(Meditação a partir de 1Rs 19,1-21)

Pelo deserto, calejar os pés, abrasar os ombros, suar as tristezas de não encontrar lugar. Fugir da morte que espreita, salvaguardar o restolho de vida, a que vai desanimando. Um dia pelo deserto, um minuto que seja… Como é suficiente o pouco para arruinar uma jornada, para que o medo afaste o amor, para que a poeira quente que os pés pisaram tenham queimado a perseverança. Deserto é também dentro da gente.

Encontrar, de repente, um zimbro. Sob a sombra do zimbro, deixar repousar tudo. Após o deserto, a sombra sob a qual se quer morrer.

– Alivia os cansaços de existir, ó vida! Deixa partir o que não encontra lugar nem sob a sombra nem sob o sol.

O que porei aos pés dessa árvore? O que já foi por tempo demasiado, por extenuantes caminhos, cozido pelo sol e, agora, reclama sombra e repouso. Depois de fugir da morte, de fugir… desistir. Desistir da fuga, desistir do controle, de tentar. Não resistir à vontade de desistir de querer dobrar tudo, alinhando as costuras… E dormir. Dormir o sono da desistência, pois sonhar acordado nem sempre é fácil.

Acordar tocado pela vida. Os pães sobre a brasa, a botija cheia… Ninguém pode passar sem cuidados. Ninguém conseguirá passar sem cuidados… Sem algum anjo, nalgum lugar, que rodeando o zimbro, discretamente, venha servir para aliviar os cansaços e as tristezas, um pedaço de pão, um pouco de água… Sem aquele toque suave, sem aquele “levante-se, coma e continue o caminho”, o que se tornaria a vida senão desistir sob o zimbro, senão morrer mesmo vivo?

É preciso ter rasgado o pão com que a vida mesma se dá e é preciso tê-lo comido, antes de avançar deserto adentro, para que a esperança seja também saudade e a saudade também seja força para os pés cansados. É preciso ter bebido a água com que a vida se dá, para enfrentar quarenta dias de deserto. É preciso, sobretudo, avançar com coragem, depois de ter desistido. Assim, porque depois de toda soltura, é possível um laço; depois de toda desistência, é possível um pôr-se de pé e a caminho; depois de todo fim, é possível um novo início.

A terapêutica do zimbro: chorar tudo, queixar-se de tudo, debater-se sopesado pelos cansaços, dormir o sono da desistência, acordar revigorado, pôr-se de novo a peregrinar. Mais vivo, mais forte, depois de ter se alimentado dos dons que nos ladeiam, mas não percebemos. Dons da terra que somos, presentes do céu que nos habita.

Ir, então, à busca do Mistério. À cata de seus vestígios. Pelos desertos, procurá-lo. Pelos vales, pelas vegetações abundantes, aonde quer que seja… Subir montanhas, ou penetrar as mais fundas cavernas. Abrigar-se um pouco sob a sombra das grutas, depois de ter deixado escapar o Mistério-que-foge. Descansar mais um pouco, ao invés de desistir. E o Mistério mesmo se dará, travesso. Virá o vento. Encarar o vento forte. Virá o terremoto. Resistir ao terremoto poderoso. Virá o fogo. Suportar o fogo ardente de pôr-se face-a-face com o Mistério-de-viver, Aquele que não aparece na força do vento, nem sacode as pedras e as penhas, nem queima tudo com suas chamas, mas aquele que se dá suave como uma voz, uma voz que nos provoca e nos lança para a verdade de nós mesmos. Uma voz que pergunta: “Que fazes aqui?”

Que fazes aqui, ou ali, ou acolá, ou por onde fores; alhures ou algures? Aqui onde se põem os pés do seu coração, onde se depositam seus sonhos, que fazes?Fazer não é tudo. Fazer tudo não é possível. É preciso mais do que fazer, é preciso ser fiel ao próprio coração. Podemos estar onde já não está mais nosso coração; podemos ter caminhado por longos caminhos, sem que quisesse nosso coração; podemos ter multiplicado os zimbros para dar conta de desertos que não tínhamos que singrar…

Talvez seja preciso voltar também, com os pés da memória, para aquele lugar de onde partimos; avaliar as rotas, considerar reorientá-las e, especialmente, recordar o que nos trouxe até aqui, para que saibamos as (des)razões de prosseguir.


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