Resumo: Resenha do livro A catequese no mundo atual. Crises, desafios e um novo paradigma catequético, sobre o terceiro paradigma catequético do teólogo francês Denis Villepelet, elaborado desde os desafios postos pela pós-modernidade à iniciação cristã, mormente à catequese. A autora faz avaliação teológico-crítica do terceiro paradigma, mostrando sua plausibilidade e pertinência para o contexto brasileiro e latino-americano.

Palavras-chave: Catequese. Denis Villepelet. Pós-modernidade. Terceiro paradigma.

Solange Maria do Carmo é graduada em Enbenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Empenhada no serviço eclesial-catequético e evangelizador, buscou aprimorar sua formação filosófico-teológica, graduando-se em filosofia pela PUC-Minas e em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (FAJE), onde fez mestrado em teologia bíblica e se doutorou em teologia catequética. Atualmente é professora de teologia bíblica e catequese na PUC-Minas e no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), em Belo Horizonte. Seu livro sobre a teologia da catequese ora publicado pela Editora Paulus nasceu de sua pesquisa de doutorado em catequese, em que estuda criticamente o terceiro paradigma catequético do teólogo francês Denis Villepelet, mostrando sua pertinência e plausibilidade para o contexto da Igreja no Brasil e na América Latina.

No prefácio do livro, a A. nos situa no quadro do seu interesse pela catequese, nascido de uma longa prática pastoral em paróquias e dioceses onde trabalhou durante longos anos, ao lado de seu “amigo e irmão”, Pe. Orione, com catequistas, catequizandos e suas famílias. Sua longa imersão nesse trabalho lhe suscitou aguda percepção da crise da catequese, caracterizada pela inadequação da linguagem dos catequistas, pela excessiva preocupação em transmitir doutrina e preceitos morais, pela transformação da catequese em aula de religião, por sua vinculação quase obrigatória com a vida sacramental, por sua infantilização etc. A catequese perdera, enfim, seu caráter de iniciação à experiência cristã de Deus tornando-se mera transmissão escolar de conteúdos pouco atraentes para os catequizandos. A A. constata a defasagem dos paradigmas catequéticos, tanto do tridentino quanto do que foi assumido a partir do Concílio Vaticano II, chamado de catequese renovada. Sua pesquisa nasce, assim, da urgência de um novo paradigma, mais experiencial e menos doutrinal, mais iniciático e menos apologético.

Na introdução, a A. partilha com o leitor sua metodologia, batizada por ela de “metáfora da película cinematográfica ou de uma apresentação teatral” (p. 13), em que o teólogo estudado, Villepelet, se torna o protagonista e ocupa o centro do enredo. Tudo gira em torno da apresentação de seu paradigma catequético. Outros autores entram em cena para ajudar na composição do cenário histórico-teológico em que se passa a trama, cuja amplitude vai da Reforma Protestante aos nossos dias, do início da modernidade à pós-modernidade, cenário principal do enredo. A A. conduz a narrativa buscando responder à pergunta-chave de sua pesquisa:

Partindo do pressuposto de que os paradigmas catequéticos vigentes (Trento e renovação catequética) não respondem mais ao momento presente da sociedade e da Igreja, seria o terceiro paradigma catequético formulado por Denis Villepelet uma opção pastoralmente viável e teologicamente pertinente? (p. 14).

No primeiro capítulo, a A. nos introduz nos problemas atuais da catequese a partir do questionamento sobre a falência dos paradigmas vigentes de Trento e da renovação catequética. Seu questionamento parte da convicção de que tais paradigmas não respondem mais às demandas da pós-modernidade. Apresenta a crise do sistema catequético atual, ancorada na crise do processo tradicional de iniciação e transmissão da fé cristã. A A. faz um balanço geral da situação da catequese no Brasil e no mundo, levando em consideração posições do Magistério da Igreja e de vários teólogos que sistematizam a crise, buscando respostas possíveis a partir de propostas teológicas alternativas para a catequese no atual contexto. No cenário da plêiade de documentos e teologias da catequese, desponta Villepelet, cuja proposta será apresentada e criticamente estudada.

O segundo capítulo traz uma perspectiva histórica, apesar de o texto não ser propriamente uma análise histórico-teológica da catequese. A história emerge apenas para contextualizar os grandes paradigmas catequéticos, que cobrem um arco de vários séculos, do século XVI (Reforma e Contrarreforma-Concílio de Trento) ao século XX (Concílio Vaticano II). A catequese percorreu longo caminho para chegar até aqui. Pinceladas na história esclarecem decisões e perspectivas teológicas adotadas durante o percurso. Aqui a A. esclarece que Villepelet colhe o termo paradigma da filosofia e da sociologia. Para o autor, os paradigmas se constroem a partir de cinco campos do saber que se interagem: sociológico, antropológico, eclesiológico, teológico (catequético) e pedagógico. Esse esclarecimento preliminar se encontra na base do estudo sobre os paradigmas catequéticos.

Os dois paradigmas apresentados neste capítulo são o do Concílio de Trento e o do Vaticano II. O primeiro faz o caminho da fides quae à fides qua. Fortemente abalada pela Reforma Protestante, a Igreja Católica convoca o Concílio de Trento para reforçar e garantir a doutrina católica em contraposição às posições luteranas. A catequese posterior se concentrará na transmissão da doutrina católica, partindo do conteúdo da fé (fides quae) para chegar ao sujeito da fé ou à fé com a qual se crê (fides qua). O Vaticano I reage à modernidade e, mais uma vez, enrijece a doutrina. Seu conceito de revelação (Dei Filius) é mais propositivo (Deus revela verdades). A catequese desse contexto se define como teoderivada (Deus ensina verdades); a Igreja se compreende como “corpo de Cristo”, hierarquicamente instituído em torno do binômio sacerdócio (docente) – laicado (discente); numa sociedade tradicional o indivíduo se mostra parceiro da instituição e se define a partir dela. A pedagogia se resume no ensino da doutrina por parte do catequista, o mestre. Numa sociedade marcada pela pertença institucional e por visão estática do ser humano, a proposta atendeu às demandas da época, mas perdeu consistência com as profundas mudanças socioculturais da modernidade, às quais a Igreja reagiu muito negativamente.

O Concílio Vaticano II, à luz dos movimentos eclesiais de renovação que o precederam, busca fazer as pazes com a modernidade e gesta o paradigma da renovação catequética, invertendo, até certo ponto, a proposta tridentina: seu paradigma vai da fides qua à fides quae. Seu conceito de revelação (Dei Verbum) é mais comunicativo-dialogal (Deus revela ao ser humano o seu mistério numa relação dialógica). O segundo paradigma catequético parte das demandas modernas de emancipação, progresso, transformação social, democracia, justiça. O sujeito deixa de ser mero receptor de sentidos para se tornar ator social na construção de uma nova ordem histórica. O conteúdo da fé (fides quae) responde às demandas da situação socioeclesial do sujeito que crê (fides qua). A catequese leva em conta problemas sociais que busca iluminar com sua perspectiva mais socioeclesical. A catequese se caracteriza, nesse novo contexto, como cristoderivada, porque se fundamenta mais no Jesus histórico e na pregação do Reino de Deus (justiça, liberdade, paz, fraternidade). Acontece uma superação parcial do binônio sacerdócio-laicato, afinal, segundo o Vaticano II, todos os batizados são evangelizadores e a Igreja é povo de Deus que caminha rumo à libertação integral do ser humano. Numa sociedade evolutiva em constante transformação, o indivíduo se torna ator social. A pedagogia catequética se concentra na didática da aprendizagem; a realidade ilumina a aprendizagem que oferece dispositivos para a transformação da sociedade.

No terceiro capítulo, a A. se debruça sobre a pós-modernidade e os desafios que põe à catequese e à iniciação, elaborando questões cruciais na introdução do livro:

Houve mudanças significativas na gramática existencial do homem pós-moderno? Que mudanças são essas e quais seus influxos sobre a catequese? Como comunicar a fé ao homem pós-moderno? Que desafios específicos essa nova gramática traz para a catequese hoje, ainda pensada em termos de cristandade e, no máximo, de modernidade? […]. Fé cristã e pós-modernidade são incompatíveis? (p. 17).

A A. faz uma incursão na pós-modernidade à luz da perspectiva do teólogo francês, para quem essa se caracteriza como “terra incógnita”, na qual a subjetividade emerge como traço dominante, inclusive da religiosidade. Os meios de comunicação mudam as noções de espaço e tempo. A primazia da tela altera a realidade impondo a lógica do espetáculo e da fantasia momentânea. A sociedade deixa de ser conceito concreto para se transformar num emaranhado de relações psicológicas e afetivas. O sujeito não mais se vê como parceiro social e se torna artífice da sua própria história. A sociedade perde o seu substrato religioso-católico-cristão e passa a transmitir não a fé cristã, mas a liberdade em todos os sentidos. A fé agora precisa se expressar num contexto pós-cristão.

A A. mostra, porém, que o teólogo francês não vê a sociedade contemporânea como inimiga da fé cristã. A pós-modernidade não se tornou anticristã, apenas se fez indiferente às opções religiosas. Em todas as épocas, apareceram resistências à fé cristã. O cristianismo nasce numa situação de crise e essa se torna intrínseca a seu dinamismo na história. A fé vive mesmo “um estado de crise constitutivo” (p. 117), porque o cristão se opõe ao ódio, à violência, à injustiça. O cristão se vê obrigado a se desinstalar constantemente em nome de sua fé em Jesus Cristo. A palavra de Deus o interpela e desafia. Os tempos atuais não são menos dignos do evangelho, o qual continua em condições de oferecer sentido à vida das pessoas. A situação se revela desafiante, mas não desanimadora. Ao contrário, o momento atual exige novo impulso no qual a catequese ocupa lugar de destaque, pois está diretamente implicada no processo da transmissão da fé. Villepelet enumera os desafios postos à catequese pela pós-modernidade: o desafio da interioridade, o desafio querigmático, o desafio pedagógico e o desafio comunitário.

Os três primeiros capítulos são preâmbulo para o quarto, no qual a A. apresenta o paradigma de Villepelet. As questões antes levantadas aqui encontram sua resposta. O capítulo aborda os deslocamentos feitos e os obstáculos vencidos pelo teólogo para chegar a um novo paradigma da catequese, o terceiro, que supera os dois primeiros, apresentados no segundo capítulo. Perguntas emergem automaticamente na mente do leitor. Algumas estão formuladas na introdução: “Como se configura o terceiro paradigma? Que teologia, pedagogia, eclesiologia, e sociologia o sustentam?”. O deslocamento mais importante apresentado por Villepelet se encontra na passagem da fé instituída (da cristandade e modernidade) à fé instituinte (construída pela subjetividade). O cristão abandona sua postura passiva de mero receptor da doutrina imposta pela autoridade extrínseca (cristandade) e também sua postura de militância no processo de libertação sócio-política inspirada no evangelho (modernidade). Sua atuação sociotransformadora se fragiliza e suas demandas se tornam mais subjetivas e menos coletivas, mais afetivas e menos institucionais. Da militância, passa à simples presença no mundo.

Segundo a A., Villepelet enumera alguns obstáculos epistemológicos e conceituais a serem superados em vista da viabilidade pastoral e pertinência teológica do terceiro paradigma, que vai da fides qua a fides qua pela mediação da fides quae. Por obstáculo epistemológico se entendeuma conquista do pensar cuja grandeza dispensao sujeito de buscar novos caminhos. A valorização do conquistado gera um estado pernicioso de inércia que precisa ser superado ou a própria conquista alcançada fica comprometida.Os obstáculos conceituais dizem respeito à compreensão da fides quae e da fides qua, que ganham nova hermenêutica na teologia de Villepelet. A fides quae deixa de ser conteúdo (primeiro paradigma) e mensagem (segundo paradigma) para se tornar mediação ou ambiente favorável para o desenvolvimento da fides qua. Muito além de ser doutrina e mensagem, a fides quae se define agora como “a comunicação do próprio Deus em seu Filho, por ação de seu Espírito, que exige a marcha subjetiva da adesão” (p. 164). A fides quae ganha um caráter existencial: o mistério pascal no qual se é mergulhado; nela, a fides qua eclode, desabrocha, ganha consistência. A transmissão se centra na fé viva da Igreja transmitida ao longo de sua história, uma fé pascal e sempre dinâmica. A fides quae consiste em “um espaço de credibilidade desenvolvido pela práxis eclesial que possibilita uma experiência pascal de Deus em Jesus Cristo” (p. 165). A fides qua, por sua vez, se entende como uma atitude subjetiva de adesão à fé que nunca termina; é um devir contínuo porque o sujeito que crê está sempre sendo interpelado por Deus e sendo mergulhado no mistério de Deus que se revela pela ação de Cristo pelo Espírito.

O terceiro paradigma proposto por Villepelet vai da fides qua à fides qua pela mediação da fides quae. A fides qua curiosa, interrogante, desejosa segue sempre caminhando rumo a uma fides qua mais desejosa ainda, mais sedenta, num processo de iniciação que dura toda a vida. A A. mostra, enfim, que, para o teólogo francês, o terceiro paradigma condiz mais com a pós-modernidade complexa e subjetiva. A catequese se caracteriza como peneumatoderivada, porque parte da ação contínua do Espírito Santo na vida da Igreja e do mundo. O Espírito atualiza para os crentes o evangelho de Jesus e faz aderir a ele através das celebrações, ritos, serviços, festas, orações, encontros etc. A Igreja se compreende, nesse paradigma, como templo do Espírito, porque se trata de uma rede de inter-relações mediadas pelo Espírito Santo. A pedagogia catequética se resume na iniciação: mergulho no mistério pascal de Cristo, no qual o crente se banha num universo de significados que lhe impulsiona a viver um novo estilo de vida. A existência cristã se transforma numa estilística existencial, um modo de ser e viver a partir de Jesus Cristo. A própria liturgia passa a ser vivida como encontro com o Ressuscitado, lugar privilegiado da experiência do mistério pascal de Cristo. A catequese não mais se configura como aula, tampouco o catequista se vê como o professor diante do aluno. Ela se torna encontro com Deus por meio de sua Palavra e encontro com os irmãos num processo que provoca crescimento, amadurecimento e uma nova presença na sociedade, não mais de reclusão nos limites da Igreja ou de engajamento militante, mas de colaboração, de presença discreta e dialogal no meio de um mundo plural. Com sua presença, o cristão iniciado valoriza o que há de bom no mundo, recebe dele sua oferta generosa e lhe oferece discretamente sua contribuição, sempre em diálogo e com respeito.

No quinto capítulo, a A. faz uma reflexão crítica a respeito do terceiro paradigma – da fides qua a fides qua através do mergulho na fides quae–, avaliando sua plausibilidade e pertinência para nosso contexto, já muito marcado pela pós-modernidade. A A. mostra, com argumentos sólidos e equilibrados, que a catequese mistagógica e iniciática se revela um caminho possível, e necessário, para a catequese no Brasil, onde os dois primeiros paradigmas dão sinais de falência face às transformações recentes na configuração do religioso, que tem na subjetividade sua marca registrada. O mergulho dos catequistas e catequizandos no mistério pascal de Cristo desponta como caminho indispensável para a verdadeira experiência de Jesus Cristo. O terceiro paradigma responde especialmente ao desafio da interiorização e personalização do mistério cristão numa sociedade multirreferencial.Apresentar o catequista como professor, o catequizando como aluno e a catequese como aula pode até preparar para a primeira comunhão, mas essa será, provavelmente, a última comunhão, por falta de adesão pessoal à proposta dinâmica da fé motivada sempre pelo Espírito vivo de Cristo. A catequese precisa se apresentar, ela mesma, como experiência cristã. O que não significa abandono da doutrina, mas essa se configura muito mais como uma sabedoria a ser assimilada, um meio pelo qual se entra no mistério do que como um conceito a ser aprendido.

A A., ao estudar a catequese, aborda uma das questões mais cruciais para o cristianismo atual: o desafio da transmissão. Diagnósticos autorizados afirmam que a transmissão não pode se limitar a instruir sobre verdades, ritos e doutrina moral. A dimensão prático-existencial do cristianismo tem mais chances de atrair. O homem pós-moderno anseia experimentar e saborear o mistério de Deus. Sem renunciar ao dogma, a proposta cristã precisa levar o homem pós-moderno, sedento de sentido, a encontrar em Jesus Cristo e no seu evangelho significado global para sua existência. A proposta da A. para a catequese poderia, assim, ser ampliada para a pastoral da Igreja. A iniciação ao mistério de Jesus se revela um dos maiores desafios para a pastoral e a A. conseguiu nos brindar com um belíssimo livro que oferece pistas e possíveis saídas para a crise atual da fé. O livro se destina, primeiramente, a teólogos, estudantes de teologia, presbíteros, agentes de pastoral com alguma formação teológica. Embora escrito numa linguagem fluente que prende a atenção do leitor do início ao fim, o livro traz reflexões que exigem introdução à teologia. Por outro lado, dada sua clareza e a leveza de sua linguagem, catequistas interessados serão capazes de compreender muitos aspectos da proposta feita. Nesse sentido, o livro se presta a estudos para agentes de pastorais e catequistas. E, mesmo fora do contexto da catequese, a riqueza teológica do livro o torna excelente leitura para quem deseja pensar o cristianismo em diálogo com a pós-modernidade. 


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