. Jo 1,18; 3,16). Os cristãos são filhos no Filho, eis aí sua maior dignidade. O Espírito insere os cristãos na filiação de Jesus. O Filho de Deus se fez homem para os homens se tornassem filhos de Deus.  O Pai-nosso, como toda oração cristã, “é própria de homens que, com Cristo, habitam a Trindade” (DURRWELL). É verdade que nem o Filho nem o Espírito estão especialmente nomeados no Pai Nosso. Mas a influência do Filho é manifesta, já que é o primeiro a proferir o nome de Abba, Pai. Cabe a ele presidir nossa oração. A presença e a ação do Espírito Santo são inegáveis, já que é o responsável por fomentar em nós sentimentos, palavras e comportamentos filiais. O Espírito não só nos faz filhos, mas vai nos filializando ao longo de toda a nossa vida;vai nos fazendo assumir a filiação de Jesus. Encarnar em nós a filiação de Jesus não depende somente da nossa vontade; é mistério realizado pelo Espírito. Todo o mistério da Trindade se põe em movimento na oração do Pai-nosso. É a oração dos filhos no Filho. “O Pai-nosso é uma oração trinitária: com Cristo, mediante o Espírito, oramos ao Pai”, sintetiza Ratzinger (Bento XVI).

O Pai-nosso aparece em Mt 6,9-13 e Lc 11,2-4. Na tradição herdada por Mateus, a invocação inicial se amplia: Pai-nosso que estais nos céus, o que se explica por seu contexto judaico. Como Mateus escreve para comunidades judaico-cristãs, apresenta uma invocação mais conforme a maneira judaica de orar. Na tradição de Lucas, tal invocação mostra-se mais simples, porém mais rica, uma vez que Jesus permite aos discípulos chamar Deus de Pai, como ele o fazia.

O mais relevante, de acordo com os evangelistas, é a nomeação de Deus como Pai, o que só é possível na comunhão com Jesus, em quem os cristãos estabelecem uma verdadeira relação filial com Deus, que a oração cristã expressa e aprofunda. Mas Deus não é Pai do cristão individualmente; ele é Pai da comunidade dos cristãos e Pai de todos os seres humanos, por isso dizemos Pai-nosso. Ratzinger acentua a importância do nosso, uma palavra exigente, porque obriga a sair do recinto fechado do eu para entrar na comunidade dos outros filhos de Deus, abandonando tudo aquilo que separa. Dizer Pai-nosso significa abrir-se à família de Deus que é a Igreja, na qual o Senhor quis recolher os seus filhos. O Pai-nosso tem uma dimensão pessoal, mas mostra-se profundamente eclesial e também universal. A oração que Jesus ensina pertence à comunidade dos seguidores, dos que vivem em torno de Jesus, na irradiação de seu mistério filial. A diferença da invocação de Deus-Pai em Mateus e Lucas não modifica o fato de os discípulos se referirem sempre à paternidade de Deus, à qual têm acesso graças a Jesus, em quem clamam Abba, Pai.

Depois da invocação inicial, alguns pedidos são dirigidos ao Pai. O Pai-nosso, do início ao fim, caracteriza-se como petição, cujo sentido só se compreende a partir da comunhão com Cristo. Ao Pai os filhos pedem e assim glorificam-no em sua paternidade, porque o próprio Pai criou os seres humanos aos quais quer se entregar. Nos seus filhos, Deus Pai é glorificado. Os pedidos dos discípulos no Pai-nosso não têm uma conotação egoísta. Para sua alegria filial, eles só podem desejar que Deus seja no mundo o que ele de fato é, ou seja, Pai de todos. Eles fazem seus os interesses do Pai, pedem que o Pai se dê a conhecer como Pai, que seu projeto se realize, que o Reino que seu Filho anunciou e inaugurou se torne realidade no mundo por obra do Espírito. Nos próximos números entraremos no teor de cada pedido do Pai-nosso, o que iluminará também nossa oração pessoal.


Para meditar anterior:    33. O CREDO: Creio na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.
Próximo para meditar:      35. O Pai-nosso: Santificado seja o vosso nome
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