A pedagogia da aprendizagem, carro-chefe da renovação catequética, trouxe muita conquista para a catequese. Só o fato de ter tratado o catequizando como parte integrante do processo catequético e de ter compreendido que a verdade não é algo pronto, mas depende do lugar teológico no qual ela se desenvolve, já foi grande coisa. Mas, apesar de toda conquista, a pedagogia da aprendizagem ainda trabalhou muito dentro do campo cognitivo do destinatário da catequese, valorizou muito a elaboração do conhecimento da fé, da mensagem cristã e procurou explicar as verdades professadas, como se a fé nascesse no entendimento e não no encontro de duas pessoas: Deus e o ser humano. Essa pedagogia, de cunho excessivamente humanista, acabou minimizando o mistério pascal, que é o centro da fé cristã, ao colocar sua tônica na realidade do catequizando. Ora, Deus é mistério que nos envolve; é mistério de amor que nenhuma observação da realidade dá conta de apreender ou explicar. Na morte de Jesus, o nazareno, Deus se diz como amor sem limites. E Deus toma seu partido quando o ressuscita dos mortos. Esse mistério como disse Paulo supera todo entendimento: é loucura para uns; é escândalo para outros, mas para nós que cremos é salvação.

Surge então a necessidade de retomar uma antiga pedagogia que esteve muito presente no Catecumenato, aquele caminho catequético que se firmou nas primeiras comunidades cristãs. Mas o que é iniciação? A iniciação é um modo de conhecer por meio da experiência, por meio do mergulho num mundo de símbolos e significações. Talvez um exemplo ajude. No nordeste, há uma bela cultura de bordados e rendas. Tomemos o caso do filé, um espécie de trançado bonito que dá como resultado colchas, toalhas, cortinas, roupas etc. Numa vila onde as mulheres bordam diariamente e vivem desse ofício, não é preciso dar um curso sobre o filé, nem colocar nas cadeiras de uma escola as menininhas que querem seguir os passos de suas matriarcas. A aprendizagem do filé se faz num mergulho constante num mundo de símbolos e significados. As crianças, desde cedo, no colo da mãe, já a ajudam a escolher as linhas, já são apresentada ao universo do artesanato, já sabem apreciar a beleza das peças… A aprendizagem vai se dando gradativamente, à medida que a menina cresce e se familiariza com aquele universo. De repente, ela fabrica sua primeira peça. Já não é mais uma estranha, mas uma iniciada naquele mundo. Depois, começa a comercializar suas peças, sabe falar sobre suas obras, sabe dialogar com outras artesãs, criou pertença com aquelas mulheres de forma gradativa e processual, passando pouco a pouco de uma fase para outra, mas permanecendo sempre aprendiz de seu ofício.

Assim é a fé cristã. Ela não se aprende por meio de ensinos ou cursos. Ela é apreendida pouco a pouco como resultado de uma convivência com outros cristãos, por meio da partilha, da oração, da busca de resposta, da celebração, do prazer do encontro, da práxis cristã… A transmissão da fé cristã não se dá automaticamente, mas também não é resultado de um curso ou de assentimento a verdades. É resposta constante que se dá a Deus que nos interpela todo dia a acolher sua presença. Isso se dá de dentro pra fora, num processo mais existencial que cognitivo, mais mistagógico que dedutivo, mais afetivo que intelectivo, mais relacional e não por meio da apreensão de verdades. Deus é mistério cativante que nos envolve, nos seduz, nos atrai para ele.


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