Até agora, relutamos em introduzir grandes livros, sempre na esperança que, pegando livros menores, daríamos ao leitor maior oportunidade de se aventurar na leitura dos textos bíblicos. Mas chegou a hora de enfrentar os grandes profetas e fechar a coleção que leva este nome “Livros Proféticos”. Tomemos hoje o Livro do profeta Isaías.

O Livro de Isaías traz o nome de um grande profeta que atuou durante grande período (de 740 a 700 a.C.) no reino do Sul, junto a diversos reis que lideraram Judá. Ao pensamento deste grande nome, foram agregados vários outros textos que retomaram a teologia do profeta, de forma que o Livro de Isaías, tal como o temos hoje, é resultado de uma escola teológica que perpassou fases diversas, desde a invasão dos assírios (antes do Exílio), passando pelo Exílio, até a restauração posterior, no período persa.

Todo o livro de Isaías mostra a constante presença do Senhor no meio do seu povo. Seja antes do Exílio, cuidando para que sua gente não sucumbisse diante dos inimigos, seja durante o Exílio, mantendo acesa a esperança da ação de Deus, seja depois do Exílio, animando o povo a recomeçar. Certo é que, apesar de um texto composto a diversas mãos, em tempos tão distintos, o livro de Isaías, tal como o temos (a partir do século IV a.C.), revela como o Deus da vida não abandona sua gente, mandando profetas para adverti-lo e socorrê-lo em suas infidelidades.

O Livro se encontra dividido em três partes, mais conhecidas como Primeiro ou Proto Isaías (capítulos 1 a 39), Segundo ou Dêutero-Isaías (capítulos 40 a 55), Terceiro ou Trito Isaías (56 a 66).

O Primeiro Isaías foi aquele que deu origem ao nome do livro. Aconselhou a descendência davídica por mais de 40 anos, desde o rei Ocozias até o rei Ezequias, com atuação importante junto ao rei Acaz, logo antes da experiência do Exílio. Durante esse tempo, Jerusalém se viu sob diversas ameaças e a atuação do profeta teve grande importância para ajudar o reino do Sul a encontrar caminhos para as suas crises.

O Segundo Isaías viveu por ocasião do Exílio Babilônico, acompanhando o povo deportado na sua desventura longe de sua terra natal (597 a 538 a.C.). Certamente, trata-se de um exilado que, sofrendo as agruras do exílio, interpreta o momento histórico sob a ótica da palavra do primeiro Isaías. Tal é a importância desses escritos para o povo deportado que tal coleção ganhou o nome de “livro da consolação”. Seu teor esperançoso de todo o texto anima a gente sofrida do exílio. O profeta observa o avanço das tropas de Ciro, rei da Pérsia, e vê em cada vitória alcançada pelos persas o sinal da libertação que se aproxima. Faz parte desta bela coleção os “Cânticos do Servo Sofredor”, que ainda hoje impressionam por sua beleza e mensagem.

O Terceiro Isaías certamente viveu depois do Exílio, já nos tempos do retorno e da restauração de Judá. Um repatriado de Jerusalém se põe, à luz de seus predecessores, a interpretar a nova fase que se descortina no horizonte da história de Judá, animando sua gente a reconstruir não só casas, muralhas e Templo, mas as relações fraternas e justas que sempre foram a marca de sua identidade.

Apesar da divisão acima citada, o Livro de Isaías não se apresenta tão homogêneo. O livro que temos hoje foi composto por mãos diversas, além das mãos de três profetas citados acima. Acréscimos posteriores foram enxertados ao texto, como é o caso dos capítulos 24-27 e 34-35 no Primeiro Isaías. Observemos, por exemplo, os capítulos 13-14 que falam da queda da Babilônia, mas se encontram no Primeiro Livro, composto bem antes de tal evento. E não só no Primeiro Livro, mas, em todo o texto, acaba aparecendo aqui e ali um enxerto, uma perícope cuja datação não se equivale ao tempo do livro em geral.

Essa largueza de datas e autores faz do livro uma riqueza sem fim, com um sem-fim de temas que se misturam e se permeiam. Fica, porém, em todo o livro uma marca registrada: “Deus nunca abandonou seu povo. Nem antes do Exílio, nem durante, nem depois!”. Nesta certeza, os “Isaías” relataram sua experiência de fé, advertindo sua gente à fidelidade ao Senhor. A leitura da obra hoje produz em nós a mesma garantia: Deus está conosco, fiel e justo, nos amparando. Sua força nunca nos abandona.

Nos próximos números tomaremos cada um dos três livros de Isaías. Boa leitura a todos!


Livro anterior: 20. O Livro das Lamentações: Lamentar sim, mas sem perder a esperança
Próximo livro:   22. O Livro do I Isaías: Deus salva seu povo

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