“Sabemos que toda a criação geme
e sofre como que em dores de parto até o presente dia” (Rm 8,22)

“Louvado sejas, meu Senhor,
pela nossa irmã, a mãe terra,
que nos sustenta e governa,
produz frutos diversos,
flores e ervas”.
(Cântico das Criaturas-

São Francisco de Assis)

 

“A criação geme e sofre como em dores de parto até o presente dia”, nos adverte São Paulo na carta aos Romanos. O pobrezinho de Assis em reconhecimento à grandeza da criação, rende graças à Deus pelo sol, pela água, pelas flores e, reconhecendo a brevidade do ser humano, bendiz ao criador pela irmã morte.

A preocupação com a criação, obra das mãos divinas, não é algo pertencente unicamente ao tempo presente. Contudo, nas últimas décadas, essa temática tem sido amplamente debatida nos meios acadêmicos, midiáticos, governamentais e religiosos. Isso é um grande ganho, mas, infelizmente, ainda não tem sido suficiente para a promoção da conversão socioambiental.

Basta ligarmos a televisão para nos depararmos com notícias sobre o aumento das queimadas na nossa Amazônia. Em letras garrafais, os jornais impressos noticiam que as praias, de norte a sul do país, estão marcadas pelo óleo da ganância e da irresponsabilidade, assim como os mangues estão contaminados pelo esgoto doméstico e ambicionados pela especulação imobiliária. A lama das barragens pintam de marrom os rios e a sina daqueles que atravessam os projetos mortíferos da extração de minérios.

Se na área ambiental o cenário é preocupante, não é diferente no âmbito social. Nas periferias das nossas cidades, jovens são exterminados, crianças têm seu futuro silenciados pelo zumbido de balas que rompem seus corpos e lhes roubam a vida. Nas calçadas frias e sujas, a existência se esvai entre um anoitecer sem vida e um amanhecer sem esperança. No campo, os índios e camponeses são retirados de suas terras e engolidos pelo agrotóxico.

A criação está ferida; não é valorizada em sua real dignidade. O chorume do lixo escorre na terra assim como as lágrimas dos sofredores escorrem em seus rostos, anulados pela indiferença daqueles que detêm o poder.

A criação grita por justiça e, como nos recorda o papa Bento XVI, “o dever de cuidar do meio-ambiente é um imperativo que nasce da consciência de que Deus confia a sua criação ao homem, não para que este exerça sobre ela um domínio arbitrário, mas para que a conserve e cuide como um filho cuida da herança de seu pai”.

A denúncia feita pelo profeta Oseias é o retrato das situações de ontem e de hoje. “Multiplicam-se juramento falso e mentira, assassinato e roubo, adultério e violência; sangue derramado se junta a sangue derramado. Por isso, a terra geme e seus moradores desfalecem; as feras, aves do céu e até peixes do mar estão desaparecendo” (Os 4,2-3).

O cenário pode parecer somente entristecedor. Por um lado estamos cercados de situações de morte, mas por outro, à luz do Evangelho, nos rodeiam situações que necessitam da nossa atuação como mensageiros da vida e do amor. Se por um lado é desolador, por outro é caminho de promoção da vida. Diante de nós estão caminhos de vida e de morte; cabe-nos a escolha.

Diante de Deus, autor e princípio da vida, resta-nos suplicar a doçura de seu Espírito, mas também sua coragem e bravura, para sermos nesse mundo, sinal de vida e de esperança, mesmo contra toda falta de esperança.  


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