Ouvindo, ouvireis, mas não entendereis;
vendo, vereis, mas não conhecereis” (Is 6,9)

“Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem”
(Carlos Drummond de Andrade)

Na semana passada, vimos nas redes sociais, nos jornais e nos noticiários televisivos, a triste realidade das avenidas e bares do Rio de Janeiro, lotadas de gente branca da classe média, se rejubilando de não respeitar nada nem ninguém. Para quem conhece a história escravocrata da população brasileira, que sempre foi considerada a senzala da classe média, não houve surpresa; houve estupor. O estupor é diferente da surpresa. Fica surpreendido quem se depara com uma situação inusitada, que irrompe sem fazer alarde, que pega desprevenido. Fica estupefato aquele que presencia algo que supera o já esperado, conseguindo ser ainda mais que o planejado: mais triste, mais alegre, mais engraçado, mais horripilante, mais patético, mais monstruoso etc.As ruas cheias do Leblon em plena pandemia, com rapazes e moças bem nascidos, bem vestidos, bem apessoados, bem aparentados, mas malcriados, deixou as pessoas comuns estupefatas, mas não surpresas.

Circulou nas redes também um vídeo do velho Chico Buarque, defensor da liberdade e dos direitos humanos desde a ditadura, declamando uma pérola do mineiro Drummond, “Inocentes do Leblon”. Imagens do isolamento zero dos homens e das mulheres de bem do Leblon são colocadas lado a lado com cenas estarrecedoras de valas comuns nos cemitérios de Manaus, de hospitais lotados, de profissionais da saúde exauridos e de muitas lágrimas roladas por aqueles que perderam seus familiares e amigos na batalha contra o vírus. À voz grave e profética de Chico, opõe-se uma voz esganiçada e irônica de uma jovem sem rosto que escarnece da pandemia mostrando com seu vídeo os jovens inocentes que burlavam a lei que obriga a usar máscara em ambientes públicos. Em seguida, um rapaz manda a pandemia e o uso de máscaras ir para um lugar estranho, mas muito conhecido do presente da república e de seus ministros, pois apareceu inúmeras vezes na reunião ministerial que veio a público num passado bem recente. Infelizmente, minha educação – ou falta dela –não me permite dizê-la, pois não faço parte nem dos inocentes do Leblon, nem inocentes do planalto; sou do grupo dos culpados.

Declaro-me culpada, como toda minha gente. Venho de cidade pequena, família pobre, onde trabalhar era digno e cuidar do outro era a única condição para ser gente. Não era permitido perseguir os loucos, fazer chacota dos tolos, humilhar os fracos, rir da desgraça alheia, nem ignorar o sofrimento dos desesperados, essas coisas tolas que os inocentes do Leblon desconhecem. Para ser gente na minha terra, em primeiro lugar, era preciso reconhecer que o outro é humano, independente da posição social, do nível cultural ou do tamanho da conta bancária.

Minha terra não tem nada a ver com o Leblon, e as pessoas de lá são amigas dos favelados da Rocinha e de outros aglomerados. São confidentes dos quilombolas, pesados em arroba pelo tal presidente do Brasil. São irmãos dos índios da Amazônia, a quem nenhum palmo de terra deve ser garantido. Quem nasce na minha terra é parente próximo das mulheres estupradas, sempre culpadas porque estavam usando roupas indecentes ou dando mole nas ruas. É também primo e tio dos travestis, homossexuais e transexuais, cuja carne perversa atrai maldições para a Terra. Na minha terra, somos parentes dos bandidos do Brasil, os que vivem encarcerados nos presídios e são torturados pela polícia, já que o ídolo do presidente é um torturador e ele julga que o Brasil é a favor da tortura.

O povo da minha terra não é parente de Sari Côrtes Real, primeira dama de Tamandaré (PE), nem da primeira dama do estado de São Paulo, Bia Dória, ambas brancas e alvas, inocentes como os jovens do Leblon e não imundas como os moradores da Cracolândia que escolheram morar na rua, nem são pretas e esquisitas como o menino Miguel. O povo de minha terra não tem parentesco com essas branquelas, pois a pele escura de minha gente denuncia sua própria sujeira e sua culpa. Também não é da mesma casta do advogado Fred Wassef e do laranja Queiroz. Esses queridinhos do Brasil são amigos íntimos dos inocentes do Leblon, e inocência é seu sobrenome. Já pensei que minha gente pudesse ser parente do Zero Um, do Zero Dois e do Zero Três da familícia, mas também não são. Esses não têm nome, têm apenas foro privilegiado, palavra que minha gente não conhece. Minha gente, ao contrário, tem nome, sobrenome, CPF, RG, inscrição no SPC e número na polícia.

Pensei também que a gente da minha terra pudesse ser parente ou ter alguma amizade com os pastores das Igrejas que comercializam a fé. Esses sabem vender milagres, curas, exorcismos e prosperidade, assim como água benta do Jordão, poeira da Terra Santa, vassoura que limpa pecado e toalha com sangue ungido do pastor. Mas nada! Coitada da gente da minha terra! Não sabe vender nada e nada entende de relações comerciais. Sabe apenas repartir o pouco que ganha com o seu trabalho duro, porque é maldita como o primeiro Adão, que deveria lavrar a terra para comer o pão com o suor do próprio rosto. Minha gente é culpada e, por isso, deve enfrentar o trabalho e a morte, que é o seu salário. Bem que eu desconfiava que essa minha gente, que morre com covid 19, tem culpa no cartório. Não são pessoas inocentes. São amaldiçoadas pelo Deus branco, que amou os brancos e lhes fez prosperar. São excomungados pelo deus poderoso, que não se compadece dos fracos. São homens e mulheres que trazem a culpa horrenda de terem nascido negros, pobres, feios, sem pai, nem mãe, sem lar… 

Quem me dera eu e minha gente tivéssemos a sorte de ser imortais, como os jovens do Leblon! Mas não. Na nossa fragilidade índia, negra e mestiça, estamos aptos a contrair o vírus e a morrer na pandemia. Por isso, nos isolamos em nossas casas, cobrimos o rosto com máscaras e lavamos nossas mãos imundas sem parar. Mas não adianta. Continuamos a morrer. Mas a culpa não é dos inocentes do Leblon, que passam aquele óleo suave nas costas. Aliás, seria esse óleo a garantia da imunidade desses deuses? Talvez…

Minha gente, eu consigo entender. Mas essa classe média imortal, devo admitir que não posso compreendê-la. Nem o óleo, nem a areia quente, nenhuma pista me mostra porque motivo essa gente de bem não viu o navio da pandemia se atracar nas praias do Brasil. Nada explica a cegueira dessa juventude, mas arrisco um palpite: são pessoas moralmente perversas, intelectualmente estúpidas e economicamente “metidas a besta”. Ah, Drummond, e Chico, me ajudem! O que fazer? São os inocentes do Leblon!


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