Marcele era auxiliar de enfermagem e saía às pressas do hospital, já atrasada para a faculdade, quando um desavisado bateu no seu carro. Ah, meu Deus! Ela já estava atrasada e agora ainda tinha que lidar com essa batida. Marcele suspirou fundo para não xingar muitos nomes feios, mas não teve jeito. Saiu do carro fazendo careta, deixando clara a sua indignação e gritando com o motorista do outro carro.

Caio estava distraído pensando na mãe no hospital quando Marcele saiu de ré do estacionamento. Sua mãe tinha sido internada e ele saíra do hospital há pouco com notícias não muito boas. O caso era grave e ele estava só para cuidar da mãe, já separada do marido e sem outros filhos. Quando desceu do carro, viu as caretas de Marcele e seus palavrões, Caio logo pensou: “Sujeitinha nojenta! Não dá para resolver isso civilizadamente?”. Caio estava disposto a pagar o conserto; ele tinha seguro, mas não estava disposto a levar desaforo para casa. Estava cansado demais depois de um dia de trabalho e de pelejas no hospital.

Marcele esbravejou: “Tá cego? Não me viu aqui não?. Que merda! Olha o que você fez.”. Caio não deixou barato. “Você também saiu da garagem e não olhou se vinha carro. Não sabe dirigir não?”. Marcele não simpatizou com aquele cara. Nem ele com ela. A antipatia era recíproca e a irritação também.

Passados as primeiras agressões, decidiram fazer o boletim de ocorrência, pois parecia não haver acordo possível entre eles. Foi quando Caio, mais calmo, pensou: “Estou errado e devo admitir a culpa. Ainda que ela grite comigo, não devo retribuir”. Caio era boa gente; participava do grupo de jovens e, na noite anterior, sua turma meditara um texto do Evangelho de Lucas que falava sobre não retribuir o mal com o mal, nem a agressão com a agressão. O jovem tinha ficado impressionado com o ensinamento de Jesus e resolveu mudar de tática. Deixou Marcele falar até babar e ouviu tudo calado. Marcele não entendeu. Ela continuava falando e xingando e reclamando sem parar, quando escorregou no meio fio e quase caiu, não fosse a rapidez de Caio a ampará-la. Ele foi gentil, ajudou-a a se recompor, olhou cuidadosamente se ela se feriu e foi ao bar buscar um copo d’água na tentativa de ajudá-la a se recompor. Então Marcele percebeu que Caio não era tão antipático quanto pareceu a princípio. Assentados calmamente no bar, tomaram água, se refrescaram do calor e Caio propôs pagar o conserto do carro. Explicou que estava muito descuidado devido à preocupação com a mãe, se desculpou mil vezes e sorriu para ela.  Marcele também se acalmou e viu que o estrago do carro era tão pequeno que não justificava toda aquela algazarra. Na verdade, seu carro teve um leve arranhão, mas o carro de Caio – coitado! – ficara com um dos faróis quebrados, assim como a seta esquerda, quando colidiu com um hidrante evitando bater em cheio no carro de Marcele. Seu prejuízo era bem maior que o dela. Marcele chegou a ficar com pena do rapaz. E se refez do susto. Eles combinaram o que fazer acerca dos estragos e Marcele partiu para a faculdade. Caio ficou lá coitado, esperando o pessoal do seguro que nunca chegava. Só bem tarde foi liberado para ir para casa.

Dias depois, Caio chegou ao hospital para ver sua mãe, quando uma enfermeira bondosa lhe ajudava a tomar banho. Caio ficou surpreso ao ver Marcele. Sua mãe os apresentou dizendo: “Esta é Marcele, um dos anjos da guarda que tem cuidado de mim enquanto você trabalha!”. E disse a Marcele: “Este é meu filho de quem lhe falei. Um tesouro que Deus me deu! Não fosse o carinho dele eu já teria morrido”. Os dois se olharam e pensaram: “Para que tanta antipatia e gritaria um com o outro dias atrás?”. E riram juntos do acontecido.


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