Neste trigésimo terceiro domingo do tempo comum, o penúltimo do ano litúrgico, continuamos a leitura do discurso escatológico de Jesus no Evangelho segundo Mateus. O texto de hoje compreende a chamada “parábola dos talentos”, Mt 25,14-30. Essa é uma das parábolas mais difíceis e complexas de Mateus, por isso, muito passível de distorção em sua interpretação. Nela, continua em evidência o tema  da vigilância, embora de maneira menos explícita que na parábola das dez virgens (cf. Mt 25,1-13), refletida no domingo passado.

Localizada entre a parábola das dez virgens e a cena do julgamento final, a parábola dos talentos tem um significado relevante em todo o Evangelho segundo Mateus e, portanto, seu ensinamento é de fundamental importância para o bem da comunidade cristã em todos os tempos. Certamente, a comunidade de Mateus vivia um momento de relaxamento e desânimo na vivência das bem-aventuranças, núcleo central da mensagem cristã. Ora, os cristãos esperavam um retorno imediato do Senhor e, como isso não acontecia, começavam a desanimar, abandonando a fé ou vivendo-a de modo superficial.

Com essa parábola, o evangelista quis animar aqueles cristãos, mostrando que o tempo de espera não é perdido; pelo contrário, é o tempo oportuno para a comunidade fazer crescer e multiplicar os dons que o Senhor lhe confiou. Assim, essa parábola assume um papel importante para os processos de discernimento dos cristãos a respeito da espera pelo Senhor, ensinando que a melhor maneira de esperá-lo é trabalhando para que o seu Reino se realize no cotidiano, fazendo render o amor, o talento por excelência, que foi confiado a cada um e cada uma na comunidade.

Olhemos, então, para a parábola: “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois, e ao terceiro, um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou” (vv. 14-15). Antes de tudo, recordemos que parábola é um gênero literário que apresenta uma mensagem por meio de comparação. É, portanto, com essa imagem apresentada que o evangelista compara a situação da sua comunidade em espera pelo retorno do Senhor. Embora o texto litúrgico empregue a palavra empregados, o correto seria servos, por corresponder com mais fidelidade ao termo grego “dúlos” usado pelo evangelista. O homem viaja, mas não se ausenta, pois continua presente, de modo implícito, nos bens confiados aos servos. Também o Senhor ressuscitado não se ausentou da comunidade; continua presente à medida em que seus servos são capazes de fazer o seu projeto se desenvolver, cultivando os dons que lhes foram confiados.

Embora distribuídos em quantidades diferenciadas, ninguém ficou desprovido de bens; cada um recebeu de acordo com a sua capacidade. Esse detalhe é importante para o evangelista. Se todos recebem, todos tem algo a partilhar, a plantar e fazer frutificar. A quantidade diferenciada de bens recebidos por cada um pode ser uma alusão à diversidade de dons e carismas existentes na comunidade. Os talentos não são emprestados, são entregues, verdadeiramente doados. Talento era uma medida de peso usada para pesar metais preciosos como ouro e prata; um talento equivalia a aproximadamente trinta quilos de ouro, o que correspondia a seis mil denários; um denário era o salário de um dia de trabalho braçal (cf. Mt 20,2). Assim, até mesmo aquele recebeu apenas um talento, ainda recebeu uma grande fortuna. Isso significa a benevolência e liberalidade do Senhor, bem como a perenidade dos bens que ele doa à comunidade.

Ao receber os talentos ou dons, cada um é livre para usá-los como quiser. A viagem do dono evoca a liberdade dada àqueles que receberam os talentos para usá-los. Como o dono não estava presente para vigiar os servos, eles poderiam multiplicar, extraviar ou apenas conservar os talentos recebidos. A parábola diz qual foi a atitude de cada um: “o que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que recebeu dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão” (vv. 16-18). Os dois primeiros servos trabalharam até duplicarem o que haviam recebido. Embora o texto não indique como eles fizeram isso, o certo é que não ficaram parados, nem tiveram medo. Foram ousados e criativos. O terceiro, simplesmente pensou na conservação; escondendo o talento, o conservou de modo íntegro e fiel.

A aparente ausência do Senhor  pode levar os membros da comunidade a diferentes posturas: para uns, é oportunidade de crescimento, para outros é motivo de medo e insegurança. A comunidade de Mateus vivia esse drama: o que fazer enquanto o Senhor não retorna? O evangelista aconselha que cada um desenvolva os dons recebidos, procurem multiplicar, transformando as realidades com amor e justiça. O Senhor nunca se ausentou; deixou seus dons como forma de continuar presente e operante. Desse modo, o convite à vigilância não visa um momento final específico, mas uma vida toda vigilante, praticando o amor e a justiça, ou seja, vivendo segundo a dinâmica das bem-aventuranças.

A liberdade de cada um no uso dos talentos não os isenta da responsabilidade, pelo contrário. Por isso, diz o texto que “depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com  os empregados” (v. 19). Ora, se os talentos entregues aos servos equivalem aos dons confiados aos membros da comunidade para a sua edificação, é justo que o Senhor se interesse pelo uso que cada um fez deles. Na comunidade não pode haver individualismo, indiferença nem omissão. Quem recebeu dons e não os fez frutificar, colocando-os a serviço dos demais, obviamente, não está apto a integrar a comunidade. É esse o sentido do acerto de contas mencionado na parábola. O Senhor quer saber o que fazemos com o seu evangelho a nós confiado. Quem multiplicou os talentos, gerou vida, edificou o Reino. Quem o manteve intacto como recebeu, foi omisso, cruzou os braços; na comunidade cristã, responsável pela edificação do Reino, não há espaço para pessoas assim.

Os servos que souberam colocar os dons a serviço da comunidade, multiplicando-os, ou seja, fazendo-os frutificar, são tratados, em tom de elogio, como “servo bom e fiel” (vv. 21-23). Embora o texto não descreva o que estes servos fizeram precisamente, o certo é que agiram, não ficaram acomodados. O Senhor quer que os dons confiados sejam usados em prol da justiça e do amor, tornando o mundo mais humanizado e parecido com o Reino. Não se trata de um convite ao acúmulo, o que seria contrário à lógica do Reino. É uma mensagem de esperança e perseverança, um convite a perder o medo e arriscar tudo, inclusive a vida, para que as sementes do Reino se multipliquem.

Ao contrário dos dois primeiros servos, o terceiro foi repreendido como “servo mau e preguiçoso” (v. 26). É interessante que o texto não menciona nenhuma ação malvada desse servo; pelo contrário, menciona sua precaução em não estragar o talento recebido, o que poderia render-lhe um reconhecimento de prudente. Ora, na lógica do Reino, lógica que a comunidade cristã deve assumir, não basta cometer delitos para ser tratado como mau: basta ser omisso, indiferente e medroso. Não basta não fazer o que é mal, basta deixar de fazer o bem para ficar fora da comunidade e, consequentemente, do Reino. O medo paralisa a comunidade e impede a instauração do Reino. De todos os medos, o mais perigoso é o medo de mudança. É esse medo que leva muitos grupos e movimentos a simplesmente conservarem rigidamente certas tradições, ignorando a ação criativa e constante do Espírito Santo.

Podemos, finalmente, identificar o sentido da vigilância nessa parábola: a autêntica vigilância não é espera passiva, mas é atitude, é serviço em prol do Reino, através da multiplicação dos dons confiados pelo Senhor à comunidade. Quem pensa apenas em conservar a doutrina, os costumes e tradições, trai a confiança depositada pelo Senhor. O Reino exige decisão, ousadia, criatividade e liberdade para o uso dos dons recebidos. Ser vigilante é, portanto, não ter medo de arriscar, é colocar-se a serviço da comunidade, expondo os dons recebidos, mesmo correndo riscos.

Uma vez que os talentos não foram confiados para serem conservados, mas para frutificarem, a atitude do dono é completamente compreensível: “tirar do que tem pouco para dar ao que tem muito” (v. 28). Ora, o que já tinha dez talentos, passando a onze, poderia fazer multiplicar cada vez mais, e quem mais ganharia com isso seria a comunidade, ou seja, o Reino. Com essa afirmação “a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas aquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado” (v. 29), o evangelho não propõe a perpetuação das desigualdades, mas acentuando a natureza da comunidade cristã: só pode participar dela quem produz e multiplica o que lhe foi confiado. Quem recebe o dom e o retém somente para si, não pode entrar em um projeto de vida comunitário como o Reino de Deus.

O destino final de quem se auto-excluiu da comunidade enfatiza a privação total de vida e amor: “choro e ranger de dentes” (v. 30). Essa expressão significa o grau máximo de desespero para um ser humano, equivalente a uma vida privada de sentido. Isso não é castigo, mas consequência. De fato, é sem sentido a vida de quem não vive a lógica das bem-aventuranças. Viver para si é um mal. No Reino, só vive quem sabe viver a serviço do bem de todos; só se vive assim com coragem e amor!


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