“Porque tive fome e me destes de comer;
tive sede e me destes de beber;
era pere­grino e me acolhestes;”
(Mateus 25,35)

 

“O verdadeiro cristianismo rejeita a ideia
de que uns nascem pobres e outros ricos,
e que os pobres devem atribuir
a sua pobreza à vontade de Deus”
(Dom Hélder Câmara)

 

Temos vivido tempos de desencanto.  Nas ruas, o nosso povo padece faminto. Jogados nas calçadas, velados apenas pelo céu estrelado, os moradores de rua mendigam uma esmola ou dormem embrulhados em cobertores de jornais que trazem, em letras garrafais, os registros exorbitantes dos lucros dos banqueiros e dos megaempresários. Abandonados à própria sorte, passam pela existência sem a possibilidade de uma vida digna.

Em outros ambientes, nossos irmãos buscam na lixeira o alimento de cada dia, misturando seu suor e seus sonhos ao chorume do lixo. Vivendo no subemprego e sobrecarregados de impostos, veem todos os dias a fome bater à porta e, no meio de tudo isso, nos perguntamos:“Onde está Deus? Teria nos abandonado? Teria esquecido o seu povo? Acaso não se importa como o nosso sofrimento?”.

Em meio às agitações da vida, não raro nos sentimos ameaçados e amedrontados. Recordemos o medo e as dúvidas dos discípulos de Jesus, quando se encontravam em meio à tormenta no mar. Ondas sacudindo a barca; água entrando no barquinho; chuva, raios e trovões fazendo tremer as bases até pescadores mais experientes. Grande foi o medo e o pavor da morte lhes era íntimo. Com suas vidas em risco,restava buscar o apoio do Mestre de Nazaré, que dormia sossegado na proa da embarcação. Só ele poderia lhes ajudar a atravessar a crise. Só ele poderia acalmar a tempestadee devolver-lhes a tranquilidade.Na hora do aperto, nem sequer conseguiram rezar. Apenas esboçaram uma reprimenda: “Acaso não se importa que pereçamos, Senhor?”.

O relato da tempestade acalmada é metáfora clara da situação humana ameaçada pelos perigos do existir. Viver é coisa frágil, perigosa, desafiante. Em ocasiões de perigo e dor, somos tendenciosos a culpabilizarDeus e a esperar dele soluções mágicas. Esperamos que , num estalar de dedos, ele intervenha na história e resolva tudo aquilo que nos furta a paz e a tranquilidade. Tiramos dos nossos ombros a responsabilidade sobre o modo de vida que escolhemos viver, sobre o modelo de sociedade que – de alguma forma – ajudamos a construir. Fechamos os olhos para o modelo mercadológico capitalista e devorador que perversamente escolhe aqueles que devem comer e aqueles que devem passar fome.

Diante dessa situação, a resposta de Jesus é clara: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9,13). A ordem é clara; não falta comida, falta apenas a solidariedade que leve à partilha. Como dom de Deus, recebemos o planeta Terra, nossa casa comum. O mundo produz atualmente cerca de 2,5 bilhões de toneladas de grãos. É mais do que o necessário para atender a demanda global, mas, mesmo assim, tem quase um bilhão de cidadãos passando fome, mundo afora.

É inadmissível o fato de que 1% da população mundial detenha mais de 80 % das riquezas e que os 99% restante tenham que sobreviver com os menos de 20% que restam. Infelizmente aqueles que decidem falar sobre isso logo são tachados de revolucionários, de loucos, de comunistas. Como bem apontou Dom Helder Câmara “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”

A acusação leviana continua. Para evitar a discussão sobre a necessária fraternidade que põe comida na mesa de todos, focamos em modelos políticos rotulados como vilões da história. Com desculpa de comunismo, nos furtamos da tarefa de combater a ganância e de construir um reino irmãos. Acusam-nos de fazer política partidária desde o interior das igrejas. Alimentar os que passam fome, vestir os que estão nus e promover a dignidade é tarefa cristã. É missão dada por Cristo a cada um de nós, seus seguidores. Seguir seus ensinamentos praticando o bem, auxiliando os necessitados e favorecendo a construção de meios para que todos possam viver com dignidade é a missão dos cristãos. Nesses tempos de pandemia, em que nossa sociedade vê estampada as injustiças sociais, alimentar os pobres e cobrir-lhes a nudez não é comunismo. É o compromisso ético da fé crista sendo levado a sério. Mas mais importante ainda é criar políticas públicas que garantirão investimentos no campo social. Se ao sair as ruas, com minha pequena contribuição, alimento um faminto ou aqueço alguém que sente frio, com minha postura clara de apoio a essas políticas alimento milhares ou milhões. Ficou ainda mais visível em tempos da covid-19 a força das urnas. Um péssimo governante, alguém que se deixa guiar pela estupidez, fica com as mãos manchadas de sangue. O mesmo sangue respinga também nas mãos daqueles que o elegeram. Não tem álcool em gel que desinfete as mãos de quem apoiou um sujeito desses.


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