“Pedro ainda falava,
quando o Espírito desceu de repente
sobre todos os que ouviam a mensagem” (At 10,44)

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia”
(Arnaldo Antunes)

 

Todos sabem que o cristianismo nasceu no berço do judaísmo. Dele herdamos infindas características. Do pai Abraão herdamos a fé monoteísta. Os doze apóstolos são uma referência ao novo Israel de Deus, que suplanta as doze tribos de Jacó. Da páscoa judaica passamos ao evento fundante da páscoa cristã. Dos profetas herdamos bravura e intrepidez para denunciar os desmandos e anunciar a boa nova. Do decálogo judaico vieram nossos dez mandamentos. De Davi nos veio o Salvador, Jesus de Nazaré. A lista é interminável. A fé cristã bebeu e bebe nas fontes da tradição judaica.

Chegou, porém, um momento em que a ruptura se tornou inevitável. Os Nazarenos, como eram chamados, não cabiam mais nas margens estreitas do judaísmo. É o que assistimos nos relatos dos Atos dos Apóstolos. Nos capítulos 10 e 11,Pedro vai à casa de um gentio, um homem não circuncidado, um indivíduo que não estava sujeito à Torá. Pedro o acolhe, assim como os seus amigos e familiares, no seio da comunidade cristã. Essa não foi uma escolha de do pescador do lago de Genesaré. Foi uma imposição do Espírito, aquele que sopra quando quer, onde quer e como quer. O líder da comunidade das origens ficou com “carão” quando o Espírito não respeitou as regras impostas pelo judaísmo e batizou os pagãos sem pedir licença. Mais à frente,em Atos 15, na Assembleia de Jerusalém, esse episódio servirá de garante para Paulo, cuja ação missionária entre os gentios já causava estranheza. Paulo anunciava a palavra aos pagãos, formava comunidades mistas entre cristãos de origem judaica e cristãos de origem helênica, sentava-se à mesa com eles, fazia comunhão com “essa gente desprezível” sem respeitar as regras de pureza do judaísmo, das quais era fiel guardião antes de sua conversão. Foi dessa ruptura que nos veio a fé que hoje professamos.

A fé cristã nasce, pois, da ruptura. Da ruptura com antigas tradições e costumes, da ruptura com liturgias milenares, da ruptura com orientações legais consolidadas. A boa nova está sempre se reinventando ou não seria nova, muito menos boa. Nesses tempos de pandemia, a pastoral católica, assim como quase todas as coisas, tem sido desafiada a se reinventar. Não há mais espaço paraos aglomerados de pessoas, logo as cotidianas reuniões pastorais e as celebrações litúrgicas ficaram interditadas, se não por uma proibição oficial, no mínimo pelo bom senso e pelo cuidado com o outro a que a fé nos impele.

Já se vão mais de dois meses que as Igrejas estão de portas cerradas para os cultos e, infelizmente, nesse período não conseguimos nos reinventar pastoralmente. Afeitos à “pastoral da manutenção” como nos disse o Documento de Aparecida, ficamos de braços cruzados sem saber o que fazer. Os presbíteros, então, nem se fala. Esses construíram seu ministério sobre as bases sacramentais – celebrar missas, realizar batizados, assistir casamentos etc. – e sem isso ficaram a ver navios ou a celebrar missas transmitidas pelos canais de comunicação (TV, Youtube, Instagran etc). Muitos cristãos, perdidos no caos imposto pela pandemia, jogaram o povo contra seus líderes exigindo a volta das liturgias, inclusive criando movimentos internacionais, tais como o “Devolvam-nos a missa”.

Triste realidade ver que nossa pastoral, nossa evangelização, nossa catequese, nossa ação missionária se abriga sob a sombra dos sacramentos. Tal realidade nos revela que a Palavra que faz viver ficou sob a tutela da liturgia e sem ela não sobrevive. Infantilizada, quando fica sem seus pais, a evangelização se esconde do mundo; não sabe se reinventar nem tem coragem de mostrar sua cara, como cantou Cazuza.

Depois de tanto tempo, algumas Igrejas locais estão reabrindo as portas. Primeiro, para sossegar os presbíteros famintos de missa, aqueles cuja identidade ministerial só aparece no serviço do culto litúrgico, não na liturgia da vida. Segundo, porque assim como outras instituições, a pandemia lançou no fundo do abismo as arrecadações financeiras. Também as comunidades eclesiais estão em situação econômica precária e não sabem como pagar suas contas. Terceiro, para responder a um apelo de igrejeiros, cuja fé se reduz em rezar as orações católicas e frequentar as missas.

Não sei como essas comunidades eclesiais vão fazer para evitar a propagação do vírus. Por mais que se tome todo cuidado, as assembleias eclesiais são um foco enorme de propagação do corona. Aglomerações são o prato preferido do vírus que se propaga exponencialmente. Além disso, acompanha essa iguaria o canto litúrgico, cuja força propulsora, saída das entranhas, espalha vírus por todo lado. E ainda tem a distribuição da eucaristia, que também não está livre do risco; e mias: o risco dos abraços saudosos; o bate-papo com os conhecidos para botar a conversa em dia etc. Se liberada a missa, ficam também autorizadas as reuniões dos fiéis para encontros e reuniões, e a mais riscos a comunidade de fé fica exposta. E assim vai.

Alguns bispos já autorizaram o retorno dos eventos eclesiais, com a recomendação de alguns cuidados a serem tomados. Apesar de todo cuidado recomendado, tenho me manifestado resolutamente contra essa reabertura das Igrejas. A fé cristã tem um compromisso ético que é superior ao seu compromisso litúrgico-sacramental. O cuidado com a vida está em primeiro lugar; vem bem antes da tarefa celebrativa. Não será fácil para alguns bispos romperem com a onda tsunâmica que os pressiona a essa reabertura. Já vemos sinais dessa inundação chegando bem perto de nós.

Será menos fácil ainda para os presbíteros desobedecer a decisão da diocese, para obedecer a voz de sua consciência. Tendo jurado obediência ao bispo e a seus sucessores, como agir nessa situação? Alguns estão se sentindo entre a cruz e a espada.

Sobra também para os fiéis uma decisão difícil. Reabertas as portas, devem ou não voltar a participar das assembleias litúrgicas? Esses também enfrentam o desafio de serem rotulados como desobedientes, caso não retornem às atividades religiosas. Estou certa que não vai faltar violência simbólica para pressionar os crentes a voltar às Igrejas. Poderão esses resistir, mas não sem antes serem taxados de ateus, comunistas, marxistas e outras coisas mais.

O que fazer? Como decidir? Cabe aqui a frase de Pedro em At 4,19: “Julgai vós mesmos se é justo, diante de Deus, que obedeçamos antes a vós do que a Deus”.  Também o Vaticano II já nos alertava que a instância última de decisão não é a autoridade religiosa, mas a consciência de cada um. E ainda pedindo emprestada a voz de Gopegui, teólogo jesuíta já octogenário, “a acolhida da palavra humana como divina seria idolatria”[1].

Fico desalentada só de pensar na possibilidade de retornarmos à estaca zero, lá onde nos encontrávamos antes da pandemia nos impedir o contato social. É muito triste notar que grande parte da população parece não ter aprendido nada com os aperreios do tempo presente. Vamos voltar à pastoral sacramental sem mesmo tentar nos reinventar pastoralmente? Vamos continuar deixando a tarefa evangelizadora sob a tutela dos sacramentos? Vamos insistir no modelo eclesial centrado no presbítero, sem dar voz e vez aos leigos? Nossas pastorais serão as mesmas: terço dos homens, grupos de oração, cercos de Jericó etc.? Os leigos continuarão sendo a assembleia do amém? E nossa teologia? Continuará ancorada no pilar do medo e do castigo? Nossa pregação será apenas para difundir devoções e piedades? Muitos de nossos irmãos na fé vão continuar fazendo arminha e defendendo torturador? Lutar pelos direitos dos povos fragilizados – índios, negros, mulheres, população de rua e LGBTs – continuará sendo um crime que brada aos seus? E os padres da mídia – os youtubers da fé – continuarão tendo a palavra final? Tenho medo que tudo volte ao tal normal.

Hoje mesmo, dia de Nossa Senhora Auxiliadora, escuto foguetes e carros buzinando, canções em louvor a Virgem e outros sinais da antiga e costumeira piedade popular. Na atual conjuntura, quando as lágrimas a derramar pelas vítimas da covid-19 são nosso pão cotidiano, alguns ainda se sentem no direito de festejar. Ouço esses sons como um acinte. O corpo da irmã de nossa sacristã ainda nem esfriou direito no túmulo. Tinha 36 anos, deixou dois filhos (um de 2 e outro de 5 anos), a família está em quarentena, não pôde se despedir da irmã querida. Tudo por causa da suspeita de covid-19. E alguns, mais católicos que o papa, soltam foguetes como se o direito de celebrar a padroeira fosse maior que a obrigação da solidariedade.

Rezo a Deus para que haja uma ruptura em nossas igrejas como em Atos dos Apóstolos. De minha parte, não caibo mais em mim depois dessa pandemia. Como canta Arnaldo Antunes: “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia. Eu não encho mais a casa de alegria. Os anos se passaram enquanto eu dormia. E quem eu queria bem me esquecia”. Não se trata de ter me tornado obesa, risco que combato com uma hora de exercício diário, sem me dar o direito de o interromper nem aos domingos. Trata-se de uma identidade cristã construída sobre alicerces de uma sociedade que ruiu, de uma Igreja que mostrou suas pernas bambas na pandemia, de uma pastoral que deixou a nu sua fragilidade por causa de um vírus.

Conservo a esperança equilibrista que, em meio a tudo isso, a pastoral crista – e a fé crista como um todo – possa se reinventar. A pandemia tem nos falado sobre nós mesmos, sobre a fé, sobre os princípios que orientam a vida. Tomara que a gente tenha ouvidos para ouvir e olhos para ver. Voltar às atividades ditas normais sem nos repensar é perder a chance revolucionária dos recomeços. Eu não quero voltar ao ponto onde estávamos. Aquele normal não era bom, não era justo, não era solidário. Nem o normal da sociedade, nem o normal das igrejas cristãs. Canta Arnaldo: “Será que eu falei o que ninguém ouvia? Será que eu escutei o que ninguém dizia? Eu não vou me adaptar, me adaptar. Eu não tenho mais a cara que eu tinha. No espelho essa cara já não é minha. É que quando eu me toquei achei tão estranho, a minha barba estava deste tamanho”.

Espero que a Igreja possa fazer uma reavalização e ver suas barbas grandes, descuidadas. Sua cara não é mais a das origens cristãs. Tomara que a gente se firme não nas balizas provisórias da fé, mas nas suas raízes mais profundas. Tomara que a sociedade e as igrejas cristãs se reinventem. Tomara que saiamos todos melhores dessa pandemia. Que nossas ilusões desmoronem! Que nossas organizações desiguais deem lugar à fraternidade. Desse modo, vamos fazer coro ao que cantou Arnaldo: “O real resiste. É só pesadelo, depois passa, como o estrondo de um trovão”.

[1]GOPEGUI, J. A. R. Experiência de Deus e catequese narrativa. São Paulo: Loyola, 2010. p. 13.


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