“Na beira dos rios da Babilônia, nós nos sentamos a chorar, com saudades de Sião” (Sl 137,1)

Amor: um mal, que mata e não se vê;
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por que.
(Camões)

Disse o Menino: “Dói sentir saudade… É dor que nos exige rezar palavras e memórias”. De fato, dor doída até as entranhas! E parece ser dor universal: tão antiga quanto a vida, tão profunda quanto nossa capacidade de amar!

O povo de Judá experimentou essa dor, quando esteve exilado de sua terra. Longe de sua pátria, longe dos seus. Longe de seu templo, a gente deportada se sentava às margens dos rios da Babilônia, a chorar de saudades de Sião, misturando suas lágrimas às águas fecundas dos rios. Era melhor morrer de sede, ver sua língua colada ao paladar ou sua mão seca, a festejar qualquer coisa com o coração assim em frangalhos… Porque dói muito sentir saudades!…

Mas o que é essa dor tão cantada em versos e prosa? Uns dirão que é uma ausência de alguém ou de algo que a gente ama; um buraco, um vazio deixado pela impossibilidade de estar com o amado… Mas, se há um amado, seria então um vazio? Talvez a saudade não seja uma ausência, mas uma presença da falta; uma presença tão forte e dilacerante do amado, que nos acompanha quando, na verdade, já deveria ter nos deixado em paz. Acontece que a memória perpetua aquilo que ama e prolonga as experiências que foram marcantes. Essas nos compõem, nos fazem ser quem somos, pois estão inscritas dentro de nós. E, como cantou Fagner em Canteiros, basta pensar no amado pra fechar os olhos de saudade, pra entender que, sem ele, se pode ter muita coisa, menos a felicidade.

Ando pensando na saudade, essa dor que exige ser rezada, assimilada, expurgada… Talvez porque a saudade anda me elegendo como companhia… Saudade da voz forte do pai, ralhando com seus filhos e enchendo a casa lá desde a cozinha. Saudade da mãe idosa, cozinhando no fogão de lenha… Saudade da irmã, que não se despediu antes de partir… Saudade da infância, dos irmãos, dos amigos… Saudade da leveza da vida e de tudo e de todos que o coração já amou e dos quais a memória não se esqueceu.

Viver assim com saudade é arte nada fácil; é viver estando apenas uma metade, pois a outra, uma vez partida, partiu para longe dos olhos sem se distanciar um milímetro do coração. E no espaço que ficou, resta reorganizar a vida. A saudade exige reorganização, como cantou Chico Buarque: “saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Acostumados a viver referidos a alguém ou a algo que dava sentido e sabor à nossa existência, ficamos sem chão quando esse referencial nos falta. Como continuar a luta diária? Onde encontrar forças? O que fazer com esse vazio do quarto da vida, se, como canta Fagner, “continua o teu sorriso no meu peito”? Nosso coração continua repleto de memórias e amores, enquanto o corpo sente a falta: falta dos abraços, das palavras, do toque, da voz, dos rumores dos passos… Pássaro ferido somos nós pela espada dilacerante da separação de quem tanto amamos. “Asa partida e dor, gemido morto, amor… tão longe vai; tão longe vou!”

Suspeito que o Menino tenha razão: a única forma razoável de conviver em paz com a dor da saudade é rezando: rezar palavras e memórias. A oração nos põe referidos a Deus, que é bem maior do que nós; a comunhão com ele enfaixa nossas feridas e cura nossas dores. Sua presença preenche nossos espaços vazios e nos ajuda a reorganizar a vida. Entreguemos a ele a dor dilacerante das remoídas saudades.


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