É tarefa quase impossível resumir o Primeiro Livro de Isaías (Is 1–39) em uma ou duas laudas. Corremos o risco de simplificar obra tão densa e não fazer justiça aos escritos do profeta. Desde que começamos essa coluna “Livros Bíblicos”, nossa proposta foi apenas oferecer uma singela chave de leitura para cada livro. Para os livros menores, essa tarefa é bem mais fácil. Para os grandes livros, o problema se multiplica. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo. O que oferecemos é uma ajuda, de forma que o leitor iniciante que se aventura a ler as Escrituras encontra aqui uma espécie de sinalização para não se perder ao longo do caminho.

Isaías viveu no século VIII a.C. e foi conselheiro de alguns reis da dinastia de Davi. Sua atividade teve início em 740 a.C., com o rei Ozias, continuando com Acaz e depois com Ezequias. Sua palavra abrange temas diversos, mas sua insistência maior é no anúncio da salvação de Deus. Para o Primeiro Isaías, Deus nunca desamparou seu povo, e prova disso é que ele não deixou a casa de Davi sem uma descendência (cf. Is 7,14).

Durante a atuação do profeta, sempre no Reino do Sul – capital Jerusalém –, Judá passou por muitos perigos, principalmente em relação ao grande império da Assíria que, em 722, atacou e dominou o Reino do Norte, Israel. Isaías foi uma espécie de conselheiro dos reis, ajudando-os a discernir os caminhos a serem trilhados. É nesse contexto que ganha vigor o anúncio confiante do profeta. Ele mostra as debilidades de Judá, desde a idolatria (cf. Is 1,21-31) até o culto vazio e sem sentido (cf. Is 1,10-17), advertindo reis e toda a população e se voltar para o Senhor, capaz de purificá-los de seus pecados (cf. Is 1,18-19).

Mesmo com todos os seus erros, Jerusalém continuará contando com o apoio do Senhor (cf. Is 2,1-5). No terrível dia do Senhor (cf. Is 2,6-22), quando justos receberão a recompensa e injustos o castigo (cf. Is 6,10-11), Deus vai salvar um resto de Judá que o busca (cf. Is 4,2-6), servindo-lhe de tenda e abrigo contra toda desgraça. Não faltam da parte do profeta, diversas advertências aos malvados (cf. Is 5,8-25; 10,1-34), convocando-os à conversão.

Para garantir ao povo seu favor benevolente, Deus anuncia a vinda do messias, o Emanuel, o Deus-conosco, aquele cuja presença revela que Deus não desampara Jerusalém (cf. Is 7,10-16). Enquanto a Samaria (Reino do Norte) estava sendo saqueada e dominada pela Assíria (cf. Is 8,18), Jerusalém suportava de pé os ataques. Não era aconselhável desesperar diante do perigo, mas sim confiar no Senhor, cuja luz podia iluminar toda treva (cf. Is 9,1). A descendência de Davi continuaria governando, pois Deus estava com seu povo (cf. Is 9,5-7; 11,1-9).

Depois do incentivo à confiança no messias, seguem-se uma porção de oráculos contra as diversas nações. Começando nos capítulos 13 e 14 com a Babilônia (textos provavelmente tardios, pois a queda da Babilônia não poderia ser dita a não ser depois de acontecida), passando pela Assíria (cf. Is 14,24-32), Moab (cf. Is 15–16); Damasco (cf. Is 17) etc, os oráculos vão até o capítulo 23, fechando com advertências às cidades da Fenícia.

Nos capítulos 24 a 27, temos o chamado “grande apocalipse” de Isaías, textos seguramente tardios, introduzidos ao livro por ocasião de sua publicação, em torno do século IV a.C.

Os capítulo 28 a 32 retomam as advertências especialmente feitas à Assíria e ao Egito, cedendo espaço para o “pequeno apocalipse” de Isaías (cf. capítulos 33 e 34; texto também tardio), com anúncios de esperança.

Os capítulos 36 a 39 se referem à atividade de Isaías no tempo do rei Ezequias, filho e sucessor de Acaz, texto que também traz sinais de ser bem posterior, no tempo em que o livro foi publicado.

Notemos que o livro é uma espécie de colcha de retalhos nada bem costurada. O que dá coesão a ele é a principal mensagem do profeta condensada nos primeiros capítulos. É porque o povo pertence ao Senhor que ele não o abandona e o salva por seu amor, enviando-lhe o messias. Todos os inimigos estão condenados ao juízo. Jerusalém também não escapará do juízo de Deus, mas será salva, pois é a vinha que ele adquiriu e cuidou com amor (cf. Is 5,1-7).

Para nós hoje, fica uma mensagem muito importante: Deus também não nos abandona e não se cansa de nos advertir, convidando-nos à conversão. Ele é o Deus-conosco, o Deus fiel e bom, o Emanuel, que nunca nos deixa no esquecimento, apesar de nossas fraquezas. Confiemos nele e anunciemos essa boa-nova como fez Isaías.


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