12

18 Uns saduceus, os quais dizem não existir ressurreição, aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram:
19 “Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se alguém tiver um irmão e este morrer, deixando a mulher sem filhos, ele deve casar-se com a mulher para dar descendência ao irmão’.
20 Havia sete irmãos. O mais velho casou-se com uma mulher e morreu sem deixar descendência.
21 O segundo, então, casou-se com ela e igualmente morreu sem deixar descendência. A mesma coisa aconteceu com o terceiro.  22 E nenhum dos sete irmãos deixou descendência. Depois de todos, morreu também a mulher.
23 Na ressurreição, quando ressuscitarem, ela será a esposa de qual deles? Pois os sete a tiveram por esposa?”
24 Jesus respondeu: “Acaso não estais errados, porque não compreendeis as Escrituras, nem o poder de Deus?
25 Quando ressuscitarem dos mortos, os homens e as mulheres não se casarão; serão como anjos no céu.
26 Quanto à ressurreição dos mortos, não lestes, no livro de Moisés, na passagem da sarça ardente, como Deus lhe falou: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó!’
27 Ele é Deus não de mortos, mas de vivos! Estais muito errados”.
28 Um dos escribas, que tinha ouvido a discussão, percebeu que Jesus dera uma boa resposta. Então aproximou-se dele e perguntou: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?”
29 Jesus respondeu: “O primeiro é este: ‘Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só.
30 Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força!’
31 E o segundo mandamento é: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’! Não existe outro mandamento maior do que estes.”
32 O escriba disse a Jesus: “Muito bem, Mestre! Na verdade, é como disseste: ‘Ele é o único, e não existe outro além dele’.
33 Amar a Deus de todo o coração, com toda a mente e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo, isto supera todos os holocaustos e sacrifícios”.
34 Percebendo Jesus que o escriba tinha respondido com inteligência, disse-lhe: “Tu não estás longe do Reino de Deus”. E ninguém mais tinha coragem de fazer-lhe perguntas.
35 Então Jesus tomou a palavra e ensinava, no templo: “Por que os escribas dizem que o Cristo é filho de Davi?
36 O próprio Davi, movido pelo Espírito Santo, falou: ‘Disse o Senhor ao meu senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos debaixo dos teus pés’.
37 Se o próprio Davi o chama de ‘senhor’, como então ele pode ser seu filho?” E a grande multidão o escutava com prazer.
38 Ao ensinar, Jesus dizia: “Cuidado com os escribas! Eles fazem questão de andar com amplas túnicas e de serem cumprimentados nas praças,
39 gostam dos primeiros assentos na sinagoga e dos lugares de honra nos banquetes.
40 Mas devoram as casas das viúvas, enquanto ostentam longas orações. Por isso, serão julgados com mais rigor.
41 Jesus estava sentado em frente do cofre das ofertas e observava como a multidão punha dinheiro no cofre. Muitos ricos depositavam muito.
42 Chegou então uma pobre viúva e deu duas moedinhas.
43 Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo: esta viúva pobre deu mais do que todos os outros que depositaram no cofre.
44 Pois todos eles deram do que tinham de sobra, ao passo que ela, da sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha para viver”.

Situando…

Em Jerusalém, Jesus está discutindo com sacerdotes, saduceus, escribas e fariseus. Segundo Mc, esses grupos já procuram, desde a Galileia, uma oportunidade para apanhar Jesus em alguma palavra ambígua ou qualquer transgressão dos mandamentos (cf. Mc 3,6; 8,11). Ou seja, serão os responsáveis diretos pela instalação do processo que levará Jesus à morte. Ainda assim, Jesus não se furta de mostrar-lhes o Reino de Deus e ensinar ao povo no Templo. Em sua pregação, fica cada vez mais claro o quanto o Reino se opõe às estruturas de poder e cerceamento da liberdade das pessoas. E, ao mesmo tempo, fica também mais claro para os discípulos “quem é Jesus”, que tipo de Messias ele é.

Como em toda cidade grande, Jesus encontrará em Jerusalém diversos procedimentos e diversas respostas ao Reino. Umas favoráveis, outras negligentes, outras declaradamente contrárias. Em todos os tempos, o anúncio do Reino despertou reações diversas, da adesão à violência. Com Jesus, desde o início, não foi diferente.

 Para fora do Reino: a conveniência

A próxima provocação a Jesus, depois de tantas já vistas nos Estudos 31 e 32, vem dos saduceus (v. 18). A eles estava entregue o cuidado do Templo de Jerusalém e somente dentre eles se elegia o Sumo Sacerdote. Mc nos informa que os saduceus não acreditam na ressurreição. Não é propriamente uma surpresa, pois quem goza dos poderes e das riquezas raramente pode querer ou esperar uma vida diferente desta que leva. Mas há razões históricas para essa descrença. Os saduceus, como bons vigilantes da Lei que vivem no centro do controle religioso, não aceitam outro livro inspirado que não o miolo da Lei, a Torah em seu sentido estrito, ou seja, os cinco livros primitivos da Escritura Judaica. E, de fato, nesses ainda não se manifesta a esperança da ressurreição. A fé numa vida para além da morte começa a despontar nos escritos sapienciais mais tardios, após o Exílio da Babilônia e, sobretudo, a partir da influência grega (livro da Sb, por exemplo), até aparecer explicitamente na literatura apocalíptica, que gera os livros de Tb, Dn, 1 e 2Mc. Sem aceitar a inspiração divina desses livros, os saduceus se atêm à observância estrita daquilo que chamamos “Pentateuco”.

Jesus, por outro lado, é filho da Galileia.Criado na periferia do mundo judaico e muito mais próximo da fé farisaica e da sinagoga do que do Templo e do sacerdócio.Jesus conhece os escritos rejeitados pelos saduceus, mas aceitos pelos fariseus. Por isso, a pergunta dos saduceus toca exatamente o ponto polêmico: a ressurreição dos mortos. A parábola proposta por eles é bizarra: uma mulher casada com sete irmãos sucessivamente, nenhum dos quais lhe rende descendência (v. 19-23). A obrigação de dar-se em casamento ao irmão do falecido, caso o morto não deixasse filhos, está alicerçada na Torah, na “Lei do Levirato” (cf. Dt 25,5ss). E os saduceus cuidam de principiar sua pergunta lembrando o rigor de sua observância da Escritura: a autoridade de Moisés (v. 19). Por fim, sua questão: se há ressurreição, como conciliar na vida eterna as relações de posse que os distintos maridos tiveram sobre a mesma mulher? (v. 23). Afinal, que um homem tivesse várias mulheres era permitido pela Lei. O contrário, jamais.

Jesus responde com uma advertência: a descrença dos saduceus na ressurreição revela ignorância das Escrituras e incompreensão do poder de Deus (v. 24). Lida no seu conjunto, a Escritura conduz à esperança de que Deus, por poder e por graça, não deixa perecer aqueles que ama. Ou seja, Deus nos ressuscita sempre. Entretanto, a ressurreição não é o retorno ou a continuação eterna desta vida, vivida como se a vive aqui e agora. Talvez, muitos de nós ainda compreendamos assim, hoje. Pelo contrário, a ressurreição insere os ressuscitados numa vida transformada, profundamente diferente desta que agora se experimenta. Não haverá posses, nem bens, nem direito de uns sobre outros (v. 25); “serão como anjos”. Vale explicar que a expressão não significa que o ser humano, depois da morte, torna-se um anjo com asas e cabelos cacheados como na iconografia barroca, nem muito menos que os humanos serão “espíritos soltos’, sem vínculo com sua identidade humana. “Serão como anjos” significa: desprovidos de todo direito de posse, mas irmãos uns dos outros, na mais perfeita fraternidade. Na ressurreição, não se manterão as relações de poder estabelecidas na terra: homens que se acham senhores e proprietários de suas mulheres. E, para reafirmar a vida eterna pelos saduceus desacreditada, Jesus ainda retruca com um argumento do Livro do Êxodo (Ex 3,6), aceito pelos eles, citando o mesmo Moisés cuja autoridade haviam evocado: ao revelar-se a Moisés como Deus dos Patriarcas, Yahweh não se proclama deus de mortos, mas Deus dos vivos, dos que vivem para sempre, no mistério divino e na história de Israel (v. 26-27).

 Para dentro do Reino: a sabedoria

Novamente um “de fora”, que não é discípulo, interpela Jesus: um escriba, alinhado aos fariseus e certamente satisfeito com a resposta de Jesus aos saduceus (v. 28), afinal a rivalidade entre eles era histórica. Sua pergunta é tipicamente farisaica, quase recordando uma escola de rabinos: Qual o maior de todos os mandamentos? Jesus responde citando o Shemá Israel, “Escuta, Israel” (Dt 6,4-5), o primeiro mandamento do decálogo, quase uma profissão de fé judaica, recitado por todo judeu piedoso várias vezes por dia (v. 29-30). Mas adiciona um “segundo mandamento”, justapondo o amor a Deus e o amor ao próximo (v. 31 – cf. Lv 19,18; Dt 4,35). Nisso se resume, segundo Jesus, toda a Tradição de Israel e a Escritura. O escriba concorda, inclusive reconhecendo que observar esses dois mandamentos, agora feitos um só, supera os sacrifícios de expiação dos pecados. Ou seja, a prática do amor é o verdadeiro culto que se presta a Deus (v. 32-33). E esse “de fora”, segundo admite Jesus, “não está longe do Reino de Deus” (v. 34).

Por fim, Mc nos diz que “ninguém tinha coragem de fazer mais perguntas a Jesus”. Ou seja, suas respostas eram tão cheias de “autoridade” que, mesmo após muitas tentativas, as supostas “autoridades” não conseguiram seu perverso objetivo: surpreender Jesus em algum ensinamento incorreto.

Para fora do Reino: a exploração

A simpatia pelo escriba, no entanto, não impede que Jesus faça a eles algumas críticas. Em primeiro lugar, enganam-se ao ensinar que o Messias é “filho de Davi” (v. 35-37). Não pode sê-lo, por duas razões: o Messias é maior do que Davi; e ele mesmo, Jesus, é o Messias “inesperado”, que não se alinha à esperança daqueles que aguardavam um Messias Rei, ao modo de Davi. O argumento de Jesus é interessante, pois retoma o Sl 110, atribuído a Davi, para ilustrar que ele mesmo chama o Messias de “Senhor” (e Mc atribui essa sabedoria de Davi ao Espírito Santo, atuante em Israel desde sempre). Apesar de Jesus ser da tribo de Davi, ou seja, “filho de Davi”, não é por causa dessa filiação que é Messias, mas porque, como já afirmou Mc, ele é Filho de Deus, que faz a vontade do Pai e se põe em referência permanente a Ele. Os fariseus e os saduceus, cuja autoridade é legitimada por Roma (cf. Estudo 32) não são capazes de entender que a verdadeira autoridade do Messias não venha das instâncias humanas, mas do Pai a quem ele é fiel.

A segunda crítica de Jesus aos escribas se refere à sua posição notável no meio do povo – bem adequada ao tipo de Messias davídico que esperavam (v. 38-40). Não obstante serem respeitados e ocuparem lugares de honra nas orações, “devoram as casas das viúvas enquanto rezam” (v. 40), ou seja, exploram os pobres sob o pretexto de cumprirem um mandado de Deus. É o risco de toda autoridade religiosa, quando passa a esperar um Messias mais afeito ao poder do que ao serviço aos pequenos. Eles “serão julgados com mais rigor”, assegura Jesus. Como Lc também dirá: “a quem muito foi dado, muito será cobrado” (cf. Lc 12,48). A responsabilidade do sagrado é inseparável da atenção e diligência para com os mais pobres. O próprio escriba, interlocutor de Jesus, admitiu isso há pouco: não há melhor amor a Deus do que o amor zeloso para com o próximo.

Para dentro do Reino: a generosidade

Finalmente, Jesus se atenta a um gesto muito singelo, de alguém sem importância, mas que revela grande amor. Assentado diante do cofre do Templo (ontem e hoje, as instituições religiosas insistem em vincular o sagrado aos cofres), Jesus observa as polpudas ofertas dos ricos (v. 41). Mas, entre eles, quase despercebida, aproxima-se também uma “pobre viúva” e oferta uma mísera quantia (v. 42). Imediatamente, Jesus chama a atenção dos discípulos ao verdadeiro valor da oferta da viúva (v. 43). De fato, interessa a Deus aquilo que ofertamos da nossa própria pobreza, de nossa consciência de que nada no mundo nos pertence, a oferta de coração inteiro, de alma lavada, com confiança e generosidade (v. 44). No fundo, não interessa a aparente insignificância do que temos, mas a gratuidade com que ofertamos tudo o que somos. Fica clara a lição para os interlocutores de Jesus – saduceus, fariseus e escribas –, tão afeitos a suas posições sociais, ao privilégio e à significância que o ofício religioso lhes dá: para Deus, nada disso conta; vale somente a vida entregue em plena confiança e gratuidade.

* * *

Ninguém entra no Reino de uma vez por todas. Há sempre caminhos que nos levam para dentro ou para fora dele, todos ao alcance de nossos pés. Precisamos, pois, manter os olhos no Mestre, para dele aprender. Quem sabe, compreendendo “quem ele é”, compreendamos também melhor o Reino ao qual Ele nos chama.


Estudo anterior:  32. A César e a Deus (Mc 11,27 – 12,17)
Próximo estudo:  34. Promessa de Novo Tempo (Mc 13,1-13)
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