“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? (Mt 27,46)

 

“Órfãos do sonho Brasil, catem os restos nas sobras da vida,
Nas cinzas da esperança, as brasas da chama que nunca apagou.
Venho inventar um novo país, colar pedaços de sonhos de amor.
Anjos, arcanjos, espadas de fogo nos levem de volta aos portões do paraíso”
(Marcus Viana)

 

Seguimos vivenciando a inédita experiência de celebrar a fé cristã, com nossos templos físicos fechados mas formando uma grande Igreja, espalhada em cada casa, em cada lar. Apesar das inúmeras dificuldades, essa experiência tem sido bastante enriquecedora, pois nos obriga a reinventar a pastoral, a liturgia etc. Quando se está atento à voz de Deus e aos seus sinais, logo se descobre um novo jeito de ser Igreja em tempos de isolamento social. 

Os dias passam muito rapidamente. Já completamos três meses com as restrições que a pandemia da covid-19 impôs. Em meio a incertezas e angústias, aquele que crê no Deus de Jesus Cristo sabe que não está abandonado apesar de, muitas vezes,se sentir sozinho. Sentimo-nos meio órfãos, pois o isolamento social nos priva do contato caloroso com amigos e familiares. Esse sentimento de orfandade é doloroso, mas é legítimo. Até Jesus se sentiu abandonado na hora da cruz e disse: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27,46). Também nós nos sentimos desamparados por Deus, embora, estejamos sempre na palma de suas divinas mãos. Mas, essa carência nos persegue e nos amedronta a vida toda.

O autor da Primeira Carta de Pedro nos exorta a estar sempre prontos a dar a razão de nossa esperança (1PD 3,15). Assim, podemos então nos perguntar: Como é possível viver de esperança e dar as razões da nossa esperança num tempo em que tudo convida à desesperança?

Esse sentimento de orfandade perpassado de esperança só é possível pela fé.  Marcus Viana, na canção Órfãos do paraíso, canta: “Órfãos do sonho Brasil/ Catem os restos nas sobras da vida/ Nas cinzas das esperança/ As brasas da chama/ Que nunca apagou/ Venho inventar um novo país/ Colar pedaços de sonhos de amor/ Anjos, arcanjos, espadas de fogo nos levem de volta aos portões do paraíso”.

Sim, o poeta mineiro tem razão. Somos órfãos de nossos próprios sonhos. Desamparados pelo mundo, perdidos, sem saber aonde ir ou a quem recorrer. Mas, mesmo diante de toda essa desilusão, ainda podemos fazer duas coisas: catar e colar.

É preciso “catar os restos nas sobras da vida”. Catar significa buscar com insistência, recolher atentamente. Quando nos dispomos a ser catadores,a paciência é fundamental. Na pressa, não conseguimos fazer boa catação. Se estivermos apressados quando catamos feijão por exemplo, não fazemos um bom trabalho, pois podemos não perceber pedras e outras impurezas distribuídas no meio dos deliciosos grãos.  “Catar” é o que fazem os trabalhadores humildes da reciclagem. Das sobras da vida de outrem, o catador tira o seu sustento. O que é apenas um resto para muita gente se transforma em algo essencial para outras pessoas.

Certamente, ao longo de todos esses dias de isolamento social, já tivemos várias oportunidades de repensar o que é supérfluo e o que é necessário. Vivendo a mística do “catar os restos”, lá vamos  nós percebendo o que deixamos de lado e o que acumulamos, sem necessidade. Lamentavelmente, somos levados pelo momento. Guardamos coisas que não são tão importantes e jogamos no lixo muitos tesouros. Por isso, é preciso ter a paciência de olhar devagar para cada coisa, para não corrermos o risco de jogar fora o essencial.

Em tempos de pandemia, temos tido tempo para a necessária tarefa de “catar restos nas sobras da vida”. Acumulamos muita coisa desnecessária em nossa casa e em nossa vida. O que estamos catando? Sonhos, frustrações, desilusões, alegrias, memórias, histórias, raiva, ressentimento, amizades, amores?É preciso separa o joio do trigo ou os grãos das impurezas. E, depois, não basta catar e simplesmente guardar numa gaveta. Dos restos catados da vida, dá para fazer muita beleza. Lembremo-nos de Artur Bispo do Rosário, artista que fez dos recicláveis verdadeiras obras de arte.

É o que aponta a canção de Marcus Viana. Depois de catar, é preciso “colar os pedaços de sonhos de amor”. Nossa missão é colar os pedaços que ainda prestam, ajuntar aquilo que pode ser útil, reciclar. A nossa vida pode ser sempre reciclada e reconstruída. Para a fé, isso se chama esperança. De esperança em esperança, a vida se faz e se refaz a todo instante. Já a ciência, chama isso de transformação e aqui, podemos recordar da lei de Lavoisier: “Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

Professar a fé cristã é acreditar que nada se perde. Tudo pode ser transformado pelo imenso amor de Cristo. Deus transforma a nossa orfandade, em filiação. Transforma a desilusão, em esperança. Transforma o doloroso tempo de quarentena em tempo fértil e fecundo de exercício da fraternidade. No seu imenso amor, ele nos ajuda na árdua tarefa de ir ajuntar os cacos da existência e colar, fazendo ao final uma preciosa obra.

Viver a fé nesses tempos de templos fechados é conservar no coração a esperança de que Deus sempre recicla e transforma a nossa vida e a nossa história, como o oleiro faz com o barro (Ez 18,1-6). Deus transforma nossa vida de angústias e incertezas em pequenas atitudes de amor e presença, mesmo com o distanciamento social. Não podemos perder a esperança! Não estamos órfãos! Jesus está conosco e enche de esperança o nosso coração. Sua graça nos ajuda a viver os nossos dias, “catando os restos nas sobras da vida” para “colar pedaços de sonhos de amor”.


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