Uma característica curiosa de nossa Igreja é sua unidade. Quando falamos em unidade, corremos o risco de confundir unidade com uniformidade. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A unidade é comunhão gerada na diversidade. A uniformidade é imposição de um modo de ser sobre todos os outros, sem deixar espaço para a diversidade, para a expressão das diversas partes que compõem o grupo. Unidade e diversidade são antônimos. Unidade e diversidade são complementares.

A unidade de nossa Igreja é garantida pela fé professada, celebrada e vivida.

A fé professada: Todos nós católicos professamos a fé em Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. É a mesma fé dos apóstolos; a fé que um dia nos foi transmitida por nossos antepassados e que acolhemos como força para viver. Essa fé se manifesta de modos distintos mas tem um cerne, um ponto comum. Tem um eixo que congrega os crentes; ou seja, tem um modo católico de crer. E esse modo de crer contempla a diversidade, inclusive admitindo posturas teológicas distintas, pois sabemos que não possuímos a verdade. Da verdade a gente só se aproxima, mas a gente não se apropria dela. Ela é maior que nós. É ela que nos abarca; nos consome; nos envolve. A fé católica não quer ser absoluta ou não seria católica, nem mesmo cristã – afinal, Jesus ensinou humildade e não arrogância. A fé católica lida com o mistério e não com a certeza de uma ciência exata. Ela deixa margem para a dúvida, para a procura, para a escuta do outro e, inclusive, para o erro, pois só Deus é infalível. Nesse leque de possibilidades, de procuras, nós cremos. E cremos com a Igreja e porque somos Igreja. Não inventamos a fé; não criamos uma fé para professar. Professamos a fé que recebemos de nossos pais na fé: Deus nos ama tanto que nos deu seu Filho que, pela força do Espírito, nos redimiu e nos congregou em torno dele.

A fé celebrada: Toda religião tem seu culto; sua expressão da fé; seu modo de rezar, de entrar em comunhão com o Deus que cultua. Nós católicos temos também um modo de celebrar. Temos sacramentos, ritos, símbolos, orações… Temos um jeito de fazer o encontro com Deus. Esse encontro é feito de modo bem encarnado na história, assumindo a cultura e os costumes do local, o jeito de ser do povo que celebra. Afinal, celebração é expressão da vida e não um amontoado de ritos e símbolos que nada dizem à comunidade celebrante. Por isso, às vezes, as celebrações são tão distintas. Mas, nessa diversidade, está a unidade da fé, pois é uma fé encarnada. Lembremos: nosso Deus é o Deus da história. Deus se fez homem; entrou na história. Seria trair a fé no Deus de Jesus Cristo se a gente só aceitasse uma expressão da fé, de acordo com uma cultura. Na hora que todo o mundo tiver que celebrar igualzinho, traímos a nossa fé. Arrancamo-la da história e obrigamo-la a entrar numa forma que não é a sua. O fato de nós católicos termos um ano litúrgico estabelecido, com leituras dos textos da Escritura já selecionados para cada dia, com rituais que definem as celebrações não garante a unidade. A unidade da fé não vem dos ritos, de fora, mas de dentro do coração que crê.


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