A ressurreição da carne

A fé na ressurreição dos mortos constitui um dos fundamentos de nossa esperança, sem o qual nossa adesão a Cristo perderia consistência. Sua fundamentação bíblica é mais que evidente: “Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Mas se Cristo não ressuscitou, então nossa pregação é vazia, vazia também é vossa fé. Somos afinal falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que Ele ressuscitou a Cristo, quando na verdade Ele não o ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam” (1Cor 15,13-15). O apóstolo é incisivo: “Se é somente para esta vida que esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos” (1Cor 15,19). Mas como entender a ressurreição dos mortos? O como da ressurreição é assunto polêmico, embora haja consenso sobre o essencial.

A antropologia dualista, que separa corpo e alma, se distancia da visão bíblica de ser humano e gera uma concepção superficial da ressurreição. A crença na salvação da “alma”, separada do corpo, leva a erros grosseiros. O corpo seria apenas habitação provisória da alma, que o deixaria no momento da morte. A ressurreição de Jesus, no entanto, nos revela que a totalidade de seu ser, de sua pessoa, foi recriada por Deus no Espírito. O mesmo se dará conosco. Se só a alma ressuscitasse, a corporeidade do ser humano, que constitui sua identidade, perderia seu valor. A história se tornaria teatro inútil, sem ligação real com a transcendência. Ressurreição da carne significa simplesmente ressurreição do ser humano, da pessoa em sua essência e sua história de amadurecimento nesta vida.

Na linguagem bíblica, carne diz respeito à humanidade. “Toda carne verá a salvação de Deus” (Lc 3,6). O termo alma entrou para a teologia através da filosofia grega, mas no cristianismo adquiriu novo significado. A originalidade do ser humano se encontra na sua abertura à transcendência, por isto ele é alma, ou seja, sua vida não se reduz à dimensão físico-biológica, mas a transcende, projetando-o para a eternidade. Mas ele também é corpo, ou seja, um ser histórico, temporal, que participa da materialidade do mundo. Enquanto interlocutor de Deus, sua vida se destina à comunhão definitiva com Deus e não cessa com a morte.

O apóstolo Paulo não fala da ressurreição da alma, mas do corpo: “É preciso que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade e que este corpo mortal se revista de imortalidade” (1Cor 15,53). O corpo, que na história se caracteriza por uma porção de matéria fisicamente definível, se transformará em uma realidade nova, que se situa para além de sua materialidade. Corpo designa a totalidade do ser humano, não apenas sua materialidade.  A pessoa é ressuscitada por Deus, não seu organismo biológico, afinal “o que é corruptível não pode herdar a incorruptibilidade” (1Cor 15,50). A ressurreição da carne que professamos no Credo postula que o ser humano será transformado desde a sua identidade mais profunda, o que necessariamente inclui sua corporeidade, a partir da qual se comunica com Deus e com as pessoas. A fórmula maior do Credo afirma essa convicção de maneira mais simples: “espero a ressurreição dos mortos”. A opção pela palavra carne se deve a uma visão filosófica que desprezava o corpo e afirmava a primazia da alma sobre o corpo, o que se mostra contrário à visão cristã do corpo.

 

A vida eterna               

O destino do ser humano se encontra na plena comunhão com Deus Pai e com os irmãos. Filiação e fraternidade, que caracterizam a existência cristã, apontam para a eternidade, que não é outra vida, mas a vida de comunhão histórica com Deus e com os irmãos em sua dimensão de plenitude.  A entrega do cristão ao Pai pelo Filho no Espírito e aos irmãos se consumará na morte, que tornará definitiva a comunhão com Deus. Se o batismo configura o ser humano a Cristo no seu mistério pascal, tornando-o filho de Deus por graça do Espírito, só na morte o batismo alcançarão seu efeito total. Os cristãos, desde o batismo, estão em Cristo pelo Espírito, mas seu encontro com Cristo se encontra, ainda, no futuro, porque eles o reencontrarão no momento da morte. Santo Inácio de Antioquia, a caminho do martírio, afirmava: “Aproxima-me o meu renascimento (…). Deixem que eu receba a pura luz, quando eu tiver chegado lá, serei verdadeiramente homem”. Inácio constata que sua humanidade se consumará no seu encontro definitivo com Cristo, só então o Espírito terminará de configurá-lo a Cristo, o homem cabal, imagem do próprio Deus.

Para São Paulo, os cristãos vivem uma tensão escatológica, ou seja, sua existência se dá na história e, ao mesmo tempo, se projeta para o futuro da comunhão com Deus. Eles vivem a vida de Cristo (cf. Gl 2,20; Fl 1,21; Cl 3,4) e participam de sua ressurreição (cf. Cl 2,12; Ef 2,5.6), porém essa sua nova vida (cf. Rm 6, 4.11) se encontra ainda num corpo mortal (cf. Rm 8,11), permanece escondida com Cristo em Deus (cf. Cl 3,3-4). Estão em Cristo e Cristo está neles (cf. Rm 8, 1.10; 2 Cor 13,5), foram introduzidos com Cristo nas esferas celestes (cf. Ef 2,5.6; Cl 3,1), porém estão ainda num exílio longe do Senhor (cf. 2 Cor 5,6), desejando estar junto dele (cf. 2 Cor 5,8; Fl 1,23; 1Ts 4,17). Estão já redimidos, porque foram liberados do poder das trevas e transferidos para o Reino do Filho (cf. Cl 1,13-14; Tt 2,14), porém o dia da redenção e a plena libertação estão projetados para o futuro (cf. Ef 4,30; Rm 8,23). Sentem-se salvos em razão do que foi realizado neles, porém têm que se dizer salvos em esperança (cf. Rm 8,24; Fl 3,20; Tt 3,6.7), e precisam caminhar na fidelidade comprometida com a esperança (cf. Rm 5,3-4). O apóstolo está convencido de que a existência cristã culmina na comunhão imediata com Cristo. Ele mesmo carrega esta esperança. Se por um lado não foge das exigências e fadigas da missão, por outro não esconde “o desejo de morrer e estar com Cristo”, o que lhe parece muito melhor, apesar de preferir continuar vivendo porque “é mais necessário para vosso bem” (cf. Fl 1,23-14).

Através da morte, o cristão entra definitivamente no mistério pascal Cristo. Ele permanece unido a Cristo na sua oferta ao Pai pelo Espírito.  “No céu, os homens têm sua morada no Cristo que habita a Trindade, nele eles vivem do Pai no Espírito Santo. O céu é, ao mesmo tempo, crístico e trinitário” (DURRWELL). A Trindade acolhe no seu próprio mistério de amor aqueles que responderam com amor à sua oferta de comunhão e presença. “O amor jamais passará” (cf. 1Cor 13,8). A participação no mistério eterno do amor se traduz numa suprema alegria, que ultrapassa todas as alegrias terrenas, uma vez que realizamos o próprio sentido da nossa vida: amar para sempre a Deus e aos irmãos. Na comunhão com a Trindade, o amor eterno que nos criou por amor e para amar, se encontra o sentido pleno de nossa existência. O céu é também a consumação do Reino de Deus que Jesus inaugurou: paz, justiça, liberdade, fraternidade. A ressurreição de Jesus, vítima inocente, expressa não somente o poder de Deus sobre a morte, mas o poder de Deus sobre a injustiça que faz vítimas, e manifesta a realidade de Deus, que toma partido pelos crucificados da história. Por isso o céu significa a vitória das vítimas inocentes. Mas o céu é o que Deus quer para todos: “ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (cf. 1Tm 2,4). Participar da comunhão com Deus e os irmãos exige conversão sincera e aceitação da lógica de Deus, lógica do amor, da bondade e da misericórdia. Essa é a fé que professamos no Credo e que acolhemos como graça. Amém!


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