Desde a adolescência, eu brigava muito com o meu pai. Parecia que a principal razão de minha vida era contrariá-lo.

Um dia, meu terapeuta disse que já era tempo de mostrar gratidão por tudo o que meu pai havia feito por mim e não ficar brigando como um rebelde sem causa. Concordei e assumi o compromisso de lhe falar do meu amor na primeira vez que nos encontrássemos.

E isso aconteceu em um final de semana em sua casa. Eu já estava lá, sozinho, quando ele chegou. Almoçamos juntos, mas a cada vez que o chamava para iniciar a conversa, não conseguia e mudava de assunto.

– Pai…

– Que é?

– Passa o sal, por favor.

– Pai…

– Que é?

– Passa a salada.

Quando terminamos o almoço, ele foi dormir e prometi a mim mesmo que falaria quando ele acordasse. Ao se levantar, como sempre, foi cuidar do galinheiro. Eu o acompanhei.

– Pai…

– Que é?

– Passa o martelo.

Lanchamos juntos e o assunto continuava em minha garganta. Como era difícil falar de amor para uma das pessoas a quem eu mais amava. Como era difícil mostrar sensibilidade, depois de tanto tempo querendo parecer frio.

Quando ele estava para sair, percebi que não poderia adiar mais. Pedi, então, que se sentasse e comecei a falar de toda a gratidão que sentia pelo que havia feito por mim. À medida que falava, lágrimas começaram a rolar, o choro correu solto e aflorou uma súbita compreensão de sua maneira de me amar ao longo dos anos.

Nessa época, eu cursava a faculdade de medicina. Já estava em condições de me sustentar, por isso havia dispensado a mesada que recebia.

Para minha surpresa, meu pai me interrompeu, dizendo: “Filho, se você está precisando que eu volte a lhe dar dinheiro, tudo bem, não tem problema. A gente se aperta e acaba dando um jeito”. Fiquei atônito e com raiva concluí que ele não compreendia o amor que eu sentia por ele e só pensava em dinheiro.

Meu terapeuta convenceu-me de que eu havia feito a minha parte. Começara a deixar de ser prisioneiro do passado. O comportamento de meu pai representava a maneira que ele havia escolhido para viver e não uma forma de me contrariar.

Alguns meses depois, num sábado, ficamos novamente juntos, almoçamos e ele dormiu. Cuidamos do galinheiro, lanchamos, meu pai se aprontou e nos despedimos. Ele tirou o carro da garagem. De repente, ouvi a buzina de seu carro, como se me chamasse. Fui até a janela da casa e ele acenou para mim. Aproximei-me do carro, meu pai abriu o vidro e me disse: “Sabe, filho, aquilo que você falou naquele dia foi a coisa mais importante da minha vida”.

Ao completar a frase engatou a marcha e saiu voando.


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