É noite.
Alta e funda noite.
Os últimos fieis,
solitários atrás de suas máscaras,
já se foram faz tempo.
Portas fechadas,
silêncio taciturno,
vozerio distante.

Aqui,
dentro do peito,
ainda trago ecoando
as cantigas do evangelho
“… ele permanecerá / convosco para sempre”.
A pequena e rubra luz,
tremulante como chama,
insiste em confirmar: está vivo.

É então,
na fundura da noite,
como num raio,
que finalmente abro os olhos,
qual discípulo tardio de um Emaús perdido.
E, como um amado ainda jovem demais
para as conversas amanhecedoras ante à mesa;
pés lavados, coração pendente,
é que escuto – desta vez desperto:
“… e eu o amarei e me anifestarei a ele”.

 

Sim…
Ele permanece para sempre
e se mostra vivo.
Não tanto nestas portas fechadas,
ou sob as chaves deste tabernáculo.
Mas na presença real e viva
do “Espírito da Verdade”,
em cada coração que teima em amar,
apesar do medo e da solidão.
Em cada casa feita igreja,
morada de corações esperançosos.
Em cada gesto de compaixão
que não se contém e que se oferece,
no silêncio do recolhimento
ou no trabalho quase heróico.
Pois, em todo amor detilado em gotas finas,
o amor dele segue salvando.

Senhor,
quando não restar mais nada,
quando as mãos se enfraquecerem,
e os pés se ferirem;
quando os olhos se turvarem
e o ânimo se abater,
que reste ao menos,
como ponte estendida sobre o abismo
ou abrigo em meio à tempestade,
o amor – mandamento sublime,
o único capaz de salvar.
Aquele amor,
capaz de manter-te aqui comigo
e capaz de guardar-me sempre contigo.
Sozinho jamais estarei.


Para rezar anterior:    262. Se fosse apenas, mas não
Print Friendly, PDF & Email