“Como o Pai me enviou, assim eu vos envio”: termina assim o Evangelho de João (Jo 20,21). Com essas palavras, o Ressuscitado encoraja seus discípulos a assumirem sua missão, levando sua boa nova a todo canto. Aquele que viveu anunciando o evangelho vai se tornar o evangelho que os seus seguidores vão anunciar. Os discípulos, desde então, atenderão o apelo do Nazareno e se tornarão suas testemunhas em todo o canto (cf At 1,8). Nasce assim a Igreja: cada pessoa que recebe a boa nova também a comunica a outros. O efeito multiplicar do anúncio faz com que as comunidades cresçam. O evangelho é acolhido como força que faz viver, e os renascidos em Cristo se congregam para partilhar, celebrar, fazer comunhão, servir uns aos outros na fé. Evangelizar se torna a missão primeira que os adeptos da fé cristã assumem para si.

Impelida por essa missão de proclamar o evangelho, a Igreja se constituiu e se difundiu no mundo inteiro. A novidade do mistério pascal era uma notícia tão boa que não podia ficar encarcerada nos limites estreitos do judaísmo. Ela – como um bom perfume – contagia os espaços, se espalha deixando rastros…

Evangelizar, no entanto, não é somente falar de Jesus e chamar à conversão os pecadores. Evangelizar é proporcionar a experiência do Deus de Jesus Cristo, que é amor. Essa experiência pode ser feita de diversas maneiras. A maneira mais usual e corriqueira é a adesão da boa nova por meio de sua proclamação, de seu anúncio explícito. Mas não é incomum também que alguns, mesmo sem falar nada, com gestos e presença de solidariedade, evangelizam mais do que outros com mil palavras. A experiência do encontro com Jesus Cristo é a experiência do amor que ressignifica a vida e lhe abre possibilidades de desabrochar. Esta é a missão da Igreja: comunicar a vida em Cristo.

Em diversos documentos do magistério, encontramos afirmada a missionariedade da Igreja. O Vaticano II, por exemplo, afirmou: “A Igreja peregrina é por sua natureza missionária. Pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai” (AG, 2). Qual é, pois, a missão do Filho senão unir a humanidade a Deus e, por essa comunhão, gerar vida plena? Qual a missão do Espírito senão nos fazer conhecer Jesus e nos levar a proclamá-lo como Senhor de nossas vidas? Ora, a Igreja vive para anunciar essa união com o Pai que se dá no Filho pela ação do Espírito.

Mas, ao contrário do poderia parecer, o anúncio não pode ser imposto, nem pode acontecer por meio de coerção e violência simbólica. O que a Igreja anuncia é uma boa notícia que faz viver e, por isso, não se coaduna com nenhum tipo de violência, pois a violência mata, destrói, aniquila… A boa nova que a Igreja anuncia é proposta. E como toda proposta pode ser aceita ou rejeitada. Para ser fiel aos ensinamentos de Jesus, a Igreja não pode impor sua fé, ainda que esteja convencida que ele se baseia na verdade que liberta. Maior que qualquer valor absoluto da verdade, está a verdade das consciências que exige liberdade em todo o processo religioso. Por isso, todo cuidado é pouco na tarefa missionária da Igreja. O amor verdadeiro é sempre respeitoso, gentil, bondoso, gerador de liberdade e de responsabilidade. A Igreja – e cada um de nós batizados, pois somos Igreja – anunciamos o evangelho pois acreditamos que sua acolhida transformou nossas vidas e nos fez viver com mais sentido. Mas esse sentido deve ser descoberto por cada um que acolhe a Palavra anunciada. Ao ser introduzida no mistério do amor de Deus em Cristo, a pessoa vai degustando pouco a pouco o sabor do evangelho. Ela mesma vai percebendo o que estraga esse sabor, o que o deteriora, e vai assim eliminando paulatinamente de sua vida o que não condiz com a palavra da vida. Lembremo-nos: A Igreja é missionária. Sua missão é levar ao mundo a boa nova de Jesus que faz viver. Tudo que gera vida é então missão da Igreja.


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