“Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice;
contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42)

 

“Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Pois metade de mim é o que eu grito.
A outra metade é silêncio.”
(Osvaldo Montenegro)

 

Cada dia que passa, aumentam as incertezas em relação ao futuro da humanidade. A pandemia colocou nossas certezas em xeque. Não somos tão robustos quanto pensávamos. Um ser invisível, com um golpe só, nos colocou a nocaute. Um voto errado depositado nas urnas fez sangrar o país. E assim, as angústias no Brasil ganharam dimensões exponenciais: corrupção, violência, descaso com os pobres e com a natureza, nenhum controle da pandemia, sociopatas no poder… A gente fica desalentada e amedrontada a cada notícia que nos chega.

Nossa vergonha se torna exposta ao mundo, que se pergunta que rumos o Brasil tomou e como chegamos a esse ponto. A pandemia põe a claro nossos pecados mais graves: desigualdade social e injustiças gritantes de uma elite podre, preconceituosa, racista, homofóbica e sem nenhum pudor. Os escândalos vão desde o direito torto de prisão domiciliar de Queiroz, aquele do Filho 01, e de Márcia, a esposa foragida, até a humilhação e a violência sofridas pelos motoboys, coincidentemente ambos de nome Mateus.

Tudo isso vira manchete internacional. Mas como se não bastasse, sempre há espaço para um pouco mais de crueldade e uma dose a mais de autoritarismo. O governador Zema, em Minas Gerais, desapropria o assentamento do quilombo Campo Grande, na cidade de Campo do Meio, há vinte anos estabelecido no local. Ex-funcionários de uma usina que foi à falência, desempregados e sem nenhuma indenização, se organizam na propriedade abandonada, plantam, colhem, educam seus filhos, vivem em paz. Até que aquele que nunca teve coragem para peitar a Vale e punir os crimes de Mariana e Brumadinho manda a polícia enfrentar os pobres agricultores, pretos e semianalfabetos do quilombo. Saldo da noite do horror: escola destruída, casas derrubadas, gente ferida, pertences conquistados com o trabalho digno são amontoados como lixo… A força da polícia contra os fracos se mostra facilmente. Queria ver é essa mesma corporação enfrentar os poderosos, opressores e malvados, que se apropriam de áreas de preservação ambiental para construir suas mansões.

“Um pouco mais de vergonha”, por favor. Gritam os perversos da classe média. “Temos sede de poder e fome de humilhar os pequenos. Precisamos mostrar quem está no comando!”. É aí que chega, escandalosa e absurda, a notícia de que o artista plástico, mundialmente conhecido, Romero Brito, teria ido a um restaurante em Miami e fizera escândalo humilhando os funcionários da casa. Fato ou boato, não sei. Deixamos a ele o benefício da dúvida. Numa alquimia inexplicável, a junção de três raças, produziu uma genética brasileira passiva e resiliente, capaz de suportar humilhações e abusos sem reagir. Mas, para maior glória de Deus, que é o G’oel dos pobres, nem todo mundo tem o sangue de barata dos brasileiros. Assim, assistimos uma latina fazendo o gesto profético da semana. Tendo comprado uma peça cara do artista, quebrou-a na sua frente e berrou: “Nunca mais vá a um restaurante meu e ofenda um funcionário meu, nunca mais”. A cena inusitada correu mundo, virou meme, tornou-se notícia. Não houve um brasileiro de bom senso que, esgotado com os abusos que vem sofrendo, não tenha se sentido liberto da opressão e motivado a também reagir.

O conformismo do povo brasileiro chega às raias da maldição. E a fé cristã tem sua parcela de culpa nisso tudo. Nossa pregação colaborou para esse pacifismo torto, que se tornou nossa marca registrada. A condição de subalternidade foi justificada pela fé, mostrada como vontade de Deus e entendida como virtude. A entrega de Jesus nas mãos do Pai ganhou contornos de conformismo com a vontade de um deus mau e cruel, que mata seu próprio filho. A vida revolucionária do Galileu foi omitida das pregações e sua morte como sinal de resistência aos injustos sistemas religioso e político nunca foi propalada.

Infelizmente, a piedade cristã forjou fracos, gente sem elã e sem consciência de seu valor. Os sofrimentos da vida foram entendidos como a cruz necessária para seguir Jesus e a vontade de Deus foi assimilada como uma destinação prévia e fixa, que descarta a liberdade humana, uma espécie de destino do qual não se deve esquivar. Acontece isso: “foi Deus quem quis assim”. Acontece aquilo: “é preciso dizer sim à vontade de Deus”. E assim vamos de humilhação em humilhação, vendo nossos direitos subtraídos pelos malvados. Um deus indigno de nossa fé, um ídolo criado pelos poderosos, contribui para a opressão dos vulneráveis, enquanto o Deus de Jesus Cristo, o Deus da vida plena, é domesticado nos altares dos conservadores.

Precisamos reaprender a fé. Reaprender a rezar. Rezar a revolta e não a paz. Rezar a indignação e não o conformismo. Rezar a luta e não a paz resignada dos vencidos. Uma reza capaz de quebrar as cadeias da inocência para eclodir a sagacidade dos inconformados. Toda vez que escuto os versos de Merces Sosa, peço a graça de rezar do mesmo modo: “Eu só peço a Deus que a guerra não me seja indiferente. É um monstro grande e pisa forte. Toda a pobre inocência da gente”. É um monstro grande e pisa forte. Toda a pobre inocência da gente. Às vezes, a arte nos faz rezar mais que as orações católicas: “Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca”, é a prece de Osvaldo Montenegro.

Ainda bem que nem todos fizeram pacto com os ídolos. Nem todos são indiferentes ao sofrimento alheio. Nem todos são ingenuamente omissos. Nem todos deixaram o medo calar seus anseios. Nessa semana em que nos despedimos de Pedro Casaldáliga, bispo da Igreja, perdemos a figura de um homem de Deus, mas herdamos um legado infinito: o legado da coragem audaciosa. “Malditas todas as cercas”, escreveu o poeta. Sangue nas veias nunca faltou a esse profeta. Cantou a esperança resistente e a paz inquieta. Defendeu os esquecidos da sociedade: índios, quilombolas, pequenos agricultores, ribeirinhos, posseiros… Amou aqueles que o mundo descarta; fez deles a razão de seu ministério.

As fotos de seu funeral impressionam. Pedro segue para o abraço final da mãe terra carregado pelos índios xavantes; seu esquife na Igreja dos mártires foi depositado numa canoa do Araguaia, rio que defendeu e amou; a bandeira do MST – vermelha como o sangue dos mártires – foi depositada sobre seu túmulo; por fim, seu corpo inerte foi deitado no solo, debaixo de uma árvore à beira do rio, num túmulo de terra.

O líder cristão, pobre e abnegado, recebe as últimas homenagens. Os índios choram convulsivamente a perda do pai; as rezadeiras e os membros das CEBs entoam suas ladainhas e canções; os posseiros e agricultores lançam na terra suas sementes em despedida ao bom semeador; o embaixador da Espanha canta, sem medo do ridículo, um hino para seu conterrâneo; os bispos ficam impactados pela perda do menor dos irmãos e o Brasil inteiro chora a perda do último profeta. Exemplo de resistência, Pedro lutou até o fim, seja contra a própria morte, decretada pelo Parkinson, ou contra a morte dos seus amados, declarada pela crueldade dos poderosos. Lá se foi Pedro, deixando seu legado para quem ainda tem brios na cara e/ou para os que conhecem o legado de Jesus. Certo é que, até depois de morto, Pedro nos incomoda, nos desinstala. Seu corpo inerte no caixão, sem flores nos questiona acerca do Deus a quem seguimos. A bíblia a seus pés nos faz pensar se nossos pés revelam a beleza dos mensageiros da boa nova. A cruz de madeira feita pelos índios nos faz repensar a kênose própria dos seguidores de Jesus de Nazaré. E, por fim, o anel de tucum coloca em xeque nossa aliança com o Deus da vida.

O Deus da paz inquieta, a quem Pedro tanto amou, nunca foi o ídolo da conformidade, do silêncio, da subserviência ou da aliança com os grandes. Enfrentou governantes, jagunços e até a liderança da Igreja. Não usou outra arma além da fé e das palavras proféticas carregadas de poesia. Nem renda, nem ouro, nem títulos, nem reverência alguma aceitou Pedro. O subversivo de Deus morre nos ensinando que a vida segue na vontade de Deus – que é a glória da humanidade e não a sujeição dos pequenos aos malvados. Convida-nos a quebrar as “obras de arte” de todo opressor e a dar um forte grito de libertação. Essas peças sociais não são arte, muito menos obra, pois seus artífices nunca trabalharam dignamente para realizá-las. São privilégios herdados desde muito tempo, alicerçados sobre a morte de milhões. São apenas meios de enriquecimento, cuja fortuna foi construída exaurindo os frágeis. Tomara que os pobres do Brasil, movidos pelo espírito de Pedro, comecem a quebrar o silêncio dos inocentes e os símbolos de opressão, tão numerosos em nossa sociedade!


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