Ressuscitou

Certos detalhes das narrativas da ressurreição permanecem intrigantes, pois não há coesão nos relatos. O lugar das aparições: Galileia ou Jerusalém? A questão do sepulcro vazio não é mencionada por Paulo, por quê? Os mensageiros das aparições no sepulcro ora são dois homens, ora anjos. A ascensão do Senhor perante os discípulos é mencionada só por Lucas. Tais “dificuldades”, no entanto, não negam a verdade da ressurreição de Jesus, apenas revelam o desafio de narrar uma experiência que se situa na dimensão do transcendente e se manifesta no imanente. Há, pois, certo “embaraço” para narrar o encontro com Jesus ressuscitado. Depois da morte de Jesus, os apóstolos voltam a Jerusalém e testemunham que ele está vivo e se lhes manifestou. Ninguém testemunhou a ressurreição como tal; esta perdura como mistério, afinal, ninguém viu Jesus ressuscitando.

Não foi fácil para os discípulos descrever encontros com o Ressuscitado. Eles o reconhecem e não o reconhecem; ele é intocável, mas se deixa tocar; é o mesmo que conheceram quando vivia junto deles, mas é outro completamente diferente. Tal experiência exigiu recursos literários e estilísticos para que pudesse ser comunicada. Lucas, com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35), utiliza o simbolismo da liturgia para transmitir o inefável. “Estando à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, deu-o a eles. Neste momento, os olhos deles se abriram e o reconheceram, mas ele desapareceu de sua vista” (Lc 24,30-31). O evangelista nos diz que encontramos o Ressuscitado na Palavra e no sacramento. O fundamento da eucaristia é o mistério pascal; nela, o Senhor vem ao nosso encontro para ser nosso companheiro de viagem, abrir nossos olhos e nos dar coragem para seguir adiante. O mais importante não é, pois, o que aconteceu, mas o significado do que aconteceu e a presença viva do Senhor na comunidade que se originou dele.

As narrativas da ressurreição seguem uma lógica: a iniciativa vem sempre do Ressuscitado. Ele aparece e se manifesta. O que fora crucificado se mostra vivo. A ressurreição não se resume a uma experiência sentimental, que brota do coração dos discípulos. Ela lhes chega desde fora e se apodera deles, inclusive indo contra suas dúvidas, fazendo-os ter a certeza de que o Senhor ressuscitou verdadeiramente. Os discípulos o reconhecem e declaram: “É o Senhor”. Aquele que estava no túmulo já não está preso pela morte, se encontra no mundo de Deus e tem poder para se manifestar vivo. O amor de Jesus pela humanidade foi mais forte do que a vida. Ele a perdeu por amor. Mas seu amor também se revelou mais forte que a morte, uma vez que a destruiu. O encontro com o Ressuscitado é uma experiência de fé e os seus seguidores se transformam ao reconhecerem-no, donde surge a missão: dali para frente serão testemunhas do Vivente e vão anunciar a Boa Nova com entusiasmo e paixão. Os fugitivos medrosos da sexta-feira santa se tornam testemunhas destemidas da Páscoa, prontas a dar a vida por aquele que, morto, se tornou Senhor da vida por sua ressurreição.

A ressurreição de Jesus desponta, assim, no Novo Testamento, como o núcleo central da fé apostólica. Pedro dirá aos judeus de Jerusalém: “vós o prendestes e o matastes, pregando-o na cruz por mãos de gente má. Mas Deus o ressuscitou, libertando-o das angústias da morte, pois não era possível que ele ficasse detido sob seu poder” (At 2,23-24). Paulo, após sua experiência com o Ressuscitado, proclamará: “Se confessares com a boca que Jesus é o Senhor e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rm 10,9). De fato, toda a pregação apostólica se resume no testemunho da ressurreição do Senhor (cf. At 4,33).A Igreja nasce do testemunho da ressurreição de Jesus, sem a qual vazia seria nossa fé: “Se Cristo não ressuscitou, então nossa pregação é vazia, vazia também é vossa fé” (1Cor 15,14).

Alguns textos mostram Jesus como sujeito ativo da ressurreição. Ele ressuscitou (cf. Mt 28,7; 1 Ts 4,14; 1 Cor 15,3-5; Jo 21,14 etc.). A maioria dos textos, no entanto, fala da iniciativa do Pai na ressurreição do Filho (cf. At 2,24;  Rm 5,8; 8,34;  Cl 2,15 etc.). Tal iniciativa supõe participação do Filho, mas a fé pascal insiste na ação de Deus-Pai em seu Filho Jesus, afinal, “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que não morra quem nele crê, mas tenha a vida eterna” (cf. Jo 3,16). A ação criadora do Pai se manifesta na vida entregue do Filho através da morte e o introduz em um novo modo de existir. Ao ressuscitar seu Filho, Deus antecipou na história humana algo que se manifestará no fim: a vitória da justiça, a fraternidade universal, a realização plena do Reino. Deus agiu em Jesus, não de maneira milagrosa, mas fazendo-o passar da morte à vida, dando-lhe outro modo de existir. Na nossa humanidade, o Filho é glorificado e santificado. Pela ressurreição, Deus confirmou a verdade da vida de seu Filho Jesus, tornando-a irrevogável. O Pai para sempre o exaltou, fazendo-o Senhor da história e do universo inteiro. A ressurreição de Jesus, vítima inocente, expressa tanto o poder de Deus sobre a morte como seu poder sobre a injustiça que mata os inocentes, aqueles que propagam a paz, a igualdade,a liberdade e a fraternidade, ou seja, o sonho do Reino de Deus.

Ao ressuscitar seu Filho Jesus, Deus Pai o arranca do absurdo e o leva à plenitude o que Ele pretendeu com sua vida e morte. Em Deus, ele reencontra a identidade definitiva de seu ser humano e a realização plena de sua história terrena. O próprio sentido da vida e morte de Jesus é dado pela ressurreição. A prática de Jesus foi considerada suspeita e sua morte o desacreditou publicamente. Sua morte representa o fracasso de sua missão. Ao ressuscitá-lo,Deus dá razão ao crucificado e o faz vitorioso, mostrando que sua solidariedade com os pecadores e os que sofrem coincide com a vontade de Deus. Jesus não estava, de fato, sozinho. Deus, seu Pai, esteve com Ele, em todos os momentos de sua vida, até à morte. Em Jesus, Deus atuou realmente; ele é de fato o salvador de Deus, aquele que, de verdade, expressou Deus na história.

Quanto à ressurreição do corpo, de acordo com a antropologia bíblica, trata-se da ressurreição do ser humano na integridade de suas relações pessoais e cósmicas, na sua totalidade. A ressurreição não pode ser vista como sobrevivência da alma, o que a tornaria algo desvinculado da real experiência humana. Não é, pois, a alma de Jesus que ressuscita, mas Jesus mesmo, na totalidade do seu ser e da sua vida. A ressurreição também não se entende como fazer um cadáver sair do túmulo e voltar à vida terrena que levava antes. Ele não regressa a vida de antes, como Lázaro. Jesus ressuscitado não está mais sujeito às leis da química e da biologia, não se prende mais às leis da história enquanto imanência. A ressurreição diz respeito a tudo o Jesus foi e realizou na sua vida, na sua identidade mais profunda. A totalidade da vida (corpo, alma, história, projeto, relações) ressuscita.

Apesar de não depender mais das leis da história, foi necessário que a ressurreição se manifestasse na história, para mostrar que o sentido da aventura humana é a construção do Reino que Jesus inaugurou com sua morte e ressurreição. Ele não só morreu por nós, mas também ressuscitou por nós. E sua vida gloriosa junto do Pai nos é comunicada pelo Espírito, para que vivamos e ressuscitemos com ele. “Mas Deus, que é rico em misericórdia, movido pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa de nosso pecado, nos fez reviver com Cristo. É por graça que fostes salvos. Com ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus, em Cristo Jesus (Ef 2, 4-6; cf. Rm 5,8; Cl 2,13).

Ao terceiro dia

O anúncio bíblico afirma que Jesus ressuscitou ao terceiro dia e tal afirmação aparece no Credo. O símbolo niceno-constantinopolitano acrescenta:conforme as Escrituras.O terceiro indica uma obra realizada. No Evangelho de Lucas, Jesus diz: “Ide dizer àquela raposa. Eu expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã; e no terceiro dia sou consumado” (Lc 13,32). Em João, ele afirma: “Podeis destruir este templo, que em três dias eu o levantarei de novo” (Jo 2,19; cf. Mc 14,58). A ressurreição ao terceiro dia emerge como o cumprimento da salvação. “Ele não está aqui. Ressuscitou! Lembrai-vos do que ele vos falou quando ainda estava na Galileia: O Filho do homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia” (Lc 24,6-8). Pedro proclama: “Deus o ressuscitou no terceiro dia” (At 10,40). Paulo declara haver transmitido o que ele recebeu: “que Cristo morreu por nossos pecados, cumprindo as Escrituras, que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, cumprindo as Escrituras; que apareceu a Cefas e mais tarde aos doze” (1 Cor 15,3-4). Aqui há um paralelo com Oséias 6,1-2, onde lemos: “Vinde, voltemos a Javé. Ele dilacerou e nos curará; ele feriu e nos enfaixará. Depois de dois dias nos fará reviver, e no terceiro nos fará ressurgir e viveremos em sua presença”. No terceiro dia Javé intervém salvificamente.

Jesus ressuscitado, segundo Lucas, explica aos discípulos de Emaús o que lhe aconteceu: “E, começando por Moisés e percorrendo todos os profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que lhe dizia respeito” (cf. Lc 24,27). O que aconteceu com Jesus tinha sido predito pelos profetas, dirá Lucas em Atos (cf. At 3, 18). A afirmação ao terceiro dia, segundo as Escrituras, significa que a ressurreição de Jesus é a realização final das promessas de Deus que aparecem nas Escrituras, seu cumprimento escatológico.

O terceiro dia, porém, recebe explicações diferentes das diversas correntes teológicas. Há teólogos que entendem que esse número é simplesmente teológico e não o terceiro dia, aquele que vem depois do segundo dia, que veio depois do primeiro. Afinal, para o Evangelho de João, morte e ressurreição de Jesus compõem um único evento. Na cruz, o Filho se eleva ao Pai é por ele glorificado. Já para os adeptos da antropologia dualista, o problema se resolve facilmente: na morte, o espírito (alma) de Jesus foi glorificado; três dias depois, o corpo foi elevado a partir do túmulo a essa glorificação. Outros encontram uma resposta nas recentes pesquisas médicas. De acordo com essas, os critérios para constatar a morte na época de Jesus não eram os mesmos de hoje. A morte de Jesus na cruz, na opinião de alguns pesquisadores, foi apenas um ponto de não retorno à vida, ou seja, ele não tinha morrido totalmente. A morte total só aconteceu quando ele já estava no túmulo, nesse caso dizer que ele ressuscitou ao terceiro dia é dar coincidência temporal entre a morte e a ressurreição. Parece que, para os judeus, a morte só era de fato assumida depois de três dias, quando o corpo começava a se corromper. Mas, como disse um grande teólogo da ressurreição de Jesus: “a sabedoria aconselha, sem dúvida, a não entrar nessas investigações”. O mais importante é a ressurreição de Jesus, acontecimento histórico-transcendente cujo significado salvífico chega a todos os homens, através do Espírito, mesmo àqueles que não professam uma fé em Jesus ou em Deus. Nós cremos na veracidade do testemunho dos apóstolos: Jesus se manifestou ressuscitado a eles. E ressuscitou para que pudéssemos ressuscitar com ele. Está presente na Igreja e no mundo, mediante o Espírito.


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