Eu quero viver! – grito alto e esganiçado, peito inflado, garganta arranhada, voz embargada, face enrubescida. – Contratem operários. Mandem fazer a argamassa, tragam os tijolos, pois, ergueremos juntos a torre da vida.

Debruçado sobre as plantas, fazendo os cálculos, comentando com os arquitetos, riscando papeis, comecei o serviço. Matemática aprazível; ajustar contas, casas decimais e por tudo milimetricamente no mapa. Torre admirável – queremos furar as nuvens, entrar no céu, erguer o pescoço acima dos montes. Isto é vida que valha.

Os operários tomam um café ao redor de mesas de carteado. Brincam, festejam e riem. Não há tempo a perder, penso eu, não há tempo. A vida está à frente e sempre à frente. É preciso domá-la com réguas e compassos, fazê-la reta e alta, profunda primeiro, consistente e bela. Isso é trabalho para artista, não para arquitetos e simples operários…

Planejo, planejo, planejo. Incansável como as manhãs. Pulo dos sonos como a presa que salta da boca do predador. Estou atento, vigilante. Desenho uma torre. Jogo fora. Desenho outra. Jogo fora. Desenho uma mais… E estou cansado! Os papéis não funcionam. A matemática não bate. Fecho os olhos e sonho…

Nos meus sonhos as nuvens vêm sorrateiras. Lá do alto eu contemplo o mundo; eu toco os anjos e me sinto um também. Visto-me com a noite estrelada e sou noite, ou dia, chuva ou sol. Sou as manhãs e o entardecer de cada jornada. Lá do alto, só lá do alto. Só quando chegar lá.

Um operário me acorda.

– Patrão. Vem cantar com a gente. Vem festar e dançar, beber e viver já. Que o amanhã, patrão, a gente não tem. Vem tocar a vida.

E me toca. Assustado levanto. A contiguidade do toque e da palavra eriçando minha pele. Tolo, penso eu. A vida é para depois. Sempre para depois. Depois da torre. Depois do fundamento. Depois da edificação. Não perder o sonho, que tolice: a argamassa, os tijolos… Ah, o cheiro de cimento. Ah, o cheiro de suor, de trabalho, sem descanso.

E vem outro operário junto com um arquiteto. Discutem algo, com cervejas na mão. Trazem uma taça para mim.

– Patrão, o trabalho é feroz, mas vamos beber e viver já, ver o sol nascer já e se pôr já. Que o amanhã vem. O amanhã está no papel, no mapa, na planta… Agora a gente descansa – diz o arquiteto.

– Malditos! – grito para todos que aturdidos param o canto e a festa. A noite ia vindo. – Chega de tanta imprudência. Sentinelas do instante! Cigarras cantadeiras: explodam com sua música! Trabalhem! Trabalhem firme!

E perfazendo a noite, e o dia seguinte, os trabalhadores obedeceram: ergueram a torre, edificaram-na tijolo por tijolo, enquanto eu gritava:

– Mais alta! Mais alta!

Desesperadamente, depois dos cansaços dos dias, os homens foram deixando o trabalho. Foram fugindo um a um, foram abandonando, desertando da missão. Desistir de furar o céu: imbecis… Dissidentes do amanhã. Néscios do instante. Serpentes lhes devorem, rãs ariscas e nojentas! Terminarei o serviço só. Só. Só…

Adormeço aos pés da meia torre. Não descanso. Acordo angustiado. O choro vem impertinente dizer-me que não poderei terminar sozinho. Que a torre, esse projeto, não terminará jamais. Os pássaros escutam meu choro e cantam, assoviam, alegres, desrespeitosos. O bem-te-vi cantarola feliz enquanto lambo a terra com a dor que me possui.

Queria ser um contemplador de horizontes, um criador de nuvens… Queria erguer-me do agora e ver atrás dos muros do tempo… Tolo.

Queria resolver a vida com a matemática. Agora resolvo que a matemática não vale para tudo. Nem os cálculos são sempre precisos. Nem bons planos serão sempre torres altas e fortes.

Que tolice: querer a torre da vida, mas jamais tocar a vida mesma. Pôr a vida nos planos, para jamais vivê-la de fato.

Eu quero derrubar essa meia torre. Eu quero largar esse desespero. Mas antes de possuir a torre, a torre me possuía…

Tolo! Eu queria ver o amanhã, mas da torre do agora. Assim eu não teria nem o hoje nem o amanhã e estaria defendido de viver – que é sempre tão perigoso. Porque ver o amanhã a partir do hoje é não o tocar. E já espiá-lo, com pressa e receio, é jeito tonto de esquecer o agora.

Os passantes riem de minha pretensa sabedoria, enquanto sento bêbado sob a sombra da meia construção… Não há vida ao redor dessa torre. Nem dentro de mim. Neguei tanto a vida e agora ela se me nega. Serei para sempre conhecido como o estúpido que quis construir uma torre, mas avaliou mal se tinha condições para tanto e que tendo sido imprevidente, deixou-a pela metade.

Mas que diabos. Tivesse vivido de verdade e nem esse sonho imbecil eu teria tido.


Conto anterior:    1. O sapo e o poeta

 

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