No texto anterior, tratamos da compreensão da bíblia como Palavra de Deus, mostrando que ela não é um ditado de Deus, mas o resultado da experiência de fé de um povo. Por meio desses relatos, o Deus da vida que se manifestou ao povo que a escreveu também se comunica conosco e entra em relação com a gente. Ora, então a bíblia deve ser lida com muito cuidado. Não basta pegar os textos e sair dizendo que tem que ser assim ou assado porque está na bíblia. Vejamos por meio de exemplos alguns cuidados na hora de lê-la.

  1. Não pegar os textos ao pé da letra. Exemplo: Quando a Bíblia diz em Mc 1,33 que “toda a cidade se ajuntou à porta da casa onde Jesus se encontrava”, Marcos não quer dizer que todo mundo de Cafarnaum saiu de casa para ir onde Jesus estava. Isso seria impossível. Marcos só quer dizer que Jesus atraía muita gente por causa de sua palavra e de suas obras maravilhosas. Jesus despertava a curiosidade de muita gente e elas queriam ver Jesus e saber quem ele é. A gente usa expressões assim também, com o mesmo sentido. Por exemplo: todo mundo veio à catequese; todo mundo foi à festa. Outro exemplo. O Evangelho de Mateus diz que, se nossa mão é motivo de queda para nós, devemos cortá-la. A Igreja entendeu desde o começo que ninguém deve se mutilar porque cometeu um pecado. O que o texto quer dizer é que a gente deve evitar ocasiões que favoreçam pecar. Cortar as ocasiões de pecado e não partes do nosso corpo.
  2. Não tirar o texto de seu contexto. Exemplo: Quando o Livro do Gênesis diz que Abraão quase sacrificou seu filho Isaac para agradar a Deus, é fundamental lembrar que Abraão estava antes num contexto de politeísmo, onde cada pessoa, para agradar aos deuses do paganismo, ofertava a eles vários sacrifícios, inclusive sacrifícios humanos, da vida de seus próprios filhos. Em nosso contexto, isso soa muito estranho, porque nós já entendemos coisas que Abraão ainda não tinha entendido. Se a gente tirar a narrativa do contexto, vai pensar que Abraão é doido ou que Deus é cruel e mau, pedindo a um pai que mate seu próprio filho. O que para nós parece uma loucura já foi, em tempos passados, um costume, que o povo de Deus aprendeu a superar. Outro exemplo. Quando a Primeira Carta de Pedro diz que as mulheres devem ser submissas a seus maridos (cf. 1Pd 3,1), é preciso lembrar que a mulher era, naquele tempo, considerada uma propriedade do marido. Ele podia dispor dela como de uma ovelha ou de um campo. Podia mandá-la embora, podia desprezá-la, podia inclusive corrigi-la com violência. Esses eram os costumes e as regras sociais daquele tempo. Se a mulher não se subordinasse sabiamente a seu marido, podia ir parar nas ruas, sem emprego, sem apoio, sem nenhuma instituição para defendê-la. As mulheres não podiam trabalhar fora como hoje, nem tinham direito a pensão de marido, nem a parte dos bens do matrimônio. Nada! Para não passar fome, uma mulher repudiada mendigava ou se prostituía. Isso era muito comum. Então, na comunidade cristã, havia uma preocupação com as mulheres. Para que elas não chegassem a essa situação tão complicada, elas deviam se lembrar de que as leis favoreciam os homens. Logo, deveriam agir com sabedoria e não enfrentar os maridos cara a cara. Era preciso agir com prudência. Então, a submissão não era uma atitude de acomodação e preguiça. Era uma estratégia para sobreviver, um jeito sábio de enfrentar a vida matrimonial naquele tempo. Com jeitinho, as mulheres conseguiriam mais coisas do que com brigas inúteis com seus maridos. Mas os tempos mudaram, é claro, e hoje os costumes sociais e até as leis são muito diferentes. Prudência continua sendo importante, mas a mulher não tem de ser mais submissa ao seu marido. Ela é vista hoje como uma companheira, que deve ser amada e respeitada. Isso tem que ser levado em conta quando lemos a Bíblia.
  3. Não entender a Bíblia como um livro de história ou ciência. Exemplo, a Bíblia diz que Deus criou o mundo em sete dias. E descreve isso em detalhes. Será que ele criou o mundo igualzinho está ali narrado? Mas a Bíblia não é um livro de ciência; nem o escritor do Gênesis um cientista. A bíblia é um livro religioso e o escritor é um teólogo popular, uma pessoa de fé. Então, o que o Gênesis diz não é como o mundo foi criado. Isso não interessa ao povo da bíblia. O Gênesis diz que a vida vem de Deus, que nós somos queridos de Deus a tal ponto que ele primeiro fez surgir o mundo lindo para depois fazer a vida humana brotar nele. Se o mundo demorou milhões de anos para chegar a ser o que ele é, se a vida brotou em um dia ou em milhões de anos, tanto faz. Se ela surgiu pronta ou se foi evoluindo, isso é coisa para cientista pesquisar. Mas que ela é dom de Deus, disso nem o escritor do texto nem nós que cremos temos dúvida, não importa como ela se deu: ela é um milagre do amor de Deus. Mas quem pensar que a Bíblia quer repassar informações científicas vai ficar perdido com essas informações. Hoje, imaginar um mundo feito em sete dias parece irracional. E é mesmo. Criar em sete dias, para o escritor sagrado, significa criar com carinho, de modo organizado e com a máxima perfeição. Essa é a mensagem de fé do texto. Outro exemplo. A Bíblia fala, no Salmo 19/18, que o sol se levanta de manhã e percorre o céu em volta da terra (cf. Sl 19/18,5-7). Ora, o que o escritor sabia de astronomia naquele tempo não lhe permitia afirmar senão aquilo que ele via: o sol no nascente, de manhã; o sol no poente, de tarde. Olhando assim, parecia mesmo que o sol andou e mudou de lugar, girando em volta da Terra. Mas os cientistas, muito tempo depois, inventaram aparelhos, observaram os astros e viram que a Terra é que se move em torno do sol e não o sol em torno da Terra. A Bíblia está errada? Bom, cientificamente sim, mas isso não importa. O escritor do salmo é um músico, um poeta, e não um cientista ou astrônomo. Ele está fazendo uma canção sobre a natureza e louvando a Deus por isso. Só isso! E Deus deve mesmo ser louvado por tudo de belo que há. Nisso o autor do salmo tem razão! Mas não tem razão quando diz que o sol gira em torno da Terra. Só que essa descoberta foi feita muito depois que o salmo já tinha sido escrito. Ao escrever, o escritor lida com os conhecimentos de seu tempo. Em outro texto se diz que o sol parou (cf. Js 10,12-15) e ficou parado por um dia inteiro. Ora, hoje sabemos que o sol não para jamais. O autor, com os conhecimentos precários da astronomia de seu tempo, usou um recurso de expressão para falar do poder de Deus que abençoava assim as conquistas de seu povo.
  4. Não ler a bíblia desconsiderando sua compreensão e acolhida ao longo da história da Igreja. Em outras palavras, devemos olhar com atenção como a Igreja interpreta e entende certos textos mais complexos. A experiência e a orientação da Igreja nos ajudam muito. Por exemplo, a bíblia diz, no livro do Levítico (cf. Lv 11,1-8) que não se deve comer carne de porco, entre outros animais, porque ele é um animal impuro. Ora, a Igreja desde o começo entendeu que esse era um costume do povo judaico, mas não uma lei de Deus. O povo, por questões culturais, não comia carne de certos animais, entre eles o porco. Mas hoje essas questões não fazem mais sentido. A Igreja percebeu logo que isso era uma questão cultural e não uma regra para a salvação humana.Outro exemplo. No começo do cristianismo, os cristãos vinham do judaísmo e os judeus tinham o hábito de circuncidar os meninos. Ora, logo no começo do cristianismo, o apóstolo Paulo entendeu que esse era um costume judaico e que, com a entrada de muita gente que vinha de outros povos, não era lógico impor o costume de um povo ao outro. Então, na Igreja ficou combinado que, se os judeus quisessem se circuncidar, tudo bem. Mas circuncidar os outros povos, não era preciso. Cada um deveria viver a fé, dentro de sua realidade cultural. Se esses textos e toda a bíblia forem entendidos fora de sua história de interpretação, muitas conclusões podem ser precipitadas e estranhas para nós. Por isso, a gente diz que a bíblia deve ser lida com o Magistério da Igreja, ou seja, com a Igreja que estuda a Bíblia e ensina a gente a lê-la com sabedoria. Desta forma, a gente evita equívocos extravagantes e até perigosos.
  5. Não tirar sorte com a bíblia. Estamos nos referindo ao costume de abrir a bíblia aleatoriamente e ler qualquer versículo, sem seu contexto, como se nele a gente fosse encontrar alguma mensagem mágica de Deus para nós; como se fôssemos descobrir o que Deus quer nos falar naquele exato momento. A bíblia é um livro especial, porque relata a vida de fé do povo. Mas ela não é um livro mágico. Não devemos agir com a bíblia como alguns fazem com cartas, búzios ou tarô. Ela não é um livro para se tirar sorte, como nas cartas. Então, os textos devem ser lidos ou no conjunto do que foi escrito (por exemplo, o Evangelho de Mateus todo, o livro do profeta Jonas, etc.) ou à medida que queremos rezar, meditar, estudar ou pesquisar um tema. Então abrimos a bíblia naquela passagem e lemos com amor, respeito e veneração. Refletimos, destrinchamos e pesquisamos o seu sentido. Mas abrir a bíblia ao acaso, como se fosse um ato mágico no qual Deus fala, é desaconselhado. Deus sempre fala quando escutamos com coração aberto a sua Palavra. Qualquer relato da bíblia está cheio de significado para nós. Não é preciso lançar a sorte com ela. Esse costume é tolo e perigoso, além de colocar na banalidade as coisas de Deus. Não é assim que Deus fala. Esse não é um costume da Igreja Católica. E, se somos Igreja, lemos a bíblia com a Igreja e como Igreja. Além disso, esse desejo de saber o que Deus quer me dizer nesse exato momento é pura fantasia e sinal de insegurança. Deus quer te dizer tudo o que está na bíblia em todos os momentos. E ele quer também que a gente saiba acolher os seus ensinamentos, com maturidade e segurança, tomando as nossas decisões com critério. Uma pessoa madura na fé saberá tomar suas decisões. E não vai ficar buscando em versículos aleatórios da bíblia algo como se fosse Deus lhe falando diretamente.

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