Falar em tempo nos remete aos vários sentidos desse vocábulo, que em grego percebemos melhor sua polissemia. Tempo é mais comumente relacionado ao conceito de Chrónos: o tempo das horas e datas, dos relógios e calendários. Como afirma o teólogo dominicano Albert Nolan: “O tempo é concebido como um espaço vazio medido e numerado que pode ser preenchido com eventos de maior ou menor importância”. Assim sendo, Chrónos é um tempo quantificado.

Tempo também pode ser Kairós. Pela mitologia grega, Kairós era filho de Chrónos, deus do tempo e das estações. Ao contrário de seu pai, Kairós expressava uma ideia metafórica do tempo, tornando esse indeterminável e imensurável; uma oportunidade ou ocasião certa para determinada coisa. Kairós é um momento oportuno único, que pode estar presente dentro do espaço de um tempo físico, determinado por Chrónos, ainda segundo a mitologia grega. Kairós seria o período ideal para a realização de uma coisa específica, que pode ser um objeto, processo ou contexto.

Enquanto Chrónos é o tempo quantificável, Kairós é o tempo enquanto qualidade. Vemos isso magnificamente expresso em Eclesiastes 3,1-8 e era assim que o povo hebreu concebia o tempo: “Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu”. Para designar os tempos oportunos ou inoportunos, usamos várias analogias. Quem nunca ouviu dizer: “O mar não está pra peixe”; “céu de brigadeiro”; “inferno astral”; “inverno eclesial” e outras? São expressões que qualificam o tempo e nos indicam se ele é ou não favorável para dada ação.

Porém, nem tudo é Kairós. Na literatura bíblica, a expressão kairós é usada apenas para designar um acontecimento significativo para o povo de Deus. No cotidiano da vida, quando o tempo não traz nada de novo, nem apresenta um graça especial, o povo diz Chrónos, aquele tempo comum que em que a gente conta os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos…. Em outras palavras, o ordinário da história era sempre Chrónos e o extraordinário um Kairós. O tempo do Verbo encarnado na história pode ser exemplo máximo de Kairós; um acontecimento único e irrepetível: tempo da graça!

Tempo também pode ser Eschaton que na visão de Nolan, “em termos simples, é um evento que se situa num futuro próximo, um ato de Deus, que determina a qualidade, a atmosfera moral e a seriedade do nosso tempo presente – ou seja, ele transforma o momento presente em uma modalidade particular de Kairós”. No prisma da Páscoa cristã, Eschaton é como um abrir as portas para um novo tempo, outra vez sem medida e sem contornos definidos, portanto longe da desesperança, do sentimento de finitude imposta. Eschaton, portanto, é um acontecimento qualitativa e radicalmente novo.

A expressão Eschaton na bíblia está relacionada com a tradição profética, que a associava a um tempo de acerto de contas, tornando o Eschatonuma boa nova para os pobres, mas ruína e perdição para os ímpios, aqueles que oprimiam os pobres aproveitando-se da fragilidade deles. Nessa perspectiva, um Kairós se configura como um tempo de graça, uma oportunidade única para a conversão, para não ser surpreendido pelo dia do ajuste de contas. Pode-se dizer que Eschaton é o dia da libertação e Kairós é o momento oportuno para a conversão e o regozijo diante da graça de Deus.

O tempo de Francisco pode ser relacionado ao Chrónos, ao Kairós e ao Eschaton. Seu tempo cronológico é curto, ele já não é novo, tem quase 80 anos (17/12/36), mas pode ser um espaço único e oportuno, ou seja, umKairós, o tempo necessário para tomar decisões significativas e profundas dando rumos novos à Igreja. E porque não pensarmos o tempo de Francisco também em chave de Eschaton, como na bíblia? Seu magistério é também um tempo de acerto de contas, ou seja, um tempo de ajuste dos pesos e das medidas que cada cristão e a Igreja como um todo tem usado para fazer seu caminho cristão. Quando assumiu seu ministério como Papa, a Igreja passava por um momento de crise muito difícil, com muitos escândalos envolvendo desde denúncias de pedofilia até corrupção financeira no Vaticano, que culminou com a renúncia histórica do Papa Bento XVI.

O tempo de Francisco pode, então, significar o tempo que a Igreja tem hoje para vivenciar sua experiência de fé e assumir a sua missão de transmissão a presença do Ressuscitado ao mundo; tempo de rever seus processos e acertar o passo com a história. Nesse caso, tempo pode e deve ganhar sempre um adjetivo: oportuno, decisivo, único.

O teólogo espanhol, José Antonio Pagola, afirmou numa de suas mais recentes publicações que “nos países europeus estamos vivendo tempos decisivos para o futuro da fé entre nós”. Será que seria somente nos países europeus? E por aqui no Brasil? Também não experimentamos algo semelhante?

É claro que os desafios têm nuanças diferentes para quem já experimentou uma avalanche secularista e para quem vive mergulhado num ambiente religioso nebuloso, como o nosso. Porém, olhando mais a fundo, será que a mudança sociocultural não se configura nos nossos dias como um fenômeno global, sem fronteiras?

Bem há pouco tempo, nascíamos mergulhados numa cultura bastante homogênea, que servia como mediação para a vivência da fé em moldes católicos. Ser brasileiro quase coincidia com o ser católico. Hoje, estamos diante do desafio da escolha do modo de vivenciar nossa fé. É tempo das opções, pois o mundo hoje é plural, multirreferencial!

O pluralismo tem o seu lado desafiador e empolgante para quem o vê como uma possibilidade de conseguir sua autonomia de voo; é bastante libertador, pois nos coloca diariamente frente a múltiplas escolhas. Porém, a Instituição Católica, acostumada a ser uma opção quase absoluta, acomodou-se, tornou-se velha e antiquada, não se preparou para esse contexto plural e se vê hoje desafiada nos seus métodos de transmissão de fé.

Sendo assim, há um indiferentismo de um lado (Europa) e de outro um excesso de ofertas (nosso contexto). Como empolgar a uns e a outros oferecer critérios seguros para a vivência atualizada da fé cristã?

Aqui entra o meu segundo ponto de observação, passando do tempo para o tema. Francisco tem configurado nos seus escritos, gestos e falas numa proposta bastante clara: “Voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho”. Essa proposta é feita sob a marca das palavras gaudium, laetitia; ou seja, uma volta alegre, destemida, com coragem e ânimo; sem medo de falhar, de se enlamear no barro da história.

 Para alguns incrédulos, essa proposta de Francisco se aproxima do desafio que Jesus faz a Nicodemos, do qual recebe como resposta: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?” (Jo 3,4).Há mesmo quem aposte que no pós-Francisco tudo se acomode outra vez no lugar de sempre, dispensando a todos do esforço de nascer de novo.

Já vivemos um tempo onde o frescor da proposta do Reino, trazida por Jesus, foi forte e empolgante. Vivemos nesse clima nos primeiros anos do pós-Concílio Vaticano II. Essa tentativa de tirar o pó da Igreja, de renovar-lhe os ares, foi abafada e experimentamos nas últimas décadas não mais o frescor do Evangelho, mas o esborrifo de um spray paralisante, conhecido como projeto de restauração, que quer conduzir a Igreja com os olhos fixos no retrovisor da história.

 Francisco entra na história como aquele que tem de conduzir a Igreja imersa nos desafios da mudança sociocultural e tirá-la da reação de autodefesa, da opção pelo restauracionismo e da passividade generalizada do povo de Deus.

 Vencer os esquemas enfadonhos provocados pelo centralismo para inaugurar um tempo sem impedimentos nem receios. “Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (EG 49).

 Para assumirmos uma proposta arrojada de devolver à Igreja o frescor do Evangelho, nas palavras de um pastoralista, precisamos vencer três desafios: o da teologia do pano, que nos remete ao arcaico-fashion das passarelas dos grandes templos tão em voga; o da liturgia da fumaça, que nos sufoca com o seu odor nem tanto por causa dos incensos, mas do suor da prática excessiva de aeróbica nos templos e a pastoral dos prodígios, que reduz a fé à dimensão terapêutica,a religião de autoajuda, ou seja, de instrumentalizar Deus e a fé, colocando-os a serviço de nossa prosperidade e bem-estar.

 Voltar a Jesus e ao seu Evangelho, na proposta de Francisco, significa liberar a força do evangelho aprisionada pela crise religiosa, pela crise institucional; buscar o contato direto e imediato com o evangelho, acolher juntos a alegria do evangelho, entrar pelo caminho aberto por Jesus e ter a fé dele como estilo de vida. Assim, vai se tornando claro que entrar no seguimento de Jesus é assumir o seu projeto de instaurar o Reino de seu Pai.

 Restam-nos alguns questionamentos:

  • Como chrónos, o tempo de Francisco é curto. Terá ele colocado algumas balizas capazes de, não só abrir, mas rachar mesmo o que nos parece tão compacto da instituição, a ponto de o seu sucessor ter, pelo menos, dificuldade de voltar a guiar a Igreja com os pés no freio e os olhos no retrovisor?
  • Como kairós, será que as marcas de Francisco são suficientemente fortes e seguras para nos garantir frutos duradouros? Será que esse Kairós está sendo acolhido por nós como oportunidade da volta à Jesus e ao frescor do evangelho? A sua presença kairótica tem nos marcado e se tornado decisiva para nós hoje?
  • Como escathon, será que entendemos a urgência das mudanças iniciadas por Francisco? Podemos ajudar Francisco nesse ajuste de contas que ele deseja fazer, aproveitando a crise que a Instituição Igreja vive como escathon, tempo de dores e crises, mas também de fecundidade e vida?

Perpassando a história, podemos constatar que os processos eclesiais só sobrevivem quando se alicerçam na autoridade da verdade, quando as decisões têm o sabor das autênticas mediações da ação do Espírito, quando se tem por base o próprio Jesus e seu Evangelho. E, a meu ver, está aqui o segredo do sucesso do Papa Francisco. Que Deus nos ajude a abraçar os temas de Francisco e a viver com intensidade esse tempo de sua presença misericordiosa entre nós!


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