Uma questão que faz pensar na Igreja Católica é o seu estilo de governo. Alguns, na intenção de criticá-la, classificam sua organização como monárquica piramidal: papa, bispos, padres, povo em geral. Não deixa de ter um tom de realismo essa crítica, pois, se a Igreja não é de fato uma monarquia sagrada, a práxis católica que se impôs nos últimos tempos também não é a de uma democracia.

De fato, o governo católico não é democrático e nem monárquico, e isso parece bem assumido por toda a organização da Igreja. Como, então, dizer esse governo?

Para melhor compreensão, as categorias de comunidade, colegialidade e presidência, adotadas desde os primórdios da Igreja, ajudam a superar limites. Esses três níveis de estrutura estão presentes na prática governamental da Igreja Católica, ora realçando mais uma que a outra.

O Novo Testamento traz como marca eclesial fundamental a vida comunitária, na qual todos os fiéis se sentem parte e com a qual todos se comprometem. Vão surgindo lideranças, mas há espaço para novas iniciativas de todo o povo de fé. Ao longo da história, essa forma de governo foi testemunhada por personagens importantes da Patrística, como Cipriano de Cartago, Agostinho etc. A comunidade era reconhecida como aquela capaz de discernir os elementos da fé, sensus fidelium, pois a Palavra de Deus fora confiada a um povo e não a alguns poucos escolhidos. Tendo ficado esquecida por algum tempo, essa prática foi um elemento eclesial importante para o Concílio Vaticano II, que insistiu na Igreja povo de Deus, comunhão e participação. A partir desse evento, começam a pulular os debates eclesiais os organismos de participação, os sínodos, etc. Surge uma nova linguagem eclesial e, dela, uma prática, ainda que incipiente, de valoração da participação comunitária.

Outro nível fundamental do governo da Igreja é a colegialidade. A colegialidade surge da antiga prática do ministério episcopal, exercida em comunhão com outros membros do episcopado. O ministério episcopal, desde suas origens, não foi compreendido como algo solitário, mas como comunhão. A Tradição testemunha essa prática milenar da Igreja por meio da sinodalidade – reunião de bispos de uma região com desejo de legislar algo importante para a fé, naquele âmbito eclesial – e também dos patriarcados. Com o Vaticano II, há uma redescoberta da colegialidade e novas iniciativas vão surgindo depois desse Concílio.

Por fim, a última dimensão, a presidência, tem papel fundamental, podendo ser encontrada em todos os níveis da vida eclesial: Paróquia, Diocese e Igreja Universal. A Escritura testemunha o papel de alguns membros como líderes do grupo, como é o caso de Tiago à frente da Igreja de Jerusalém, de Paulo das comunidades por ele fundadas etc. Essa prática prolongou-se por toda a história da fé católica, dando especial destaque à autoridade do bispo de Roma e seu papel em relação às demais Igrejas. Mais uma vez, o Vaticano II vai ser importante para corrigir alguns excessos ao longo do caminho e propor novas pistas para reflexão. Mas a recepção do Concílio ainda não trouxe coesão nessa compreensão. Está aberto o espaço para o debate teológico em torno da questão do governo da Igreja, especialmente no que diz respeito ao Primado de Pedro, ponto tão fundamental para um frutuoso diálogo ecumênico.


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