Passado um tempo desde o Concílio de Trento, novas necessidades começaram a surgir na Igreja. O ser humano que ocupava os bancos das igrejas já não era mais o mesmo. Depois do Iluminismo, as urgências se tornaram outras. Um mundo secularizado vinha pouco a pouco se impondo e a fé cristã tradicional não dava conta de responder às novas demandas que surgiam. Se antes todas as perguntas confluíam para o mundo cristão e Deus era a explicação para todas as coisas, não foi mais assim depois do Iluminismo, quando as pessoas queriam explicações mais convincentes, sem recorrer ao mundo mítico e meio mágico da religião.

Uma virada copernicana aconteceu: de Deus como centro da vida e do mundo passamos a ter o ser humano ocupando lugar de destaque. Ele, um ser racional e capaz de conhecer, não precisava mais de Deus para explicar os antigos mistérios que o assombravam, tais como os fenômenos da natureza, as doenças, o mal, o sofrimento, os sistemas de governo, a estruturação da sociedade etc. Para todas essas questões surgiram outras respostas, mais plausíveis e mais convincentes, ainda que não houvesse resposta para tudo.

Surgiu então uma confiança no ser humano, na sua capacidade de conhecer, de construir o conhecimento, de progredir, de desenvolver a técnica. Esse otimismo deu origem a novas pedagogias que tiveram grande influência sobre os processos educativos, conquistando espaço também na catequese católica. Entendeu-se que o catequizando não é um cabeça-oca; percebeu-se que ele apreende ou elabora a fé a partir de sua realidade, que constrói seu conhecimento a partir de seu mundo, de suas experiências, de seu universo social, político, econômico etc. Desde então, a catequese viu caducar a pedagogia do ensino e acolheu de braços abertos a pedagogia da aprendizagem. Nesta, o centro não é a verdade ensinada, mas o catequizando que pode acolher a mensagem de Deus, fruto de uma elaboração hermenêutica sempre sujeita à sua realidade.

A catequese tradicional de Trento foi forçada a deixar espaço para a renovação catequética que teve seu início mesmo antes do Concílio Vaticano II e, por meio dele, ganhou ainda mais fôlego. Foi aí que os catecismos, pouco a pouco, foram sendo aposentados. A catequese ganhou feições bem concretas em cada chão onde via a semente da fé floresceria. Houve muita conquista bacana e muita coisa boa aconteceu. Mas parece que a pedagogia da aprendizagem ainda não deu conta de transmitir a experiência cristã de Deus. Apesar de profundamente humanizante e transformadora, a pedagogia da aprendizagem não deu conta do mistério a ser testemunhado, deixando espaços para a catequese retomar a pedagogia da iniciação, lá do começo da fé cristã. Sobre isso, falaremos no próximo artigo.


Reflita anterior:   25. Pedagogia do ensino
Próximo reflita:    27. Pedagogia da iniciação
Print Friendly, PDF & Email