Tudo tem o seu tempo determinado,
e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

(Eclesiastes 3,1)

“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…”
(Mario Quintana)

Debaixo do céu há tempo para cada coisa, diz o livro do Eclesiastes. Há tempo para plantar e para colher, para alegrar-se e entristecer-se, tempo para erguer e destruir, para ajuntar pedras e para espalhá-las, tempo para nascer e tempo para morrer. Debaixo do céu, entre o nascer e o morrer, há tempo para viver, nos alerta o autor. Me espanta que algo tão real tenha sido praticamente esquecido pelo ser humano.

Angustia-me o coração ver que temos resumido a vida a muitos afazeres. Inseridos em uma realidade capitalista selvagem, excludente e devoradora, a todo momento somos bombardeados pelos apelos mercadológicos de que, para sermos felizes necessitamos comprar, comprar, comprar e para isso temos de trabalhar, trabalhar, trabalhar e assim pagar, pagar e pagar. Fomos dentados pela perversa engrenagem do capitalismo e dela não conseguimos nos desvencilhar.

Apesar de essa ser a regra geral, sempre há exceções. Não nos faltam exemplos de pessoas que, sabiamente, perceberam que o sentido da vida está para além de comprar, trabalhar e pagar. Essas descobriram que as exigências profissionais e financeiras não podem roubar de nós aquilo que realmente nos preenche e nos torna mais humanos.

O autor do Eclesiastes insiste: “Debaixo do sol, há tempo para cada coisa; Deus é eterno, mas o ser humano passa e volta ao pó de onde saiu”. Essa é a grande verdade que não podemos negar e não conseguimos esconder de nós mesmos. Somos perecíveis! Dessa roda dentada, não podemos escapar. É o cronos, que nos devora. No hiato entre o nascimento e o apagar das luzes, somos chamados a viver os tempos com intensidade, beleza e simplicidade, concedendo-lhes a reverência que merecem.

A poetisa de Goiás, Cora Coralina, mulher simples e semianalfabeta, traduziu o sentido da existência em seus versos. Na labuta diária, aquecida pelo fogão a lenha e regada pelos sabores de doces, transmitiu sua experiência de que, entre o abrir dos olhos e seu fechamento definitivo, podemos dar sentido à vida. Fazemo-lo quando somos “colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. Isso é o que dá sentido a vida. É o que faz com que ela não seja nem curta e nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura, enquanto durar”.

Nesses tempos de pandemia, as palavras de Cora podem fazer a diferença. No seu singelo ofício, a fazedora de doces e versos arcava com as exigências financeiras da vida, sem deixou a docilidade da vida lhe escapar. Não era possível mudar sua história pregressa, nem recuperar o tempo que lhe roubaram na sua meninice, mas era possível desfrutar a “mística do instante”, como disse José Tolentino. Debaixo do sol, há um tempo para cada coisa; viver esses tempos de maneira graciosa – apesar dos absurdos da vida – depende de cada um de nós. Entre o vir à luz e o seu apagamento, todo tempo é tempo de viver e fazer viver.


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