Com certeza, se pudéssemos, gostaríamos de retribuir tudo. Em troca dos presentes e dons, ofereceríamos outros ainda maiores. E em troca das ofensas, pagaríamos o prejuízo, com dinheiro ou obrigações. Porque, no fundo, é incômoda a sensação de que outro nos oferece, nos ultrapassa na bondade. É como se uma dívida silenciosa fosse gerada cada vez que isso acontece. Ou melhor: é como se a gratidão ofendesse nossa pretensão e nosso ego… É triste, mas é verdade: muitas vezes, somos orgulhosos demais ou interesseiros demais para adentrar a lógica do Reino – e o orgulho e o interesse são, no fundo, estreitezas do olhar. Olhar com profundidade e largueza leva a reconhecer que o evangelho tem razão: somos felizes não quando outro devolve nossa bondade na mesma medida, mas quando ele sequer é capaz de reconhecer o bem que foi feito. Nessa hora, mais do que em qualquer outra, o gesto feito tem sua maior importância. Perdoar quando o outro não merece, acreditar quando faltam garantias, insistir quando não há perspectivas, resistir quando a batalha já parece perdida… são todas desmedidas que ultrapassam a lógica da retribuição e que convidam à gratuidade do Reino.


Versículo anterior:    268
Próximo versículo:    270
Print Friendly, PDF & Email