Com o Evangelho deste vigésimo nono domingo do tempo comum, Mateus 22,15-21, continuamos a acompanhar o conflito de Jesus nas dependências do templo com as autoridades de Jerusalém. Por sinal, os espaços considerados sagrados sempre foram hostis a Jesus; como tinham sido as sinagogas da Galileia, também foi o templo de Jerusalém. Percebemos pela leitura dos Evangelhos que Jesus de Nazaré nunca foi bem aceito pelas religiões. Tanto que, para o cristianismo ser aceito e imposto como religião oficial do império, foi necessário caricaturá-lo o máximo possível, dando-lhe características bem diferentes e improváveis para um pobre judeu da Galileia.

Ao contrário dos últimos três domingos, cujos interlocutores eram os sumos sacerdotes e os anciãos do povo, no Evangelho de hoje, são os discípulos dos fariseus e herodianos que questionam Jesus, armando-lhe uma cilada. Por sinal, o fato de os fariseus e herodianos estarem juntos é, por si, curioso, uma vez que eram grupos rivais que se toleravam entre si por mera conveniência. O curto ministério de Jesus em Jerusalém foi marcadamente conflituoso, uma vez que as autoridades religiosas, sobretudo, não aceitavam que alguém questionasse o status quo com tanta veemência como Ele.

Logo ao entrar na cidade, Jesus fez uma grande denúncia contra a situação em que se encontrava o templo: uma casa de oração transformada em covil de ladrões (cf. Mt 21,12-17), estendendo essa denúncia a todos os que mantinham a religião como instrumento de exploração e dominação, a casta sacerdotal e os anciãos do povo. A primeira seção dessa denúncia foi ilustrada por três ricas parábolas: 1) O pai, os dois filhos e a vinha em Mt 21,28-32; 2) Os vinhateiros homicidas em Mt 21,33-43; 3) A festa de casamento do filho do rei em Mt 22,1-14, que foram as parábolas refletidas nos últimos três domingos em nossa liturgia. Ao desmascarar o sistema religioso vigente, Jesus deixava claro o seu projeto de restituir ao Pai aquilo que o poder tinha roubado: a vida humana em todas as suas dimensões. Para isso, Ele proponha o Reino de Deus como única alternativa e realidade na qual a vida pudesse ser vivida em plenitude e abundância.

A proposta de Jesus soava absurda para a elite de Jerusalém, de modo que quanto mais Ele falava, mais essa elite se organizava para pôr fim à sua vida. Como as três parábolas citadas deixaram os chefes sem palavras, novos grupos entram em cena com o mesmo propósito: provocar em Jesus uma auto-condenação, armando-lhe ciladas. Dessa vez, foram os fariseus quem armaram a cilada, como atesta o texto: “Os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra” (v. 15). O plano consistia em colocar Jesus em situação constrangedora e, assim, acusá-lo publicamente. Queriam eles que o próprio Jesus entrasse em contradição e fosse publicamente desmoralizado.

Do plano à execução: “Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes” (v. 16a). A conveniência leva adversários a se unirem quando há um inimigo comum. Fariseus e herodianos eram grupos rivais, os quais conviviam por mera necessidade. Os herodianos constituíam o grupo de apoio público à dominação romana e reconheciam a divindade do imperador. Já os fariseus, como o mais devoto dos grupos religiosos judaicos, viam a dominação romana como um abomínio, por isso esperavam constantemente pelo envio de um Messias glorioso e guerreiro que ressuscitasse o reino davídico-salomônico. Mesmo assim, pagavam convenientemente todos os impostos exigidos por Roma para evitar o rótulo de rebeldes e subversivos, como os zelotes. Nesse plano de fariseus e herodianos, está uma antecipação do plano futuro que levará Jesus à morte: a religião e o império unidos para pôr fim a um personagem incômodo e indesejado, Jesus de Nazaré.

Como o plano era apanhar Jesus pela palavra, eis a investida: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências” (v. 16). Todas estas palavras elogiosas faziam parte do plano. São palavras que demonstram respeito, admiração e conhecimento da pessoa de Jesus, mas pronunciadas ironicamente por pessoas falsas e mal intencionadas. Se, de fato, reconhecessem Jesus como mestre, não estariam armando ciladas para Ele.

O falso elogio dos discípulos dos fariseus e partidários de Herodes era apenas um pretexto ou um passo a mais para chegarem ao golpe final, com a pergunta tendenciosa e maliciosa: “Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a César?” (v. 17). Era aqui onde eles queriam chegar, imaginando estar colocando Jesus em um beco sem saída. Ora, realmente, a situação era desfavorável para Jesus, pois Ele deveria opinar sobre um dos temas mais delicados para a vida cotidiana dos judeus da sua época.

Se Jesus respondesse que é lícito pagar imposto a César, estaria agradando aos herodianos e, consequentemente, sendo conivente com a dominação romana e seu sistema de exploração. Ao mesmo tempo, estaria ganhando a antipatia das multidões que até pouco tempo lhe tinham aclamado na entrada de Jerusalém (cf. Mt 21,1-11), passando a ser considerado um traidor do seu povo. Além disso, estaria reconhecendo o senhorio de César, ou seja, do imperador romano.

Se respondesse que não é lícito pagar o imposto, Ele estaria agradando aos fariseus e demais compatriotas judeus e, ao mesmo tempo, antecipando a sua condenação como um rebelde e subversivo político. Recusar pagar o imposto significava declarar guerra ao sistema dominante. O que seus adversários queriam era um motivo para condená-lo a partir da sua resposta: respondendo sim, seria condenado pelo povo e pela religião como traidor; respondendo não, seria preso e condenado imediatamente pelo império. Esse era um plano que parecia perfeito.

Exatamente por ser verdadeiro e não julgar pelas aparências (v. 16), Jesus não caiu na trama dos seus adversários e logo os repreendeu: “Jesus percebeu a maldade deles e disse: ‘Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?’” (v. 18). Nessa resposta, Jesus usa duas palavras para caracterizar os seus adversários: maldade e hipócritas. Isso quer dizer que os fariseus e herodianos, juntamente com os adversários da controvérsia anterior, eram pessoas más, falsas, dissimuladas, mascaradas e, por isso, não merecem credibilidade alguma.

De uma situação de desconforto, Jesus se sobressai e termina deixando seus adversários em maus lençóis: “Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda” (v. 19). Como estavam na área interna do templo, num espaço considerado sagrado, não era permitido circular ali com a moeda romana. Jesus começa a desmascará-los daí, e eles que tinham armado a cilada, são agora os que caem: na moeda romana havia a figura e os títulos do imperador com seu reconhecimento divino inscritos: “Tibério César, Augusto filho do divino Augusto, Sumo Sacerdote”. Considerando o primeiro mandamento da Lei de Deus, essa estava sendo transgredida pelos seus mais zelosos observantes, os fariseus.

Jesus, ao ver a moeda, perguntou-lhes: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” (v. 20). Eles não tinham outra resposta senão admitir: “De césar” (v. 21a). Certamente, ficaram desconcertados, talvez até arrependidos da pergunta, uma vez que a armadilha falhara. Como a pergunta tinha sido se era lícito ou não pagar o imposto, a resposta de Jesus vai muito além disso. Na luta por uma sociedade alternativa, denominada Reino de Deus, Jesus já tinha se posicionado diversas vezes contra a falsa “pax romana” e agora deixa ainda mais claro o seu posicionamento com a sua resposta: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (v. 21). O texto litúrgico erra ao empregar o verbo dar; na verdade, o verbo empregado no texto original é restituir ou devolver uma vez que a César nada deve ser dado. A resposta de Jesus parece complexa, à primeira vista, e fácil de ser distorcida, como foi por muito tempo e continua sendo.

Jesus não estabeleceu duas esferas de poder, uma temporal e outra espiritual, nem traçou a harmonia das relações entre estado e igreja, como muito se tem interpretado a partir dessa afirmação. A ordem para devolver a César o que lhe pertence consiste em abandonar tudo o que não condiz com o Reino. Nesse sentido, o imposto passa a ser apenas um aspecto de uma realidade muito mais ampla e complexa. É necessário deixar de compactuar com a lógica imperial de um modo geral. Isso exige uma consciência nova e uma atitude vigilante constante. É necessário construir uma nova sociedade a partir de perspectiva e lógica diferentes, substituindo o poder pelo serviço. Devolver a César o que é dele exige um esforço da comunidade, a começar por uma autocrítica. Muitas lideranças religiosas tem combatido o poder de César para assumir o seu lugar. Essa mentalidade estava presente em alguns dos primeiros discípulos, na comunidade de Mateus e tem estado ao longo da história, infelizmente.

Devolver a Deus o que lhe pertence é restituir o ser humano, imagem única de Deus, à sua dignidade originária. A religião e o império romano tinham roubado o que Deus fez de melhor: o ser humano, transformado em produto pela combinação dos poderes político-econômico-religioso. A mercantilização do ser humano fere e nega a sua dignidade. Esse foi um problema denunciado pelos profetas desde os tempos de Amós, o qual denunciou que o ser humano tinha se tornado um produto comprado ou vendido por um par de sandálias (cf. Am 2,6; 8,6). Esse ser humano, que é imagem de Deus, tem que ser devolvido ao próprio Deus; a moeda com a figura de César seja restituída a ele.

A opção pelo Reino apresentada por Jesus torna-se cada vez mais exigente, à medida que a sua vida vai sendo ameaçada. Longe de ser uma via conciliatória entre duas realidades, a frase imperativa de Jesus é um convite à reflexão e a uma tomada de posição!


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