“Ele exulta de alegria por tua causa, renovar-te-á por seu amor;
ele se regozija por tua causa com gritos de alegria, como nos dias de festa.” (Sf 3,17b)

“Eu poderia, embora não sem dor,
perder todos os meus amores,
mas morreria se perdesse todos os meus amigos”.
(Vinícius de Moraes)

Como é bom ser bem-querido. Sair de uma situação difícil, ou voltar de uma ausência prolongada, e ser esperado, recebido com barulho e festa por um grupo, grande ou pequenino, de amigos, que já estava no momento duro e agora celebra a presença, a vitória, a alegria do reencontro.

Fazer experiência da verdadeira amizade é um dos maiores privilégios nesta vida. A incondicionalidade da amizade de alguns quebra o nosso medo diante da condicionalidade e da falsidade de muitos. A amizade é bênção, que faz com que cada caminho seja uma estrada de partilha e cada cruz se torne meia cruz. Com os verdadeiros amigos, o tempo e a distância são relativos, e até parecem não existir; ligações telefônicas, mesmo depois de um ano e meio sem se falar, provocam a mesma alegria e a naturalidade de pessoas que se encontram todos os dias. O amigo está presente para partilhar e multiplicar cada alegria, cada sucesso, mas também – às vezes, muito mais – para abraçar penas, consolar dores, enxugar lágrimas, acolher precariedades… Na morte dos nossos entes queridos, sofrem conosco, assim como partilham as angústias pelas injustiças que podemos sofrer. Com verdadeiros amigos, o silêncio não é sinônimo de ausência, mas de presença respeitosa e carinhosa. Com eles, o abraço é calmo; a palavra é vida; o encontro é festa!

O profeta Sofonias propõe um Deus que faz festa por nossa causa. Um amor que é capaz de nos renovar, precisamente porque é um amor que se interessa por nós, e isso o faz ser verdadeiro, crível. Nada de nossa vida, inclusive o pior que podemos ter, é indiferente para esse nosso Amigo. Tudo o que temos lhe resulta interessante, tanto que ele mesmo quis ser um de nós. E são muito significativas as imagens que o profeta utiliza: “gritos de alegria” e “dias de festa”. Talvez isso queira mostrar –com o devido respeito à divindade – que Deus não é tão diferente de nós, ou melhor: que a nossa festa e os nossos gritos de alegria são imagem da festa que Deus faz por cada um dos seus amigos. Será que Deus está mais perto de nós do que cremos?… É muito consolador pensar nesse Deus: um Amigo que também se deixa tocar pela nossa miséria. Uma pessoa que sofre conosco, que ri conosco, quando a gente se permite rir de si mesmo; um Amigo que também não se conforma com o nosso desconsolo, nem com as injustiças que sofremos. Um Deus que quer ser amado, mas não a qualquer preço, como acontece em qualquer boa amizade. Com ele, a oração se torna diálogo sincero, abraço reconfortante e alegria no encontro; é aí, no encontro com o Deus-Amigo, que podemos ter diferenças e coincidências. É no encontro com esse Deus que exulta de alegria por nossa causa, que podemos nos deixar renovar por seu amor.


Crônica anterior:    25. Saudade que dói
Próxima crônica:    27.Presença na ausência
Print Friendly
Print this pageShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Email this to someoneShare on Tumblr0