CARMO, Solange Maria do. A Catequese no mundo atual. Crises, desafios e um novo paradigma para a catequese. São Paulo:Paulus, 2016. 260p. ISBN 978-85-349-4358-1.

Solange Maria do Carmo é graduada em Filosofia pela PUC-Minas e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (FAJE). Antes, havia se graduado em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Também na FAJE, concluiu em 2008 o mestrado em teologia bíblica, com a dissertação “Jesus, boa-nova universal de Deus: estudo bíblico-catequético de At 10,1-11,18”[1]. E o doutorado, em 2013, com a tese “Catequese num mundo pós-cristão: estudo do terceiro paradigma catequético formulado por Denis Villepelet”. Atualmente, leciona disciplinas nas áreas de bíblia e catequética no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA) e no Instituto Dom João Resende Costa, da PUC Minas, ambos em Belo Horizonte.

Embora o livro apresente substancialmente sua tese doutoral, a formação acadêmica da autora é apenas parte daquilo que o constitui. As inquietações que, em última instância, desembocam na obra nasceram da ação pastoral, especialmente na catequese, desenvolvida há mais de vinte anos, em diferentes dioceses no estado de Minas Gerais. Dito explicitamente nas primeiras linhas do prefácio (cf. p.11), isso se confirma ao longo de toda a obra, escrita numa linguagem mais reflexiva do que informativa, mais bela do que técnica, mais voltada à clareza pastoral do que aos chavões da academia – sem que isso lhe retire o rigor teórico e a precisão crítica. Por essa razão, este livro se ajunta a outros nove já publicados pela mesma autora e por Pe. Orione Silva, na ainda incompleta Coleção Catequese Permanente (Ed. Paulus). Nascida da urgência de uma pastoral qualificada e amadurecida pelo exame teológico, a obra se destina a catequistas, agentes de pastoral, ministros ordenados e todos quantos se deparem com os desafios contemporâneos da evangelização.

O itinerário teórico proposto pela obra aponta em duas direções. Por um lado, pretende-se demonstrar a falência dos paradigmas tradicionais da catequese católica, seja do “primeiro paradigma”[2], nascido na Contrarreforma e afirmado com seus catecismos, seja do “segundo paradigma”, nascido com a renovação catequética e implementado após o Concílio Vaticano II e, no Brasil, a partir da “Catequese Renovada” (1983). Por outro lado, propõe-se a investigar a viabilidade teológica e pastoral de um “terceiro paradigma”, apto a responder com o evangelho aos questionamentos que emergem numa sociedade cujos fundamentos já se situam para além da modernidade e num horizonte de sentido notadamente pós-cristão.

Para isso, a autora recorre à escola catequética do Instituto Católico de Paris, especialmente às obras do professor Denis Villepelet[3]. Outras janelas de diálogo teológico ou interdisciplinar se abrem, na medida das oportunidades propostas pelo catequeta francês. É significativo que o ponto de partida da reflexão, tanto de Villepelet quanto da autora, não seja o tom de desconfiança ou de condenação sumária da contemporaneidade, tão costumeiro nos círculos eclesiais. Toda a obra está marcada pelo esforço de primeiro compreender os valores que emergem da pós-modernidade[4] e melhor distinguir seus questionamentos mais radicais, para somente depois passar a um empreendimento teológico que lhe seja compreensível e credível.

Também para isso, entretanto, há um caminho prévio e necessário. Afinal, que olhar é lançado para o mundo, na tentativa de compreendê-lo? Que realizações e frustrações a catequese experimenta, a ponto de levantar questões acerca da validade e da pertinência de seus elementos constitutivos? Assim, a autora dedica o primeiro capítulo da obra à caracterização do problema: a verificável crise no sistema catequético da Igreja e as principais reflexões do magistério recente e da teologia catequética, mundo afora e no Brasil.

Depois, no segundo capítulo, caracterizam-se os paradigmas catequéticos presentes na Igreja, com seus elementos fundamentais: o sentido que a fides qua e a fides quae assumem em cada um deles, além dos campos sociológico, antropológico, teológico, pedagógico e eclesiológico nos quais cada paradigma se construiu. Os catecismos pós-tridentinos estrelam o primeiro paradigma, no qual a noção de revelação leva à identificação da fides quae com a doutrina da fé, as formulações dogmáticas. Nesse caso, a catequese pode ser dita teoderivada (dominada pela questão de Deus e do sentido de verdade) e se desenvolve dedutivamente, da fides quae à fides qua,por meio de uma pedagogia do ensino, numa Igreja compreendida como Corpo de Cristo, situada numa sociedade tradicional em que os indivíduos se veem como parceiros das instituições.

Um paradigma (também na catequese) não muda arbitrariamente, mas a partir das transformações operadas em seus elementos constitutivos. Por isso, a partir da razão iluminista e científica – e das sucessivas transformações que daí advieram – também o paradigma catequético da Igreja se viu obrigado a modificar-se. O Concílio Vaticano II foi o ponto culminante de construção de um novo cenário eclesial, além de uma nova concepção de revelação: não mais um texto, mas uma pessoa, Jesus Cristo. Assim, fides quae e fides qua assumiam necessária reciprocidade, uma vez que palavras e gestos constituíam um só corpo de revelação em Cristo. Por isso, o caminho catequético deveria começar pela realidade humana, agora santificada em Cristo que a assumiu plenamente.Postulava-se que, se a sociedade deixara de ser cristã com o processo crescente de secularização,o ser humano não, uma vez que trazia em si a abertura transcendental a Deus, em termos rahnerianos. Ou seja, a catequese partiria da atitude de crer, em direção à mensagem crida, da fides qua à fides quae, por meio de uma pedagogia indutiva do aprendizado.Essa catequese seria não mais teoderivada, mas cristoderivada, já que Jesus seria o companheiro histórico do ser humano no difícil caminho de crer. A sociedade tradicional dera lugar à sociedade evolutiva, marcada pela positividade do método científico. E o indivíduo, de parceiro, tornara-se sujeito histórico, militante das transformações sociais e políticas.

Aqui se situa a questão determinante da obra.Pois os elementos que circunscreviam o primeiro e o segundo paradigma entraram em crise: em muitos lugares já desapareceram ou estão em vias de desaparecimento. E essa ruína – não disponível à escolha da Igreja – leva à falência também os respectivos paradigmas catequéticos. Como, pois, em vista do mundo pós-moderno, formular acertadamente um paradigma catequético? Para responder a essa pergunta, a autora oferece um “rápido olhar sobre a pós-modernidade”, em suas principais transformações: a multirreferencialidade da vida, as modificações das relações humanas com o espaço e o tempo, a primazia da imagem sobre a palavra e o fracasso das militâncias sociais, substituídas pelo imperativo de construção da própria interioridade. Confrontadas com a fé cristã, essas mudanças podem significar oportunidade de anúncio genuíno do evangelho, impondo à catequese quatro desafios: a experiência da interioridade, o anúncio do querigma cristão que está para além do cumprimento formal das práticas religiosas, a transmissão da fé num momento de crise dos sistemas educativos tradicionais e a experiência comunitária como nicho do amor fraterno, inerente ao cristianismo.

Finalmente, no quarto capítulo da obra se expõe o terceiro paradigma catequético, reconhecendo seu processo de elaboração ainda em curso e advertindo quanto a certos deslocamentos necessários e obstáculos a serem vencidos. Isso porque a elaboração de um paradigma não implica apenas repropor as práticas, mas ressignificar os valores a partir dos quais as práticas são propostas. Ou ainda, não apenas recolocar as paredes, mas reposicionar os fundamentos. Assim, a fé cristã deixa de ser vista como força instituída de uma sociedade consolidadamente cristã, mas força instituinte ou de transformação no seio da multiplicidade. Do mesmo modo, o cristão deixa de se compreender como um exilado no mundo ou como militante de uma boa causa, para se reconhecer como presença no mundo, testemunha da própria fé. A catequese não se encontra mais como mantenedora de uma fé instituída, mas como autêntico anúncio do evangelho – mesmo àqueles já pretensamente iniciados. Epistemologicamente, urge superar três axiomas modernos aparentemente conclusivos: o princípio rahneriano da convergência (de que a experiência humana profunda conduzirá inexoravelmente à experiência de Deus), a pertença institucional como única forma de identidade cristã e a cristalização da pedagogia da aprendizagem (do segundo paradigma). Por fim, os conceitos de fides qua e fides quae são também reinterpretados para fundamentar o novo paradigma. Por fides qua compreende-se a experiência cristã de Deus como eterna iniciante, um eterno devir, pois o Deus de Jesus Cristo, pela ação do Espírito, não cessa de interpelar seus ouvintes dizendo-lhes uma palavra que faz viver.  E a fides quae, longe de conter primeiramente um ensino (doctrina), é o próprio mistério pascal de Jesus, vivo e eficaz, do qual se nutre a comunidade de fé e no qual se mergulha o catequizando. É o “meio” no qual se dá a experiência cristã de Deus, em toda a ambivalência da palavra “meio”: o ambiente no qual se realiza ou as mediações que a favorecem. O caminho catequético se delineia, então: da fides qua à fides qua, tendo como mediação a fides quae; ou seja, do encontro com Deus ao encontro com Deus, no mergulho no mistério pascal de Jesus. Certamente, a vida alcançada depois da experiência da fé será qualitativamente diferente da anterior. Mas, em sua incompletude e permanente iniciação, se colocará novamente à disposição dessa experiência. À luz desse itinerário, se reinterpretam os elementos constitutivos do paradigma: a sociedade que se pressupõe é complexa, multirreferenciada, constituída de indivíduos sujeitos da própria identidade e da narrativa da própria existência. A Igreja, nesse contexto, se reconhece como templo do Espírito, sinal da intimidade de Deus dada a nós, animada pela presença viva do Ressuscitado. A catequese, consequentemente, será pneumatoderivada, tendo como palco a organicidade da vida e centrada na ação do Espírito. Da inapropriação das pedagogias do ensino e da aprendizagem para transmitir a experiência da fé cristã, emerge a iniciação como pedagogia capaz de introduzir no mistério a ser experimentado. A liturgia, a catequese como encontro (não como aula), a oração e a fé como caminho de maturação ganham relevo especial.

O último capítulo avalia criticamente o terceiro paradigma, propondo e respondendo às principais questões que se levantariam. E, a partir desses questionamentos, aponta suas principais interpelações à prática catequética no Brasil hoje. A primeira delas é a possibilidade de uma catequese não sacramental, em que o itinerário do amadurecimento da fé tem autonomia e os sacramentos se põem não como fim do processo catequético, mas como passos no caminho. A segunda é o estado permanente da catequese, não mais restrita à preparação temporária e específica para os sacramentos. Afinal, o discipulado de Jesus é tarefa pendente de uma vida inteira. A terceira é o apelo querigmático e iniciático da catequese, centrada na experiência da fé cristã, força que faz viver e que se adquire à medida que se experimenta. Por fim, o caráter necessariamente aberto da catequese, livre da seriação escolar e disponível a todo cristão, em qualquer momento de seu caminho de fé.

“Catequese no mundo atual” é uma obra oportuna e relevante. Em primeiro lugar, porque traz à discussão teológica um tema que tem despertado grandes desafios pastorais. Tanto no coração das grandes cidades, quanto em realidades aparentemente mais isoladas e distantes, são sensíveis as transformações da pós-modernidade e suas implicações na constituição dos sujeitos. E, consequentemente, acumulam-se nas comunidades as evidências de insucesso dos paradigmas catequéticos anteriores: desinteresse, evasão, descrédito por um lado; ondas de moralismo, conservadorismo e fundamentalismo por outro. Nesse cenário, a obra demonstra a profundidade dessa crise e aponta que não se trata apenas de corrigir eventuais falhas das metodologias anteriores, mas de repropor todo o paradigma da catequese, considerando com fidelidade evangélica as urgências do tempo atual e os anseios do coração humano, dos homens e das mulheres de hoje.

Em segundo lugar, a obra inova em sua ponderada consideração da pós-modernidade. O discurso eclesial, por excesso de prudência institucional ou temor imobilizante, tende à condenação sumária das transformações sociais, políticas e morais da atualidade. Não raro, enaltece-se o passado com cores demasiado douradas, exaltando sua pretensa univocidade com os valores cristãos. Essa idealização do passado, construído com afinco, gera por vezes obstáculos epistemológicos para compreensão do presente. A obra descortina esses mecanismos e convida a reconhecer que o hoje é tão digno e tão capaz do evangelho quanto qualquer outro tempo. E, como todas as épocas, o presente possui valores a serem assimilados com reverência e ambiguidades a serem convertidas pelo evangelho, reconhecidamente força instituinte.

Por fim, ao desvencilhar o itinerário catequético da mera preparação para os sacramentos, devolvendo a ele a autonomia e a vivacidade de uma formação mais integral para a fé cristã, superam-se as tendências da catequese tradicional à pedagogia escolar, ao utilitarismo instrumentalizante, à simples doutrinação e à superficialidade. Ao mesmo tempo, os sacramentos recuperam, no seio desse itinerário, seu verdadeiro lugar de sinais visíveis e comunitários dos passos dados no seguimento de Jesus, em vez de mera formalidade na conclusão de um curso.

[1] Sua dissertação de mestrado foi publicada em 2014: CARMO, S. M. Jesus: Boa Nova Universal de Deus. Goiânia: Scala, 2014. 2v.

[2] Segundo a autora, o termo “paradigma” não advém da teologia ou catequese, mas da epistemologia e das ciências sociais. O significado que esse conceito assume na obra é especificado mais adiante (cf. p. 59ss). Refere-se, em poucas palavras, à organicidade e à coerência interna dos elementos que constituem um determinado modelo catequético, situado numa determinada eclesiologia, em diálogo com uma específica mundividência, caracterizado por certas práticas pedagógicas.

[3] No Brasil, há somente uma obra traduzida: VILLEPELET, Denis. O Futuro da Catequese. São Paulo: Paulinas, 2007.

[4] A autora não ignora as ambiguidades da expressão “pós-modernidade”, ao lado de tantas outras que se propõem para caracterizar a complexa totalidade dos fenômenos atuais, que terminam por perpassar todas as esferas da vida humana. Villepelet opta por essa expressão, seguido nessa escolha pela autora.


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