O Brasil há alguns anos era desacreditado de política. Como votar é obrigatório, então não tinha como fugir. Eleger sem responsabilidade certos candidatos era um costume, porque política era desinteressante e nada iria mudar mesmo. Mas, de repente, começamos a falar bastante de política. O interesse cresceu, mas em meio a um bombardeio de informações que não nos dá tempo para amadurecer nossas concepções. Talvez por isso, em matéria de política, ainda sejamos maniqueus. Maniqueísmo, à propósito, deve ser uma mania humana. Sempre acreditamos nessa luta polarizadas entre o bem e o mal. Nessa luta, inclusive, estamos sempre do lado do bem e queremos enfrentar o dark side da força.  Mas o ser humano é mais complexo.

A polarização política no Brasil é uma invenção. Mesmo sendo uma invenção não deixa de ser real. No entanto, fico pensando num cabo de guerra em que as forças em tensão talvez não saibam por que puxam o cabo, do lado em que se põem.

As convicções de ambos os lados são ideológicas. Ideologia é qualquer complexo de ideias, sejam de direita ou de esquerda, conservadoras ou progressistas. Ideologia virou, entretanto, ofensa contra as ideias que a gente não costuma aceitar. E, geralmente, onde não se sabe debater ideias, caminha-se para a detração do outro, para a ridicularização ou ofensa. Se não se sabe debater ideias, ofende-se o debatedor. Talvez por isso também os argumentos políticos no Brasil sejam tão chulos.  Mas as ideologias estão em defesa de quê? Os interesses é que preocupam.

A direita diz que as reformas em vigência pelo governo Temer perturbam os sindicatos. Por isso a CUT e os outros sindicatos chamaram a greve de hoje (28/04). Dizem que é para defender o “meliante” Lula que os grevistas vão às ruas. Esquecem-se, porém, que há sindicatos antes apoiadores do governo Temer envolvidos na greve. A esquerda, por sua vez, diz que as reformas atingem o trabalhador e tiram direitos conquistados depois de muito suor. Em quem acreditar? Podemos não saber, mas que é muito estranho alguns prefeitos identificados como “de direita” cortarem o ponto de funcionários que – por direito- vão à greve, isso é. Alguns aliados da direita dizem ser vagabundagem exercer o direito à insatisfação. Não seria isso uma espécie de narcisismo governamental em que não se pode protestar nem manifestar desagrado? Acaso as forças são mesmo iguais, já que temos a maior parte dos governos agora manifestadamente direitistas e uma TV hegemônica no país servindo ao propósito do governo Temer, sendo que fica explícita a opção que ela faz?! Por que antes a greve não era proibida e era um instrumento de cidadania e agora é criticada por cidadãos e desarticulada por governantes?

Essa polarização entre direta e esquerda, diga-se logo, é instrumento de poder. Colocar uns contra os outros, disseminar mentiras, distorcer verdades, manipular dados e informações parece uma tática para dividir opiniões, confundir, opor cidadãos, porque uma população desunida pode ser vencida com mais facilidade. Enquanto andamos acreditados de que estudar política, por exemplo, é doutrinação, os políticos sabem bem controlar as forças que os mantêm no lugar onde querem estar. E acreditem, não é pelo bem da nação. A polarização é uma mentira, porque há muitos interesses nos dois grupos que chamamos de direita e esquerda. Há muitos interesses pessoais envolvidos; há dinheiro envolvido! E a classe média baixa e alta, e também a classe alta pensam em quê na hora de assumir um lado do cabo de guerra? (E a gente sabe qual o lado que eles assumem). No que pensam, pois? No que a maior parte das pessoas pensam: em si mesmas. Que importa, por exemplo, a aposentadoria de milhares de brasileiros? Afinal, a expectativa de vida cresceu muito, isso se faz necessário, dirão os já aposentados. No fundo, só conseguem pensar com o próprio umbigo. É o narcisismo de sempre. Opiniões políticas não são, em muitos casos, fruto de uma reflexão ponderada; são críticas afetivas, são defesas pessoais, são mais matéria de psicanálise do que de sociologia. Somos obrigados, entrementes, a ouvir afirmações impulsivas pedindo a volta da ditadura e outros apelos que seriam engraçados, não fossem trágicos. Ora, a democracia é uma gaiola de ouro na qual pensamos estar livres, mas ainda é um dos melhores sistemas políticos para se viver. A nossa democracia, porém, tão jovem, ameaça soçobrar por causa da corrupção e da ambição pelo lucro. De novo, o problema é o dinheiro.

E para permanecer aí, nesse âmbito da economia, atestam que o problema do país é econômico. E a economia não é aqui tomada de forma macroestrutural, estamos falando da economia particular, a economia das famílias que sofrendo as agruras de uma crise globalizada, da oscilação das hegemonias político-econômicas internacionais e da corrupção no nosso país se viram cooptadas a crer que apenas um partido, que apenas uma gestão foi a responsável por quebrar o país. E que houve corrupção houve. E que os interesses de grandes empresas e dos grandes suplantaram a ideologia do Partido dos Trabalhadores no poder, isso aconteceu. Mas essa demonização exclusivista é típica de sociedades pouco evoluídas, mas também não passa de um fenômeno sociocultural há muito descortinado: o fenômeno do bode expiatório. Isso serviu demais aos “da direita” que satanizaram políticas públicas e prometendo um giro econômico – e dinheiro não gira equitativamente (equidade é diferente de igualdade) – fazem e fizeram o dinheiro girar em favor dos mais poderosos, dos próprios bolsos. Fizeram crer também que direito é na verdade fruto da conquista, do mérito e isso seria uma pérola se as oportunidades e possibilidades fossem bem distribuídas. Meritocracia nessa República é idiotice das mais qualificadas. Fizeram crer, sobretudo – e que trunfo! – que defender políticas públicas, ou os pobres, ou fazer qualquer discurso que tocasse nesse assunto, era comunismo. Vejo, até agora, gente muito intelectual dizendo que se queremos comunismo temos que procurar a Venezuela! Como? Aliás, será que sabem as diferenças entre comunismo, socialismo real e socialismo utópico?

Contudo, é preciso reconhecer que nessa polarização há mesmo uma verdade. Uma verdade reconhecidamente histórica: trata-se de uma luta desigual dos mais poderosos contra os mais fracos – a grande parcela da população. E, ainda que hoje falemos em extratos sociais mais mesclados ou nuançados, sempre haverá oprimidos e opressores. Como nos posicionar nessa guerra?

A Igreja Católica no Brasil fez uma opção. Preferiu o lado dos oprimidos. É a Igreja se metendo em política. Dirão e dizem contra ela que é uma opção colorida pela teologia da libertação, que é comunismo entre os padres e bispos. É muito intrigante ver os que defendiam com sangue na boca que é “melhor errar com a Igreja, do que acertar sem ela” indo contra o chamado dos bispos. Dizer que isso é coisa da era Francisco tem parecido uma saída inteligente, não fosse a “Gaudium et Spes” e a Doutrina Social da Igreja existirem antes dele, antes mesmo de Bento XVI, o papa que os conservadores elegeram para si, como se o pontífice estivesse a serviço deles. Aliás, essa disputa dentro da Igreja parece se perguntar até onde o Espírito Santo foi na Tradição: se até o papado anterior apenas, ou se veio sobre Francisco e continua falando. O problema não são as vestes ou o incenso aqui, essa questão tão fundamental que assola os católicos do mundo inteiro, mas a opção radical da Igreja, salientada inclusive pela Igreja Latino-americana: defender os mais fracos, os mais pobres. Ir contra isso é desgrudar-se da Tradição da Igreja sim. E é preciso uma vez mais recordar que isso não é comunismo, mas evangelho.

As inteligências enciclopédicas chegam a manipular os textos bíblicos numa hermenêutica tacanha para defender que “pobres sempre tereis entre vós”, repetindo Jesus. É diabólico usar Jesus contra Jesus. Citá-lo para anular sua defesa mais profunda; a defesa do ser humano que sofre, não é só irresponsável com a Tradição, mas também com as Sagradas Escrituras. Os conservadores dizem também que essa defesa é discursiva e hipócrita, inautêntica. Que os que defendem o pobre o fazem só com a boca, que são incoerentes. Ora, esse tipo de crítica é promover o mesmo julgamento de que não querem ser alvos: o julgamento do coração. Esse cabe a Deus mesmo. É verdade, porém, que a vida deve ser – e é – expressão do que se passa dentro. Não há como separar interior e exterior. Quanto a isso, todos têm que se converter. Eu disse todos! Contudo, a Palavra que falamos não é nossa! Ela é maior do que os próprios evangelizadores. Somos nós que temos que aceder a sua proposta, convertendo o coração, ao invés de reduzi-la à nossa mesquinhez.

É coerente a opção da Igreja. Esteja ela errada ou não na análise política, a questão aqui vai além dos partidarismos. Um governo que leva a cabo uma série de reformas sem a participação da parte mais interessada, inclusive se beneficiando disso pratica injustiça. Mesmo a política sendo representativa, vê-se que ela não está representado os interesses de boa parte da população e por isso deve ser freada. A pressa com que promovem todas essas reformas também deveria fazer pensar; parece que estão correndo contra o tempo. O modo como a fazem, sob benefícios políticos e econômicos também deveria escandalizar. Reformas que colocam pesados fardos nos ombros de muitos, enquanto poucos – os que promoveram as reformas – se beneficiam de tantas regalias é no mínimo cinismo.

De minha parte, acredito mesmo que estamos precisando de uma série de reformas; não essas, feitas à toque de caixa. Acredito ainda que a maior e a mais urgente delas é, sem dúvida, a Reforma Política. E para que essa aconteça, não são os Messias políticos que nos vão salvar. Eles existem e já existem mecanismos em vigor para corrigir e punir políticos corruptos, como bem o sabemos. Mas não duvidem que mesmo esses mecanismos são corruptíveis e manipuláveis. Que mesmo as delações premiadas, por exemplo, sejam também delações selecionadas; afinal quantos delatados não foram punidos ainda? É preciso não só fazer valer a cidadania em favor de uma cassação aos corruptos, mas também corrigir regalias e benefícios que os políticos possuem em desfavor de muitos. Uma dose de ceticismo aqui cai bem. Que ele seja direcionado, então, contra os governantes, que podendo a todo instante se corromper e defender apenas o próprio bolsos, precisam ser vigiados para atenderem àqueles por quem foram eleitos e, se preciso for, punidos. Ou a gente toma a ‘história’ nas mãos, ou ela permanecerá nos esmagando.


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