Perto de minha casa, havia uma banca de revistas. Todas as manhãs, antes mesmo do café, eu ia lá pegar os jornais do dia. Gostava de começar o dia bem informado.

O jornaleiro era uma triste figura. Estava sempre de mal com a vida, cuspindo fogo, como se fosse um dragão mal humorado. Ele me olhava com uma cara de profundo desgosto. Não havia nenhuma simpatia em suas atitudes. Ficava parecendo que para ele era extremamente penoso e desagradável vender-me os jornais.

Eu poderia ter ido comprar meus jornais em outro lugar. Mas não quis. Afinal, não havia outra banca perto de minha casa e eu decididamente não estava disposto a sacrificar-me por causa do mau humor do jornaleiro.

Continuei repetindo toda manhã o mesmo ritual. E ele repetia para mim sua cara fúnebre de enjoo matinal.

Um amigo, então, me questionou:

– Não sei por que razão você insiste em não se importar com o mau humor desse jornaleiro. Se fosse comigo, eu procuraria outra banca ou ao menos lhe diria umas boas verdades.

Ao que respondi:

– Que tenho eu a ver com o humor desse homem? Ele escolheu ficar mal humorado diante de mim. Isso, no entanto, não me leva a ficar mal humorado diante dele.

E continuei comprando lá os meus jornais. Tranquilamente.


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