Ao se falar em novo paradigma catequético, certamente o pensamento voa logo para o campo pedagógico da catequese. O ato catequético é o exercício da comunicação da fé, da transmissão da fé apostólica recebida, do testemunho da experiência cristã de Deus, que se dá por meio do anúncio da transformadora palavra do evangelho.

Como comunicar essa fé? Como transmiti-la? Como testemunhar a experiência do encontro com Jesus Cristo Ressuscitado que transformou nossas vidas? Como ajudar alguém a se abrir para experimentar a força do evangelho que faz viver, que ressignifica toda a existência da gente? Certamente há várias pedagogias que são capazes de levar ao conhecimento. Mas o conhecimento de Deus pode ser favorecido por qualquer caminho pedagógico?

A fé cristã, que a catequese comunica, se sustenta no princípio da revelação. Entendemos que não somos nós que, por nossa força e capacidade, conhecemos a Deus, mas – ao contrário – estamos convictos que Deus mesmo, na sua bondade, se autocomunica, se revela, entra em relação conosco. Se é assim, seria estranho enclausurar Deus em nossas pedagogias, como se ele só conhecesse um caminho e só pudesse se dar a nós por uma via, por meio de uma didática ou metodologia. Deus, de mil caminhos e de mil maneiras, se dá a nós.

Se essa é nossa alegria, é conveniente também lembrar que, apesar dessa liberdade de ação de Deus, há caminhos catequéticos mais oportunos que outros para comunicar a fé. O Diretório Geral da Catequese fala que há uma “pedagogia original da fé”, uma pedagogia que favorece sobremaneira essa experiência. Logo, nem toda pedagogia favorece a comunicação da boa-nova que é o mistério pascal. Por ser algo bem maior que nós e que nos envolve, o mistério não cabe em nossa compreensão. Nenhuma formulação dá conta de dizê-lo; nenhuma definição dogmática dá conta de esgotá-lo. Tal é o amor de Deus e sua manifestação entre os homens – seus amados – que toda tentativa epistemológica fica sempre devedora do tamanho desse mistério. Eis porque a transmissão da fé exige algo mais que um caminho que faça a gente entender ou decorar a verdade, ou até mesmo construir a partir de nossa experiência uma compreensão de Deus. O mistério da fé exige uma pedagogia que favorece o encontro com Deus, bem mais que o conhecimento ou a compreensão de verdades e dogmas. Deus age em nós “desde dentro”, lá no mais íntimo de nós, onde ele habita, onde fez morada na nossa carne. A relação com Deus passa muito mais pelas vias do amor, da entrega, da doação de si, que pelas vias cognitivas, da compreensão, da explicação, da apreensão de conteúdos. A catequese – se quer de fato comunicar Deus e não apenas ensinar verdades sobre ele – deve redescobrir essa “pedagogia original da fé”, perdida no tempo da história. Trata-se da pedagogia da iniciação, um modo testemunhal de comunicar a fé, que favorece a acolhida do Ressuscitado desde o coração.

Continuaremos a falar sobre essas pedagogias nos próximos artigos.


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