“Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias” (Jo 11,17)

(A Aldir Blanc, cujas canções me ensinaram a manter acesa a chama da esperança)

 

“Há que se fechar,
Muitas vezes e sem receios,
Na crisálida.
Que há maturações
Difíceis e espremidas
Que só as asas
Poderão exprimir”.
(Eduardo Calil)

Foi-nos imposta pela pandemia uma reclusão social jamais pensada. Qualquer pessoa minimamente lúcida e ajuizada, que pode trabalhar no sistema remoto, está recolhida em casa, na crisálida, aguardando a hora de sair do casulo e bater asas. Esperamos aquelas maturações difíceis e sofridas que um dia nossas asas vão exprimir. Vivemos no exílio, como recomendou Ivan Lins: “Não ande nos bares, esqueça os amigos, não pare nas praças, não corra perigo. Não fale do medo que temos da vida, não ponha o dedo na nossa ferida. Nos dias de hoje, não lhes dê motivo, porque na verdade eu te quero vivo”.

A arte ajuda a descrever o que vivemos, mas ainda faltam palavras para exprimir a tristeza de tantas dores, de tantos óbitos por causa da covid-19 e tanto pranto diante da morte da democracia brasileira. Custa-nos muito crer que a aurora vai brilhar novamente. Abandonados em nossos sonhos de um país mais justo, assistimos à derrocada da utopia com a tomada do poder da parte de um grupo de milicianos perigosos. Trata-se de uma gente sem coração, que não se compadece de ninguém, ri da cara do povo, faz festinha enquanto o país vela seus mortos, esnoba sua posição de poder, esfrega na cara dos subalternizados seu papel de vassalos.

O Evangelho de João no capítulo 11 relata um belo sinal de Jesus: a ressurreição de Lázaro, cujo nome significa “amparado por Deus”. Sim, um sinal e não um milagre. Enquanto o milagre tem acento no acontecido, o sinal aponta para seu realizador. A chamada ressurreição de Lázaro fala mais a respeito de Jesus, a ressurreição e a vida, que da reanimação de um cadáver morto há quatro dias.

Lázaro é figura da comunidade nascente, amada e amparada por Deus, mas massacrada pelo martírio imposto por seus algozes. O evangelista do Quarto Evangelho dedica 54 versículos ao relato, que mais parece uma peça de teatro que uma mera narrativa. Dividido em seis cenas, a história se desenrola cheia de suspense, drama e estupor. Numa fina escrita teológica, João nos faz repensar os conceitos de vida e de morte, os valores da esperança e da confiança na ação divina, os inevitáveis dramas da vida nunca vividos na solidão, mas sempre na presença daquele que é a vida. O relato teológico é carregado de simbologias, e por isso está repleto de significados que se escondem atrás dos sinais.

Quando soubera da iminência da morte de Lázaro, Jesus estava do outro lado do Jordão, onde o Batista exercia seu ministério (10,40-41). Avisado da doença do amigo, ficou ainda três dias nas bandas de lá e, somente no quarto dia, caminhou para Betânia, lugar do ocorrido (11,17). Marta, uma das irmãs de Lázaro, foi ao encontro de Jesus e lhe apresentou sua reclamação: “Se estivesses aqui, ele não teria morrido” (11,22). Sua justa queixa denota a noite escura da perda daquele que era amado. O irmão querido já havia sido sepultado, pois já eram passados três dias.

O terceiro dia, entendido sempre como o dia da ação de Deus, havia ficado no esquecimento. O Deus em quem confiaram não viera ao encontro de suas esperanças. Toda expectativa de que Lázaro pudesse vencer a morte tinha sido seguramente sepultada no findar do terceiro dia. Tão triste quanto a morte de Lázaro, ou ainda mais dura, era lidar com a morte da esperança que as irmãs Marta e Maria experimentavam. A “bêbada equilibrista”, como escreveu o saudoso Aldir Blanc, havia morrido três dias depois de Lázaro, pois ela é, com certeza, a última que morre.

Passado o diálogo com Marta, é a vez de Maria, verbalizar sua dor com as mesmas palavras da irmã: “Se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (11,32).  Enlutadas, as irmãs enterram no quarto dia a esperança de qualquer saída do labirinto da tristeza na qual foram encarceradas. Jesus quer saber onde puseram Lázaro e, chegando ao lugar, ele chora. Seu pranto é de tal forma comovente que dizem os que ali se encontram: “Vede como ele o amava” (11,36). Logo, não fora por falta de amor ou por indiferença que ele não estivera ali com elas na hora da perda.

O resto do relato, a gente já conhece. Jesus manda retirar a pedra do sepulcro e os espectadores protestam: “Já cheira mal; é o quarto dia” (11,39). Lázaro, atestadamente morto, não podia mais ser alvo da ação de Deus, pensavam eles. Para surpresa de todos, Jesus se dirige ao morto: “Lázaro, vem para fora” (11,43) e o que estivera morto, ouvindo a voz daquele que é a ressurreição e a vida, saiu dos recônditos da morte com mãos atadas e pés amarrados, além de um pano em torno do rosto (11,44). Diante do inesperado, uma ordem é dada ao público que presencia o sinal: “Desamarrai-o e deixai-o ir” (11,44).

Tenho pensado muito nesse relato do Evangelho de João, certamente porque as notícias de milhares de mortes são manchetes nos jornais, estão nas chamadas dos noticiários da TV e pululam nas redes sociais. Não há um único momento do dia ou da noite que essas mortes não nos assombram. Elas não cessam de nos pedir justiça. Milhares de covas abertas nos cemitérios, coveiros cobertos de vestes brancas, agentes de saúde visivelmente esgotados, famílias desesperadas sem poder se despedir de seus mortos e corpos amontoados em hospitais ou caminhões frigoríficos, tudo isso tem feito parte de nosso cotidiano. Difícil manter a chama da esperança acesa, quando o amparado de Deus se mostra desamparado por ele. Onde está Deus diante dessa tragédia? Já é o quarto dia e nossa esperança foi sepultada com os corpos de tantos brasileiros. Nós, as irmãs dos mortos, que ainda suspiramos, só conseguimos exclamar: “Se estivesses aqui, nossos irmãos não teriam morrido”.

Comovido de dor, Jesus chora conosco nossas perdas e chora ainda mais a morte da esperança brasileira. Nossa gente não sabe mais o que fazer, nem como reagir… Estamos como Marta e Maria entregues ao desalento. A desolação se apoderou de nós e atônitos assistimos a tudo: a democracia morreu, as instâncias de poder estão inertes frente aos desmandos do governo, as instituições democráticas são afrontadas, a besta do apocalipse devora a mulher grávida prenhe de vida e ri, ri e ri da nossa cara. No máximo, conseguimos fazer uma postagem nas redes sociais mostrando nossa indignação, escrevemos um texto como eu o faço agora, ou publicamos algum manifesto de repúdio como último suspiro…

Nossa pátria mãe gentil jaz amarrada nos sepulcros da bandidagem, presa por poderosas correntes políticas, que não conseguimos vencer. Choram Marias e Martas no solo do Brasil. Choram a morte da democracia e o massacre de nossa constituição; choram o assalto que nos arrancou nossa bandeira, nosso hino, nossas cores, para instrumentalizá-los em favor da exploração dos pequenos e assim legitimar o sistema escravocrata do neoliberalismo assassino. Em meio a esse tornado, nossa esperança não se equilibra mais na corda bamba de sombrinha; nos passos dessa linha já foi derrubada e se espatifou. Já é o quarto dia – ou quem sabe o quinto ou sexto ou enésimo dia? Como resistir?

Apesar de totalmente compreensível a desolação na qual fomos enclausurados, a voz da fé cristã grita: “Lázaro, vem para fora!”. Não é só ele quem precisa sair do sepulcro, mas também Marta e Maria e tantos outros que ali se encontram. Também os que fazem parte do cenário do sinal joanino estão atados pelas cordas invisíveis do desânimo e da desesperança paralisante. É preciso sair do estado de letargia, e a voz da fé não se cansa de nos interpelar a ações libertadoras.

Ao ver Lázaro saído do sepulcro ainda atado pelos panos da morte, Marta, Maria e os demais recebem a ordem inusitada de lhe arrancar as mortalhas. Os que creem, mesmo chorando sua luta e sua dor, ainda são capazes de uma ação concreta em favor da vida. Não é hora de cruzar os braços, de entregar os pontos. As chamas da estupidez devoraram o Brasil, mas, silenciosa, a resistência tece seu fio inconsútil. É preciso cantar como Belchior: “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro mais”. Mantenhamos viva a memória de nossos antepassados, fortes e valentes guerreiros. Em honra aos que já perdemos, não percamos também a réstia de esperança. No quarto dia do esquecimento, quando acharem que calaram nossa voz, a esperança equilibrista estará de novo de sombrinha na mão, toda serelepe, dando seu show. Não há mal que dure para sempre, nem tirano que mantenha seu desgoverno a vida toda. Um resquício de esperança me faz crer que uma pedrinha lançada pela funda do pequeno Davi vai acertar em cheio o gigante Golias. Vamos continuar tentando. Ainda que não assistamos à derrocada dos malvados, as gerações vindouras celebrarão a vitória da vida. A nós, cabe tirar as mortalhas da vergonha de nossos mortos. Por eles, vamos continuar resistindo. Uma hora a gente canta o resto da canção do Ivan Lins: “Cai o rei de espada. Cai o rei de ouros. Cai o rei de paus. Cai não fica nada”. Vai se manter no fio da navalha só a esperança equilibrista, porque ela é teimosa e resiliente, sempre disposta a recomeçar outra vez.


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